”Subitamente: agora” insere o leitor num universo semântico cuja relação com a realidade se constrói através de choques seqüenciais: a cada conto, a cada linha, a cada dialogismo pensado, construído e subitamente desconstruído. Nessa movimentação – por vezes insólita e anárquica, o que garante a força do choque – Tiago Novaes evoca vozes literárias, que vão imergindo no texto, em frases, versos, imagens, e são subitamente colocadas em confronto com o presente-textual – o que as lança em novo contexto expressivo. Seria em vão mencionar as vozes líricas que dão base à (des)construção dialógica do autor, e poderia diminuir o impacto que ela provoca. Preferimos então apenas a provocação da leitura, e destacar que esse procedimento não nos parece gratuidade nos textos – gratuidade que levaria a uma desconstrução por ela mesma, criativa sem dúvida, mas desprovida de
significação.
Parece-nos antes que as vozes literárias e os dialogismos estão no livro formalmente ligados à relação que as narrativas estabelecem com qualquer coisa que se poderia chamar de “mundo real”, ou que talvez de realidade empírica, imediata. Os choques, pelos quais o leitor não passa incólume, nascem justamente de uma tradução do avesso do mundo em sua
imediatez. Dessa forma, se o autor nos convida inicialmente para o mais banal do cotidiano, o desfecho rompe com a tranqüilidade de uma normalidade cômoda. A narrativa de “Bela Vista”, por exemplo, em que o paciente recebe a notícia do suicídio de seu analista; ou “Pingado”, em que uma estudante procura por um professor desaparecido – são enredos em que o tratamento mais tradicional encaminharia qualquer reflexão sobre a vida, a morte, a velhice. No entanto, ao toque da narrativa, gesta-se o grito final que arranca o leitor da comodidade – da leitura e do cotidiano. Quando, ao contrário, somos lançados
imediatamente ao choque do insólito, somos ao cabo da trajetória – breve e intensa, como a extensão dos textos e as experiências que figuram – simplesmente jogados de volta à normalidade, e esta já não se apresenta tão cômoda.
O exemplo mais preciso disso talvez seja “Circuito”, acerca do qual me vejo na obrigação de sequer mencionar o enredo – o que me levaria a perigo já mencionado, e apenas indicar que ao lado de “Taque”, “Bela Vista” e “Cooper”, considero os melhores textos do livro.
Certo olhar de avesso sobre as coisas, que as deixa com outra configuração, que não esta a que nos habituamos para que a vida social prossiga; certos ângulos inéditos pelos quais ambientes, pessoas, cenas e enredos adquirem novos sentidos estão no cerne dos textos que constituem o livro. As palavras de uma das personagens desse universo talvez dêem a tônica: “...não acredito que as ações humanas sejam substrato puro da razão.” É nesse solo insólito e aporético de recusa das convenções, e das convenções acerca da recusa das convenções que os textos são concebidos. O próprio autor, em exercício de sólida metalinguagem que procura garantir que se assuma as “descontinuidades” do texto. Exercício este que merece menção. Trata-se do primeiro texto do livro: “Instruções”, em que, como está sugerido no título, o autor dá forma, numa série de imperativos, a uma espécie de guia de leitura do seu texto. É interessante notar, como suas instruções, ao se dirigirem para o leitor, se não exclui o leitor “não especializado”, parece contudo, enfatizar o leitor crítico literário, ou variações deste tipo, sem abrir mão de uma certa dose de ironia, pois o autor quer dar a diretriz para a crítica, valendo-se de seus próprios chavões: “Algumas questões deverão nortear a leitura: esse conto é uma critica contundente à sociedade da qual faço parte?... Há algo que se apresenta de original e reflexivo ou trata-se de uma repetição em linguagem pseudoculta?... Em que fase artística essa obra se enquadra...”. Ironia ainda mais nítida em: “e se o final for impactante, deve-se considerar esse recurso como chavão”.
Não considerei.
Diria ao autor, como os dois espermatozóides de “Cooper”: “E se eu parasse. E se desistíssemos, ficássemos por aqui”.?
SUBITAMENTE: AGORA
Tiago Novaes
7 letras, 2004
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:: outubro 25, 2004 06:53 PM