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A senhora da primeira fila
por Ronize Aline

Nunca foi de sair muito. Aliás, quase nada. A casa é seu castelo; a cidade, seu reino. Os amigos brincam instigando-o a pôr os pés para além da soleira da porta:

- Luís, desse jeito as pessoas vão até esquecer que você existe.
- Podem até me esquecer, respondia zombeteiro. Só não podem esquecer os meus personagens.

Escrever livros é uma coisa coisa. Divulgá-los, outra completamente diferente. Vez por outra era convencido pelo seu agente a comparecer em alguma dessas feiras literárias para mostrar a cara, conversar com o público, sabe como é. Por fim cedia aos argumentos e tinha então início uma angústia que só o abandonaria quando chegasse ao tal evento. Era sempre assim, ninguém mais dava importância aos seus ataques. Os cinco dias que antecediam o encontro eram um suplício só, difícil ficar perto de Luís. Reclamava de tudo, nada estava bom, ameaçava não comparecer no dia e hora marcados. Mas era só botar os pés no auditório, sala, tenda, o que quer que fosse, e olhar para a expressão ansiosa dos presentes que todo o desconforto desaparecia. E nem mesmo a certeza de que aquele mal-estar era passageiro evitava que ele se repetisse da próxima vez.

Dessa vez seria um encontro literário em uma pequena cidade histórica. Algo intimista, o que poderia tornar as coisas mais fáceis ou mais difíceis. Participaria de uma mesa-redonda logo no primeiro dia, o que se por um lado anteciparia o fim de sua angústia por outro dava-lhe a responsabilidade de abrir a festa. Assim que tomou seu lugar no palco teve a visão de uma senhora sentada na primeira fila que o tranquilizou rapidamente. Deveria ter um pouco mais de cinquenta anos, os cabelos grisalhos começando a aparecer sob a tintura vermelho-acobreada e as bochechas rosadas mais pelo aspecto saudável do que pelo blush utilizado. Uma senhora sorridente, calma e de gestos polidos; impossível imaginá-la praticando qualquer ato mais rude. Pronto! A senhora da primeira fila sem saber conseguiu apagar os últimos resquícios de nervosismo em Luís. A sua participação foi um sucesso.

No dia seguinte reparou que a todo lugar que ia a senhora da primeira fila ia também. Mas não se aproximava. Ficava ao longe fingindo não notar a presença de Luis e muito menos estar ali por sua causa. Mas Luis, acostumado às artimanhas de seus personagens, foi ficando mais desconfiado à medida em que o tempo passava. Se ia para lá, ela ia também; se voltava, cá estava a senhora de novo.

- Besteira!, disse Lúcia. Você não está acostumado a multidões por isso o nervosismo. Não há nada nessa pacata cidade e nem nesse público acolhedor que justifique essa sua ilusão de estar sendo seguido.

Estar sendo seguido! Lúcia conseguiu exprimir em palavras o aperto que sentia em seu peito e não conseguia nomear. Pensando racionalmente é claro que não fazia sentido ele ser vítima de alguma conspiração que utilizava senhoras simpáticas para atrair suas presas. Ainda mais ali, onde havia numerosos pares de olhos sobre ele e nada poderia acontecer sem que fosse fotografado, filmado, registrado. Não tardou a sentir-se preso dentro de um de seus contos, numa daquelas situações que brotavam pura e simplesmente de sua imaginação. Então ele estava sendo seguido pela adorável senhora da primeira fila? Pois que seja! Quero ver como essa história se desenrola, pensou, num misto de apreensão e excitação por ver a realidade surpreender a ficção.

Naquela noite foi assistir a um espetáculo de escritores que eram também cantores, ou vice-versa. Era um grupo de rock e acabou indo mais por insistência de alguns amigos. Apesar de sentir-se um estranho no ninho, reparou que não era o único. Mais adiante, na outra lateral do palco, estava a tal senhora, a que havia feito a sua imaginação fervilhar por toda a tarde. Aquela presença ali só confirmava a suspeita de que estava sendo seguido, afinal era pouquíssimo provável que ela curtisse aquele som pesado. Então seria ali, no meio daquele show que tudo aconteceria?, arriscou Luís. Bem pensado, afinal com aquele barulho e as pessoas com os olhos grudados no palco ninguém daria pela sua falta. Talvez até mesmo Lúcia se distraísse e só reparasse que ele havia sumido quando já estivesse longe dali. Ansioso tal qual criança em véspera de Natal, aguardou por todo o tempo em que durou o espetáculo. A senhora não agüentou tanto e desapareceu muito antes do final. Os amigos repararam que Luís apresentava um certo ar desolado quando voltaram para o hotel, mas atribuíram-no ao excesso de movimento para uma personalidade tão calma. Ninguém suspeitaria que estava frustrado por não ter sido refém de uma história mirabolante que, por enquanto, só existia na sua cabeça.

No último dia da festa literária haveria o lançamento de seu mais recente livro com direito a sessão de autógrafos e tudo o mais. Muito antes do horário marcado já havia uma fila imensa que ultrapassava a porta da pequena livraria local e vinha juntar-se às crianças que brincavam na praça. Por mais cansativo que fosse, esse era um momento extremamente agradável para Luís. Deixava em cada livro uma dedicatória que seria guardada com carinho pelos leitores e, quem sabe, passada de geração a geração como um bem precioso. Já ia bem uma hora de autógrafos quando Luís reparou que a próxima pessoa seria a senhora da primeira fila. Sem conseguir esconder um risinho afoito no canto dos lábios, pegou a caneta e se preparou para uma dedicatória especial. Só quando seus rostos já estavam bem próximos foi que Luís reparou que, no lugar do livro, a senhora trazia um guarda-chuva preto na mão direita. Por alguns segundos ficou sem ação; mas ela não. Num gesto ousado para a situação, a doce senhora levantou o braço direito e desandou a sacudir o objeto impróprio para um dia de sol escaldante como aquele. Com o movimento, uma das hastes desprendeu-se do centro e o pano preto, tal qual uma asa negra de graúna, iniciou um vôo solitário ante os olhares estupefatos dos presentes. Por fim pousou sobre a cabeça de Luís, com tantos louros recebidos mas até então nenhuma guarda-chuvada.

- O senhor é um desavergonhado!, repetia a senhora sem parar de bater com o guarda-chuva em Luís.

- Desavergonhado por quê?, insistiu pela terceira vez o escritor que, ante o acontecido, trocara o risinho por uma ruga de incompreensão.

- Porque só um desavergonhado é capaz de durante anos bisbilhotar a vida de uma pessoa de bem e ainda por cima sair publicando tudo o que bisbilhotou.

- Bisbilhoteiro? Eu? Mas eu quase nem saio de casa. E afinal, de quem a senhora está falando?, surpreendeu-se Luís, ainda tentando se safar do ataque virulento a que era submetido.

- De mim, é claro! Não é de hoje que o senhor fica sabendo, sabe-se lá como, tudo o que acontece comigo, com meus amigos, vizinhos, até com meu marido e meus filhos. E depois escreve tim-tim por tim-tim nesses seus livros que vendem muito às custas da minha vida. Escritor, que nada! O senhor é um fofoqueiro.

Luís parou de se debater contra o guarda-chuva, lançou um rápido olhar para Lúcia e tentou disfarçar o sorriso maroto que insistia em pousar em seus lábios. Apenas a mulher entendeu que naquele momento ele havia recebido o melhor prêmio que poderia almejar como escritor.



| comentários (11)

:: agosto 2, 2004 05:17 PM



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