Em Minto Enquanto Posso, as letras encostam de leve no papel, traçando contos onde a realidade ganha leveza incomum ao nosso cotidiano. Dando o tom, erotismo, tambores.
O estilo é inconfundível e para quem acompanha há tempos o trabalho de Andréa del Fuego, a evolução é clara. A essência patchouli é a mesma. Mas, as palavras ganham leveza: ventam rendadas e caem como plumas – ainda que vermelhas – no papel. A narrativa atingiu a elegância, que, sublime, tornou-se arma branca. O erotismo que, em antigos contos, era imagem, agora é pano de fundo, voz passiva. Ganhou requinte.
Maria Madalena abre o livro. No conto, a criança sente os pais fazendo sexo. Ela está na barriga da mãe. “O mar ondula meus pedacinhos, dedinhos finos, película transparente cobre minha carne rosa”. A atração pede espaço na poltrona de um ônibus, em Janela e Corredor: “Paula abriu a cortina para se banharem com a nudez do satélite, ela olhava o astro com toda a abertura dos olhos, com a coragem com que gostaria de olhar para ele. (...) Certamente tinha percebido a linguagem do corpo de Paula que já não era mais dela. Era só ir buscar”. A paixão pode ser doentia, como em Pista Molhada, onde um antigo amor dá margem ao fim de um novo. A prostituição dói em Térrea: “A aliança brilhava no dedo que a penetrava por trás. Que ódio ao imaginar seu suposto ciúme da mulher pela saia curta, o decote da blusa”. O livro é fechado com Canastra Real, que marca o reencontro confessional de três amigas, entremeado por um ambíguo jogo de baralhos.
As “mentiras” são segredos soprados em 24 contos. Terrenos acidentados são explorados. Não há medo. Anda-se pelo escuro, tateando sentimentos. O banal transforma-se em poesia de fácil acesso, mas de elaboradas falas. A natureza é cenário e também adjetivo para as palavras usadas na construção dos contos, predominantemente vespertinos, quase noturnos. Minto Enquanto Posso deve ser lido em silêncio. No máximo permita o som das cigarras.
MINTO ENQUANTO POSSO
Andréa del Fuego
Ed. O Nome da Rosa
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:: outubro 25, 2004 06:51 PM