Claudinei Vieira, nosso correspondente na terra da garoa, escreve um texto epistolar para ver se consegue se livrar de sua ressaca literária pós-Flip.
DA RESSACA INTER-FLIP-NÉTICA
Thu, 15 Jul 2004 03:26:54 -0300
claudinei Vieira
A FLIP não foi tão boa assim, como estão falando. Afinal de contas, eu acabei esquecendo a minha escova de dentes preferida lá na pousada. Era a minha escova de estimação, acompanhou-me em várias viagens, fez parte da minha existência. Tudo bem que estava meio baleada, não tinha algumas cerdas, mas, fora isso, era minha amiga. Duvido que alguém possa avaliar minha perda. Agora deve estar jogada em alguma lata de lixo da história, a não ser que alguma outra pessoa a tenha adotado também. Mas, tudo bem, a vida continua.
Tirando este detalhe, a Flip foi legal. Não é possível descrever como foi bom. Ainda hoje estou tentando me recuperar, me readaptar à realidade cotidiana. Não é possível nem tentar aproximar o gosto dessas amizades imediatas que pareciam ter sido feitas há muitos anos e não somente alguns dias. Também não é possível descrever o prazer de todas as conversas que fizemos, das risadas que demos, das palestras que assistimos, dos planos que fizemos. Muito menos possível ainda, dar a dimensão da paciência que tivemos para agüentar a fila do almoço, de tentar conseguir uma mesa (uma das coisas que mais irritam um paulistano típico como eu), de apreciar a beleza fresca e natural das paratienses, ou paratianas??, (o que foi, aliás, um dos motivos que me fez almoçar sempre no ‘panela de ferro’). Bom, como não é possível, então não vou dizer nada.
Certo, nem tudo foram flores. O Chico não me convidou para jogar futebol, em uma atitude de retaliação mesquinha já que não fiz muita questão de participar da histeria coletiva e assistir o seu show, isto é, sua apresentação, isto é, sua leitura. E o Paul Auster já tá meio caidaço, não é mesmo? (ou aquela cara de sonso é normal?). Mas, a Margaret Atwood é linda, nunca vou esquecer as três piadas-de-escritor que ela contou, se fosse alguns anos mais nova, eu casava com ela, desde que esquecesse essa bobeira de ficar caçando borboleta na amazônia. Pelo visto, as borboletas devem estar extintas no canadá para alguém ter uma idéia destas.
E eu não tive nada a ver com aquela história de woodstock literário. Alguém fez sexo, tomou drogas e ouviu rock no meu lugar. E nem me convidou! Eu só fumei um beque, uma única vez. Nem traguei.
No entanto, tudo valeu a pena, porque minha alma etc, etc.
Sun, 18 Jul 2004 21:23:39 -0300
lidiane soares rodrigues
Gostaria de dizer a todos do prazer e da alegria que foram os dias em Paraty. Quero de fato encontrá-los novamente, pois, de alguma forma senti que todos nos interessamos por todos, e o tempo foi curto para nos sabermos até perdemos um pouco da curiosidade acerca um do outro, e no entanto foi tanto suficiente para sabermos que mais noites de longas conversas sem fim ou conclusão se seguiriam caso continuássemos. Por causa dessa brevidade intensa, algumas coisas ficaram sem ser ditas, especialmente por mim, que prefiro ouvir, e oculto algumas coisas se assim o tempo pedir. O texto que segue, precisamente conceituado pelo Claudinei de conto/crônica/testemunha/ficção é um esforço de dizê-las... Mas um adendo: eu desisti de ser escritora, portanto sejam flexíveis na avaliação que eventualmente fizerem. Desejo a todos que jamais desistam dessa coisa pulsante, de que tanta saudade eu sentia, vocês, escritores, não sei se são esquisitos como quer Chico, sei apenas que têm uma coisa no de dentro que me fascina. Sintam-se todos fortemente abraçados,
Saudações Andaluzas,
Lidiane
Do nome e da coisa.
Um escândalo. É no que todas mulheres, dos sete aos setenta, se transformam quando ouvem, lembram, sentem ou se remetem através de qualquer um dos cinco, seis, sete, oitodos sentidos femininos a esse nome: XicoBwark. Elas, escândalo; eles, espântalo. Os meninos entre os oito e os oitenta anos constatam, avaliam, buscam resposta para a irrespondível ‘o que será quer será’, disfarçam o constrangimento, mas testam obstinadamente hipóteses de explicação, defendem teses acerca do fenômeno e, nada: continuam cindidos: entre o imperativo racional de admitir o talento do moço e a ojeriza às suas meninas, mulheres, racionais, frias, difíceis, frígidas, duronas, se desracionalizando, se aquecendo se excitando se entregando à volúpia aos instintos aos febris arrepios de lábios nuca tremor de mãos e olhos, com o mais remoto sopro do nome, com a mais remota chance de vê-lo, com a mais pura fantasia de tocá-lo. Nome é avatar das profundezas mais misteriosas delas, como se habitasse no lar recôndito das cavidades e esconderijos do corpo e do espírito do feminino: morada da qual o homem quer gozar, deseja se apoderar e nela, quem sabe, viver.
Pois ela, nem queria mais. Como se sabe, após o gozo, um cigarro, um afago, um silêncio, um sorriso: minuto seguinte, fruição, como só os deuses gregos puderam na história. E ela havia gozado. No dia anterior, o olhar de uma mulher, daquelas que sabemos ‘com esta realizaria todas minhas fantasias homoeróticas’, e que não se precisa dizer o nome pois era a coisa de dentro dela que havia lhe feito aquele efeito de: sentir-se mulher demais para qualquer homem. Preliminares quentes. Naquele dia mesmo, ao sentimento de fêmea viera se adensar o de libertinagem crítica, na identificação que sentiu com a perspectiva política do humorista de quem não quer dizer o nome, pois aqui os sem nome estão mais próximos da coisa que são, não demandaram signos mas atendem pelo chamado intuitivo de seu significado. Polis erotizada.
Anteontem, ontem, hoje, a semana já a penetrara como se a vivesse há anos. Embora seu nome fosse literária, assim o parecia de pouco, por ter tietagem de muito; mas ela, tão saudosa desse conhecimento de vida que a literatura dá, e dessa vivência de vida que se torna literatura, ela gostav ela queri ela, ela é qu, ela, ela ela gozava... das promessas quentes das preliminares do Eros politizado dos olhares as palavras e a vida das coisas tão vivas ainda sem nome: ao gemido grande gritante longo, se seguiria o minuto pleno que vem depois do gozo e ela linda como as mulheres que gozam dilataria o seu minuto por horas horas e dias dias, que depois da viagem ficaria difícil voltar dela.
...não faço mais questão de entrar... “Vamos ver se a gente consegue, olha essas mulheres correndo!” ...ah eu entendo... “Vamos ficar na fila, a gente diz que é da Oficina.” ...estão dizendo in off que tem um barzinho... “Não sei, talvez seja melhor entrar depois de todo mundo.” ...com um telão, aqui atrás, é perto... “Como estamos fazendo nas outras mesas.” ...no barzinho a gente podia tomar uma coisa fresca... “Faz assim, vamos nos dividir, é muito,” ...e eu... “se aparecer assim, a mulher não deixa a gente entrar” ...eu estou com sede... “Ah, e se você gritasse ‘olha o XicoBwark’, todo mundo dispersa, a gente entra.” ...todo mundo quer ir mesmo?... “Entra aí na fila, vai.” ...mas... “Acho que liberaram a entrada”.
Uma moleza, um estender de pernas, uma bituca, aquela agitação parecia distante dela que não gostava de estádio de futebol, nem de show de rock e que sempre se perdia dos amigos em coisas com muita gente. Muita gente, se sentia atrapalhada, não se encontrava em ninguém, alguém estava ali pelo mesmo motivo que ela? Os homens-meninos-bravos, não. As mulheres-excitadas-excitando-homens-com-cheiro-de-hormônios que não pululavam por eles, não. Por que ela estava ali?
Incômodo que não podia esperar XicoBwark e PoulAuster lerem um ao outro, nem as palmas passarem, nem a folia acabar nem nada começar nem as perguntas nem as réplicas nem as tréplicas nem a tradução nem reencontrar a todos. Todos. Onde estavam? Olhava distante, embora fosse perto, o XicoBwark, mas onde estavam todos? Cadê vocês? Tantos rostos e: nenhum. Pensou em sair, mas. Pensou em chamar, mas. Pensou em acenar, mas. Pensou em, mas. Pensou, mas. Não. Ia ter que ficar com a voz e o rosto de XicoBuark mesmo. E cadê-los? Era a pergunta que acompanhava a outra, cadê-me?
Tentou se concentrar, mas a idéia de uma multidão concentrada lhe pareceu um equívoco, embora não estivesse em condições de qualificar nada de equivocado, tão deslocada ela mesma estava. No seu esforço sobrehumano conseguiu ouvir qualquer coisa que lhe deu certeza de que ler PoulAuster era fundamental, teria de descobrir o nome do livro depois. As costas começaram a doer o bumbum, o frio do chão e nenhum, rosto algum. Xicobwark. Lá pelas tantas, sua voz era som sem tema, e seu rosto se descolava de seu nome, XicoBwark, e trazia todas as canções que musicalizavam os seus amores mortes perdas lágrimas: a sua dor profunda na pior delas: a dor de existir. Então do amor gritou-se o escândalo, do medo criou-se o trágico no rosto pintou-se o pálido e não rolou uma lástima nem uma lágrima pra socorrer. Mas as lágrimas logo correriam e preferiu se agarrar a uma menos dilacerante, sim tinha tantas dores que vezenquando se autoferecia o luxo de escolher entre elas, afinal ninguém havia, com tantas pessoas ao seu redor, para lhe abraçar. E bela, dor bonita. Intrigada: aquele nome viveu coisas que faziam com que ele conhecesse coisa demais, soubesse demais, qualquer coisa nas canções diziam de mais acerca de nós, e ali de repente pensou estamos todas nuas pelo seu país? E bela, dor bonita. A dor a que se apegou para tentar suportar sem abraço sem mãos dadas sem toque no cabelo sem, era a dor do ser mulher, pois esta se vive só mesmo, sem escolha. Uma professora xicóloga havia encontrado modelos de mulher nas chicas do XicoBwark: órfica, prometéica, dionisíaca: então as diversas faces femininas subitamente trazia a ela a sensível lembrança de seus amantes. O primeiro que me via, brincando e gostando de ser. O da ferida, que me fazia ferina, dizia a ele que não saía dos trilhos, mas ao fim trocariam tiros, como fora bom encontrá-lo e não vê-lo suportá-la tão feliz... é que lembrava e ainda sentia que muitos homens lhe amaram bem mais e melhor que. O primeiro e os que fizeram mais e melhor lhe deixavam saudades e um sorriso encantado desenhado com as linhas da memória e com o sabor da ambígua amizade: que será, que será?, e a beleza melancólica do rosto se adensava com a lágrima que o da-ferida lhe arrancava, pois o pobre homem só extraía isso mesmo de suas mulheres. Poucos, raros, nunca foi de tantos, e nesse nem tanto, seus poucos amantes, entretanto, lhe pareceram tantos que ela sentia rugas no canto dos olhos das lembranças e nomes masculinos, eram apenas quase trinta anos que ela tinha mesmo? E com o frio e o cansaço e o sorriso de lembranças e o gozo, mulher virando no sofá, sofá virando cama coração... amor já vai embora ou PlaPlaPlaPlaPlaPlaPlaPlaPlaPla, mais, PlaPlaPlaPlaPla PlaPlaPlaPlaPla. Cadê-los? Terminava a tal mesa e todos sumidos. Parou. Não havia terminado, é que as palmas a traziam de PlaPlaPlaPlaPlaPlaPlaPlaPlaPla volt PlaPlaPlaPlaPlaPlaPlaPlaPlaPla volta PlaPlaPlaPlaPlaPlaPlaPlaPlaPla à realidade.
Mais e mais falta de alguma coisa que no interior da noite anterior estava presente. Pequenos e furtivos encantos amores ou qualquer coisa que fazia daqueles, dias incompreensíveis. Cadê o amigo que faz samba e amor até mais tarde, ligou um dia antes da viagem para avisar o tipo de sapato feminino mais adequado pois era difícil de andar na cidade, como enternecia o modo como ele. Cadê ele que dividia as descobertas sobre Morangos Mofados, e tanto ajudava sem nem saber como, engraçado e sensível, me autorizava a rir sem medo. Cadê, o irritado com a XicoBwuakisteria, que tentava não deixar sua irritação o igualar à desrazão hormonal delas, e era bonito de ver seu esforço. Cadê aquele enigma, de jeito manso, que pôs meu coração a balançar? Cadê, o que precisei ir tão longe da universidade para saber que estuda no prédio ao lado e que também lê ela, minha escritora? Sentia tanta falta que se fosse possível, alguma coisa ser só o vazio, seria. Talvez não fosse um corpo com uma parte amputada, pedaço de mim, não sentia uma falta, um vazio: ela era a própria falta. E o outro, o amante, tão mais quente em seus braços, com ele, tão mais quente a fria paulista na ligação do dia anterior “no sonho de quem você vai e vem...que horas, me diga, que horas você volta?”
PlaPlaPlaPlaPlaPlaPlaPlaPlaPla PlaPlaPlaPlaPlaPlaPlaPlaPlaPla olhou ao redor PlaPlaPlaPlaPlaPlaPlaPlaPlaPla parecia que até que enfim PlaPlaPlaPlaPla poderia encontrá-los. Nem que não a escutassem: queria encontrá-los. Voltar à pousada, pensar sobre a palestra dos humoristas, sobre política, tomar um banho, última noite com todos juntos, passaria até batom, será que o garoto gaúcho tiraria mais fotos líricas? Será que a máquina dele registrava a alegria de ir reecontrando todos? Aliás, cadê ele, o próprio açúcar com afeto? Aos poucos, cadê-los, se resolvia... e cadê-me, também: as perguntas tinham a mesma resposta.
Foi bonita a festa pá...fiquei contente...
“Ai que legal”, “Nem acredito que entramos”, “Nossa como ele já está velho, né?”, “Ai mas o PoulAuster parecia meio ausente”, “Eu não acredito que aquele livro dele era autobiográfico”, “Que sem sentido aquela pergunta”, ...melhor nemnão falar... ....vou só sentir... melhor só sentir... ainda falta o do coração a balançar, mas a ausência e retorno súbitos dele faz parte do balançar... já me sinto melhor, faltava agora só seu abraço silencioso terno calmo que me beija com calma e fundo até minh...
Alguma canção que não conseguirmos ouvir lhe tocava os olhos naquela hora, talvez pensem que é emoção de ver Xic.., pensou. Aos poucos não ouvia mais o murmurinho daqueles encantos proibidos pela pouca intimidade daqueles que acabam de se conhecer mas muito mais querem um do outro ainda. Alguma canção de Chico, Tom ou Vinícius tocava em seu coração naquela hora e eu que era triste e conduzia o ritmo de seu silêncio e o volume dos seus passos. Não sabemos qual ou se eram todas juntas. Mas ela, ela sim, sabia do essencial: que n’algum lugar daquela noite a xicobwarquisteria seria tratada, medicada, curada. Um exemplar da espécie diria algo a uma exemplar da espécie. “Você também leu esse livro?” “Sabe qual passagem mais me emociona?” “Você também?” E compartilhariam uma dor. E da partilha da dor o insuspeitável desejo salvaria o prazer, metamorfoseando a condição da humana absoluta solidão em condição mesma da fome do Outro. Como que, de doendo, a incompreensão dos gêneros, de tão profundamente grande e corajosamente assumida, passasse a arder na pele eriçar os pelos contrair de carne. Eles se deitariam, na perfeita incompreensão, encontrariam-se um na falta do outro, e se compreenderiam assim fazendo um ao outro. Ela é qualquer uma, alguma, mais uma, delas. Ele, pode ser Francisco, quem sabe Pedro, ou João, talvez Severino: mal sei como ele se chama, mas entendo o que ele quer. Não gozarei sozinha esta noite.
Tue, 20 Jul 2004 00:18:14 -0300
Tatiana Carlotti
Gente, que coisa maluca! Ficamos todos assim...
Estive essa semana aérea, perdida nas minhas coisas, nos móveis aqui de casa, no silêncio que eu tanto prezo. A mente vagando em mil possibilidades de ver e existir. Escrevendo. Produzindo. Achava que Paraty havia sido particularmente especial para mim, por motivos pessoais, mas quando comecei a ler os e-mails, os textos, (todos), percebi que havia sido algo coletivo. Fico feliz por compartilhar isso com vocês. Não ia mandar texto algum, mas depois de ler o texto lindo da Lidiane, os e-mails, e ver que a sensação é geral, vou colocar mais lenha nessa boa fogueira da memória, ou melhor, nessa boa fogueira de desejos.
PARATY E O DESEJO
Franziu os olhos para ver melhor. Talvez acreditasse que veria mais. Mais o quê? Queria manter o gosto do cigarro na boca, o cheiro de mofo dos quartos, o brilho das pedras nos olhos. Impossível. A estrada sempre embaralha a memória e quem escreve o roteiro é o desejo do que deveria ter sido. O desejo. Esse velho bêbado que destece as lembranças e constrói o que quer. Não escondo nada dele. Ele entra na minha casa, muda os meus móveis, se mete na minha cama. O desejo come as minhas idéias. Todas foram defloradas por ele, seu pau é grande, seu gozo é longo. Depois de conhecê-lo todas me fogem. As idéias. Eu ralho com ele. Xingo. O mando cozinhar, arrumar o quarto, limpar o banheiro. Ele ri. Do alto da sua empáfia, o desejo me manda calar a boca. Sim, ele não é nem um pouco cortês. Às vezes parece um lobo que vai me atacar. Às vezes um asno no meio da sala. Eu já me acostumei.
Em Paraty eu cruzei com ele várias vezes. Em Paraty ele me seguiu como um louco e só se contentou quando os fogos estouraram na ponte. Foi bonito, o céu e o rio explodindo coloridos. "Pode voltar minha criança que eu costuro as tuas memórias", ele disse. Eu sempre soube que o desejo estava lá. Nos aplausos da platéia. No riso nervoso dos mediadores. No olhar do Chico. Na voz do Paul Auster, a voz do Paul Auster. O desejo de comê-los. Todos eles. O desejo de tê-los por um segundo apenas. Exibi-los numa coleção privada. Íntima de reconhecimentos. Perseguí-los numa ânsia insonsa. Aplausos. Aplausos. Escritores deveriam viver em completo sigilo, sem imagens, sem vozes, sem realidade. Escritores deveriam ser papéis em branco, seriam menos perigosos. Como ouvir Hector Man (O livro das ilusões) sem imaginar as mãos de Paul Auster rodando os óculos sobre o joelho? Como saber que Hector Mann dá quatro sem parar? "Isso é injusto". "Golpe baixo", diz meu marido enciumado. Olha aqui o desejo mijando de rir sobre os meus ombros. Ele está lendo essa babaquice. Podem ouvi-lo? Ele está chacoalhando a pança gorda nas minhas costas, e suas mãos quentes estão sobre os meus ombros. "É mentirinha Tati! Quá quá quá! É ficção."
Agora só restamos nós dois. Eu e o desejo. Ele finge ser gentil. Traz-me flores. Traz-me vinho. Ele finge gostar de Debussy. Finge dançar bem. Eu sei quem ele é, mas faço de conta que não sei. Eu cheiro as flores. Bebo o vinho. Eu encosto a minha cabeça nas suas pernas e ouço a música. Pressinto seu bote, mas ele se contém. Ele me aguarda, quer que eu lhe chame pra cama. Então eu lhe peço: "Querido, me conte uma bela história". Ele olha para o teto sem paciência, mas resolve fingir. Cruza as pernas e abre o livro, sua voz é grossa e seus dedos tateiam as letras, ele lê através dos dedos, e seus olhos estão fixos em mim. Ele conta as histórias da sua mente, e eu as reconheço. Todas. Todas as histórias já minhas. Todas as histórias que leio desde menina. Je vous accompagne dès petite.
Eu tenho as palavras de Hector Mann. Eu tenho o olhar de Miguilim. Eles são o suficiente pra mim. Talvez seja esse o prazer, deixar o desejo ser com suas vestimentas e penduricalhos. Em Paraty meu desejo se transvestiu de tantos nomes e tantas frases, é a minha lembrança mais adorável: minha própria imagem sóbria seduzida por esse fanfarrão que me acompanha desde criança, e no fundo, a frase copiada da Ligia que valeria por todo um silêncio: o ser humano é imprevisível, incontrolável e inacessível.
Beijo
Tati
CLAUDINEI VIEIRA
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:: julho 24, 2004 10:47 PM