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Os fragmentos de Julián Fuks
por Fransueldes Abreu

[UMA RESENHA COM ANEXOS]

Em “Luto e Melancolia”, Freud discute os dois estados de espírito que dão título ao seu ensaio, afirmando que ambos são reações à perda de um ente ou objeto querido. É justamente esse sentimento de perda que acompanha os personagens de Julián Fuks nos contos do livro Fragmentos de Alberto, Ulisses, Carolina e Eu, editado pela 7Letras, dentro da Coleção Rocinante.

Já no segundo conto, intitulado “Sobressalto”, a personagem Carolina senta-se no banco de uma praça e, observando o movimento, faz para si mesma as perguntas que, de uma forma ou de outra, atravessarão todo o restante do livro:

“Quantos ali, quantos daqueles passantes, antecipavam suas inevitáveis perdas? Quantos tinham perdas, e quantos ainda as iam ter? Quantos daqueles passos iam ao encontro certeiro de outros passos? Talvez os que não trajassem saltos. Quantas daquelas bolsas carregavam cartas de amor, amor bilateral mesmo?”

Assim, o luto doloroso baseado na perda através da morte surge nas páginas seguintes. No conto “O menino sobre a capela” assistimos ao velório de duas crianças deitadas num “único grande caixão”. A mãe delas, já grávida novamente, caminha de uma ponta à outra da urna enquanto passa a mão pela barriga inchada.

Segundo Freud, no luto (caracterizado por um estado de espírito penoso e por um desinteresse pelo mundo objetivo) o eu consegue substituir o objeto perdido por outro depois de um certo tempo. A mãe do conto acima citado parece ter, intuitivamente, consciência dessa substituição (mesmo que rejeite tal idéia no momento da dor). Acariciando tanto a filha morta quanto a que está por nascer, o pensamento da personagem viaja:

“Por um instante, sem sabê-lo, a mãe cogitou se não poderiam ser ambas a mesma menina, se não poderia ser a mesma pequena Vanessa a nascer de novo dali a poucos meses, agora já isenta das dores, dos choros e das diarréias, de toda a tal da duodenite. Se se esforçasse, talvez conseguisse que nascessem no exato mesmo dia, apenas cinco anos distantes.”

Em outros contos de Fragmentos de Alberto, Ulisses, Carolina e Eu o luto dá lugar à melancolia como uma experiência psíquica pautada na perda afetiva não superada que se desdobra na rejeição da realidade objetiva. “Gosto de números e gosto de livros, mas nunca os abominei tanto”, afirma o narrador de “Que a manhã não me aguarde” convencido, no meio da madrugada, de que não receberá a ligação esperada.

A dor da separação amorosa ainda é trabalhada em outros contos como, por exemplo, “Vigília de uma vela”. Mas é no simbólico (ou seria alegórico? Ou nenhum dos dois?) texto intitulado “Corso” (nome e raça do cachorro que protagoniza a narrativa) que a perda do ente amado chega às últimas conseqüências. Ao perceber que o amor de seu dono fora transferido para a namorada deste, o cão vai definhando aos poucos até o suspiro final.

O último conto do livro, chamado “Desencontro”, começa descrevendo o seu personagem na clássica postura contemplativa dos melancólicos:

“Os cotovelos já lhe doem, apoiados sobre a mureta áspera da ponte. Os punhos fechados no rosto criam duas nódoas vermelhas em suas bochechas. Os carros sequer buzinam mais, como se acostumados com aquela presença imóvel ocupando parte da faixa da direita. E Nelson ali, inerte sabe lá há quantos minutos, quantas horas, como se aquele canto lhe pertencesse. Ao menos por isso, sente-se agora menos só.”

Entre o luto e a melancolia, alguns personagens de Julián Fuks se debatem contra a dor da perda a que todos nós estamos sujeitos (em espaços de tempo cada vez mais curtos) nessa sociedade de relacionamentos cada vez mais fragmentados.

ANEXO 1
A resenha aí em cima é uma leitura um tanto quanto acadêmica (vício que o resenhista talvez nunca abandone pois, como qualquer outro vício, este o domina e ao mesmo tempo lhe dá prazer).

ANEXO 2
O texto de Julián Fuks é detalhista (no bom sentido). Apesar das narrativas serem breves, ele consegue descrever muito bem as cenas que compõem o seu conto. Não raro, o próprio conto se resume a uma única cena, como acontece no delicado “Numa manhã de sábado” no qual o narrador / personagem, já com seus 20 anos de idade, recebe de sua mãe uma aula sobre como escovar os dentes (as unhas da mão do rapaz servem como prótese dentária).

ANEXO 3
A metalinguagem é outra característica do trabalho de Julián Fuks. Ela aparece algumas vezes no livro, mas é no conto / crônica “Da raridade dos bons desfechos” que o autor leva o recurso ao extremo, traçando um paralelo entre a construção do seu texto e a própria vida. Outro aspecto dessa metalinguagem aparece quando uma mesma história é contada por dois personagens diferentes, como acontece, por exemplo, nos divertidos “Relato de um viajante” e “Relato de uma senhora”.

ANEXO 4
Em 2003, dois livros dividiram o prêmio Projeto Nascente (USP / Editora Abril) na categoria texto de ficção. Um deles foi Fragmentos de Alberto, Ulisses, Carolina e Eu. O outro foi Fragmentos Urbanos, escrito pelo autor desta resenha.

FRAGMENTOS DE ALBERTO, ULISSES, CAROLINA E EU
Julián Fuks, 7Letras
Coleção Rocinante

Fransueldes de Abreu é paulistano. Tem 26 anos.



| comentários (0)

:: outubro 25, 2004 06:54 PM


FRANSUELDES Abreu tem 25 anos, é graduado em História pela Universidade de São Paulo. Em 2003, seu trabalho Fragmentos Urbanos foi vencedor da 13º edição do Projeto Nascente/USP na categoria "texto-ficção".

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