paralelos.org
» ARQUIVO

Destaques

-   Meu Deus-Tornado
por João Filho

-   Amor
por Nelson de Oliveira

-   Minicontos do desconforto (xi-xx)
por André Machado

-   O Baile
por Jorge Cardoso

-   O óbvio ululante e eu
por Márvio dos Anjos

-   Pro Beleléu
por André Sant'Anna

-   ET de Cozinha
por Indigo

-   Iemanjá, alcatrão e areia no Posto 6
por Augusto Sales

-   Graves e poros
por Cecilia Giannetti

» ARQUIVO ATUAL



A bondade de tudo que é puro na vida - Índigo
por Indigo

Uóxintom, o pedreiro do prédio, tocou a campainha. Abri a porta.

- Eu preciso ver o seu banheiro.

Ele deu três descargas e abriu o chuveiro. Fechou o chuveiro e abriu a pia. Falou que voltava em cinco minutos. Eu esperei e quando ele voltou, eu perguntei porque ele fazia aquelas coisas no meu banheiro.

- Infiltração na garagem.
- A culpa é minha?
- Ainda não dá para dizer.

Uóxintom fechou a porta e não se despediu. Sua testa estava enrugada e dessa vez não tinha nenhum cigarro apagado na boca, nem atrás da orelha. Isto era um bom sinal. A campainha voltou a tocar.

- Mas se for culpa sua, vá se preparando pra trocar os encanamentos do seu banheiro inteiro. Vou ter que arrancar azulejo e quebrar tudo. Tudo! Vamos arrancar privada, pia, bidê, chuveiro, não sobra nada. Vai ter que deixar tudo no chão e mexer por dentro das paredes. Você entende isso?

- Mais ou menos.
- Era o que eu imaginava.

Eu havia acabado de ingerir cacos de vidro e ainda estava um pouco abalada com isso. Pensei que convidar Uóxintom para entrar e tomar um café seria prudente, caso minhas pupilas começassem a dilatar e sangue escorresse pelo meu nariz e orelhas. Uóxintom perguntaria se eu estava me sentindo bem e eu responderia que era apenas um resfriado. Então ele perceberia que eu estava tentando minimizar a situação e ligaria para uma ambulância. Eu seria levada para um especialista em hemorragias internas que me perguntaria se eu havia comido alguma coisa diferente no almoço. Eu comi vidros porque estava fazendo um sanduíche com recheio de mel da melhor qualidade. Mel da melhor qualidade só é vendido em garrafas de vidro fechadas com rolha. Garrafas sem rótulo, sem Ministério da Saúde, sem intervenção química de nenhum tipo. O mel caseiro é dos poucos atos puros que resta na nossa sociedade e eu gosto disso, mas eu não conseguia tirar a rolha da garrafa. Então eu usei instrumentos, vários tipos de instrumentos até que, por fim, dei uma leve batidinha do bico da garrafa na beira da pia e isto deu certo. Essa batidinha também foi um ato puro e, mesmo que alguns cacos de vidro tivessem voado pelo chão, para dentro da pia e um entrou na palma da minha mão, ainda estávamos no âmbito das coisas caseiras e boas para nossa saúde. Então eu fiz meu recheio de mel para o sanduíche. Mas, por ser uma pessoa industrializada, ao dar minha primeira mordida eu não pude deixar de notar que eu estava ingerindo vidro. Mas isto me faria jogar fora o delicioso sanduíche caseiro? Claro que não! Eu comi o sanduíche até o fim e agora só restava esperar que o destino cuidasse do resto. Eu havia lido num almanaque que, se a pessoa cai no sono nos momentos que antecedem a morte, ela perde qualquer possibilidade de reação. A morte, encontrando um corpo relaxado, se instala mais facilmente. Mas se você ficar acordado, você vai sentir sinais como dor, febre, calor e terá um ímpeto de sobrevivência. Desperto, você terá a reação de lutar contra a morte. Você deve falar sozinho e manter a mente ocupada. Se você fizer contas de matemática e recitar poesias seu cérebro vai se ativar e isto inibe a morte. Você deve usar toda sua capacidade intelectual nesta hora para impulsionar seus mecanismos de defesa, então você poderá lutar pela sua vida! Vesti um pijama e fui dormir. //

ÍNDIGO nasceu em Campinas, mas vive em São Paulo desde 1996. Ela usa mel para temperar frango e fazer recheio de tostex. Um dia ela sairá de São Paulo e voltará para o interior. Tem colaborado com esta revista desde o comecinho. É autora de "Saga Animal" (Hedra), "Festa da Mexerica" (Hedra), "Caixinha de Madeira"(Altana). Está entre as "25 Mulheres" (Record) e entre os "100 Menores contos do Século" (Ateliê).



| comentários (4)

:: outubro 30, 2004 10:21 PM


ÍNDIGO ou Ana, por ela mesma: - Falo pouco. Sou virginiana. Tenho uma forte composição nerd na minha personalidade, por ter trabalhado com web desde 1996. Na rua, costumo me fazer de sonsa, para ouvir a conversa dos outros. Sou uma ladra de histórias. Índigo mantém um site de trabalho em http://www.jhendrix.net/indigo/

Home Literatura & afins Crème de la Crème Feira Livre Modo de usar Cadastro Busca Contato