- Cuidado! Os Papaloucos estão na cidade!
Se você já ouviu essa frase sabe muito bem a confusão que vem por aí. Se nunca ouviu, acho melhor contar algumas coisas a respeito desses seres.
A última vez que foram vistos foi em uma cidade muito simpática chamada Aconchego. Um lugar em que todos têm casa, comida e trabalho. Nenhuma grande desgraça jamais chegou até Aconchego. Quer dizer, pelo menos até os Papaloucos aparecerem por lá. Devia ser quarta ou quinta-feira, não lembro ao certo. Só sei que no exato momento em que o primeiro deles colocou o pé em Aconchego toda a população ficou sabendo que havia novidades. É que, além de a cidade ser pequena e as notícias se espalharem rapidamente, um Papalouco não é um ser discreto. Ainda mais quatro Papaloucos juntos.
O primeiro a aparecer na praça foi Giroflex. Baixinho, barrigudo e de cabelos roxos arrepiados no alto da cabeça, Giroflex é o que se poderia chamar de equilibrista do grupo. Assim que chegou em Aconchego empilhou algumas cadeiras, mesas, armários e escadas que estavam na praça central e pôs-se a subir. As pessoas, que nunca tinham visto um Papalouco antes, ficaram assustadas e com medo de que ele se estabacasse lá de cima. Mas Giroflex é muito bom nisso. Ele subiu, subiu e subiu tanto que ficou mais alto do que a torre da igrejinha. E como ele vai descer agora?, pensavam as pessoas na praça. De repente Giroflex deu um salto mortal acompanhado de uma pirueta e, pronto! já estava aqui embaixo de novo. Os mais velhos tiveram que se sentar pois ficaram sem fôlego, os mais novos batiam palma animadamente. Nem bem se recuperaram do susto e eis que surge o segundo Papalouco: Boquito. Esse é bem mais alto do que Giroflex, bem mais magro e tem a pele esverdeada. Sem um único fio de cabelo na cabeça, já entrou na cidade cantanto. Imediatamente a população começou a ficar com lágrimas nos olhos. É que Boquito tem uma voz tão doce e tão profunda que nem parece caber naquele corpo tão magrelo. Em alguns momentos parece mesmo que um trovão sai de dentro do seu peito. Até mesmo quem não era muito chegado a música deixou-se emocionar pela voz de Boquito. As pessoas ainda enxugavam as últimas lágrimas quando repararam que havia mais um Papalouco por ali. Era Trimiliqui, o faz-tudo. O corpo de Trimiliqui lembra mais um quadrado do que propriamente um corpo de gente e parece que suas mãos tem seis e não cinco dedos dada a agilidade em manusear objetos. Rapidamente ele tirou do bolso um lenço vermelho e um palito de picolé e fez com isso uma linda rosa. Trimiliqui ofereceu a rosa à moça mais bonita da cidade, que ele é Papalouco mas não é burro. Em seguida catou alguns papéis trazidos pelo vento e fez com eles um cãozinho salsicha. Uma menina ruiva logo chegou perto dele gritando: “É meu, é meu”. E lá se foi ela com o seu cãozinho. Assim foi durante muito tempo, Trimiliqui pegando restos daqui, pedaços dali para criar objetos e dar aos moradores. Só parou quando foi cutucado pelo Tantã, o quarto Papalouco. Tantã, ao contrário dos outros três, não é bom em nada mas cativa pela sua falta de jeito. Com três pernas e três braços, tentava fazer um pouco de tudo o que os outros faziam, mas nada dava certo. Atrapalhado ao extremo, caía da escada, sua voz lembrava um gato miando e sua rosa mais parecia uma urtiga. Então as pessoas começaram a rir de suas atrapalhadas e não pararam mais. Cada um puxava um Papalouco para um lado querendo levá-los para sua casa. Eram quatro figuras que tinham rapidamente conquistado a cidade com suas habilidades, ou a sua falta de habilidade. Só ninguém ainda tinha a mínima idéia de por que eles se chamavam Papaloucos.
No começo estava tudo calmo: cada Papalouco foi para a casa de um habitante de Aconchego para conversar, ver fotos da família, brincar com as crianças e assim por diante. Os moradores da cidade estavam encantados com aqueles seres que ninguém sabia de onde tinham vindo. A confusão começou quando o relógio bateu três horas da tarde. Esse era o horário oficial do lanche em Aconchego e era respeitado à risca. Todos paravam os seus afazeres para fazer uma boquinha. Pois foi nesse momento, quando tortas, sanduíches, biscoitos, sucos de carambola e melancia foram colocados na frente dos Papaloucos que a cidade entendeu o por quê do nome. Um Papalouco é um ser muito agradável e divertido até que lhe seja oferecida comida. Quando isso acontece ele fica totalmente transtornado e não pára de comer até que acabe com tudo. Mas não pense que ele come apenas a comida que lhe é oferecida. Ele ataca a geladeira, a despensa e consegue até descobrir se aquela tia de dieta tem bombons escondidos debaixo do colchão. Depois que acaba a comida daquela casa o Papalouco vai para a casa vizinha, depois para a outra, a outra, até terminar tudo o que havia para comer na cidade. Agora imagine quatro Papaloucos juntos na mesma cidade. Sim, porque um Papalouco nunca anda sozinho, então a confusão é multiplicada por quatro. As pessoas entram em desespero, há corre-corre, gritaria, gente desmaiando e pedindo socorro. Em pouco tempo a cidade está devastada e os Papaloucos já foram embora. Conta-se que em Aconchego não demorou mais do que quinze minutos para que eles deixassem sua marca. Ninguém sabe ao certo como eles voltam ao normal, mas em seguida já são vistos em algum outro lugar fazendo suas brincadeiras e encantando pessoas desavisadas.
Bem, agora que você já sabe o que são esses seres...
- Cuidado! Os Papaloucos estão na cidade!
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Espicha daqui, espicha de lá, de Ronize Aline.
RONIZE ALINE é jornalista, mestre em Relações Internacionais, doutoranda em Engenharia de Sistemas e Computação e escritora inédita. Barriga-verde morando há 16 anos no Rio, é professora universitária e mantém o blog Palavra&Tal.
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:: setembro 15, 2004 02:59 PM