Território historicamente ocupado por eruditos e vanguardistas, a Literatura brasileira revezou-se ao longo do século XX entre o apuro da linguagem acadêmica e a busca constante por estilos que traduzissem a alma do povo e fizessem um diagnóstico fiel e contundente de um país em permanente mutação, ainda hoje carente de uma identidade na qual se reconheça por inteiro e se aceite em definitivo.
Sem querer entrar na discussão do que é ou não válido em relação à produção literária nacional, o fato é que tanto a erudição, quanto a experimentação, por mais extraordinários que tenham sido os resultados, acabaram abrindo um abismo considerável entre livros e leitores. Assim como no Direito, as leis, verbosas e intricadas, muitas vezes parecem ter sido redigidas de maneira a não serem assimiladas pela população leiga, muitos escritores brasileiros, guardadas as devidas exceções, atravessaram o último século aparentemente mais preocupados com o virtuosismo estilístico do que em se fazer compreender. Confrontados por um mercado leitor atrofiado, o prestígio junto à crítica exigente sempre à procura de um novo Machado ou Guimarães Rosa apresentava-se como o único caminho para a consagração, já que as possibilidades de se atingir uma vendagem razoável eram – e de certo modo, continuam sendo – bastante reduzidas. Pelo menos no início da carreira.
Um escritor que se proponha a produzir Literatura de entretenimento no Brasil esbarrará, primeiramente neste obstáculo – a dificuldade de profissionalização – para em seguida se defrontar com um inimigo ainda maior: a entranhada rejeição a este segmento ficcional, enraizada nos nossos círculos intelectuais. Experimente buscar a opinião de críticos e editores sobre o assunto e eles serão quase unânimes em alegar, antes de tudo, que não possuímos tradição nas letras de entretenimento em nosso país; um argumento que começa a fazer água, antes mesmo de ser concluído. Afinal, tradições sempre podem ser inauguradas. O Brasil não tinha tradição em Literatura urbana até Rubem Fonseca, nem em Literatura infanto-juvenil até Monteiro Lobato; e não foi o próprio Machado de Assis que, com o seu Memórias Póstumas de Brás Cubas inaugurou a escola realista, deixando para trás o romantismo que predominava na cena literária nacional até então?
Existe, é claro, o peso dos cânones e o temor de contrariar toda a nossa célebre trajetória literária, um dos orgulhos da cultura brasileira. Não podemos nos esquecer que vivemos, hoje, ainda muito próximos de um período extremamente rico da Literatura nacional em que brilharam autores geniais do quilate de Guimarães Rosa, Carlos Drummond de Andrade, Graciliano Ramos, Erico Veríssimo, Clarice Lispector, Jorge Amado, Manuel Bandeira e João Cabral de Melo Neto, entre muitos outros. É compreensível que as gerações surgidas logo a seguir se sintam oprimidas pela sensação desanimadora de que nunca conseguirão se igualar aos mitos, que dirá superá-los. No entanto, é preciso ter em conta que a reunião, num espaço de seis décadas, de tantos escritores extraordinários em atividade, como aconteceu no Brasil recentemente, é uma circunstância raríssima em qualquer Literatura do mundo e é muito provável que ela não se repita por aqui tão cedo. Os novos escritores precisam, então, vencer essa verdadeira angústia de influência e encontrar o seu próprio rumo no terreno da criação literária, sem o medo de estar cometendo um crime inafiançável.
Vendo por esse ângulo, a ausência de uma tradição de ficção de entretenimento no Brasil pode até ser positiva, uma vez que existe todo um vasto universo ainda bastante inexplorado a ser criado, sem a necessidade de se prestar contas aos cânones do passado. E a sua consolidação, a meu ver, só traria benefícios a todos. Aos editores, pois estes contariam com obras de mais fácil difusão e assimilação, que lhes proporcionariam receitas maiores permitindo-lhes, assim, investir naqueles autores mais sofisticados, de vendagem mais lenta e leitura mais complexa e elaborada; a um segmento de escritores, que enfim se libertariam da obrigação velada de sempre escrever o livro da sua geração e poderiam assumir-se simplesmente como artesãos das letras, contadores de histórias, dando, assim mais asas à criatividade e menos à erudição e à experimentação; e, acima de tudo, aos leitores, que ganhariam uma opção de leitura agradável e despretensiosa, com personagens e identidade brasileiras, sem mais precisar recorrer aos autores de língua inglesa sempre que desejassem se entregar a uma leitura mais digestiva. Seria uma renovação natural, semelhante à que ocorreu com a música. Do mesmo modo que, em dado momento da História, nasceu a MPB – Música Popular Brasileira –, que enriqueceu o panorama musical brasileiro, ampliando a gama de estilos e estimulando a criatividade de novos e talentosos artistas, seria excelente que o mesmo ocorresse com a Literatura e tivéssemos a oportunidade de assistir ao nascimento de algo como uma LPB – Literatura Popular Brasileira –, que longe de competir com a Literatura já existente, se somaria a esta, diversificando ainda mais a maneira brasileira de se pensar e produzir boa ficção.
Quem sabe, nos próximos anos, não surja uma corrente de escritores, empenhada em dar vida a uma LPB, numa mobilização semelhante às ocorridas no decorrer do século XX que, por tantas vezes, propuseram novos caminhos para se escrever e pensar o Brasil? Eu não tenho a menor dúvida de que este é o grande passo do qual nosso país necessita para aproximar em definitivo pessoas e livros, criando uma relação fecunda de intimidade e trazendo a leitura para o dia-a-dia do povo que, apesar de olhá-la com reverência, ainda prefere guardar reservada distância. No dia em que uma parcela dos escritores decidir produzir trabalhos de qualidade voltados primordialmente para o público e encontrar aliados no meio editorial que acreditem no seu potencial e decidam lhe dar o adequado suporte, a Literatura brasileira viverá, talvez, um dos momentos mais importantes e revolucionários de toda a sua História: a dessacralização do ato de ler e a sua imediata incorporação ao lazer das pessoas comuns.
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LUIS EDUARDO MATTA
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:: agosto 15, 2004 10:33 PM