O curso do rio Tietê foi retificado nas primeiras décadas do século XX. Depois, construíram vias expressas em suas várzeas, antes alagadiças. Atualmente, mais de cinqüenta anos após a intervenção, as margens estão sendo concretadas em encostas de cimento e brita. Ônibus, carros, caminhões e carretas deslizam pelas Marginais. As avenidas são ponto de referência da cidade, envolvendo o tecido urbano central no que se conhece hoje por centro expandido.
Neste ano, a prefeitura removeu das Marginais, na altura do centro de convenções Anhembi, a Favela do Gato. Os moradores foram instalados em conjuntos habitacionais construídos no mesmo local. O terreno é uma faixa estreita de terra localizada entre a via local da Marginal e o rio Tamanduateí, afluente que chega ao rio principal num braço d’água usado pelos os moradores da Favela do Gato como esgoto.
Conheci um morador da favela. Trabalhava como chapa, e eu não sabia da existência dessa profissão até conhecê-lo. Agora, não se vê mais a placa de madeira com a inscrição “chapa”, feita à mão, afixada num poste em frente à borracharia da Favela do Gato. Chamava-se Paulo. Me mostrou o RG, não sei bem por que razão, possivelmente para me comprovar o local de nascimento ou a idade. Era de Bom Jesus da Lapa, na Bahia, onde nascera quarenta e seis anos antes, quando o curso do rio já havia sido modificado. Notei que no campo da filiação constava apenas o nome da mãe.
“Dois anos sem enchentes”, diz uma placa do governo do Estado, implantada no canteiro central da Marginal. É motivo de comemoração? Talvez para os motoristas que usufruem destas pistas de alta velocidade e percorrem as várzeas asfaltadas. Dois anos sem alagamentos, sem carros boiando à deriva e sem prejuízos — estes, de duas espécies, tanto material como humana. Comemoremos.
Os veículos pesados avançam rumo ao fim do tecido urbano. Ônibus ganham velocidade pela via expressa. As águas do rio repousam escuras e silenciosas.
O lixo se acumulava, me lembro, nas margens e nas águas do Tamanduateí. Nas margens do Tietê não há lixo acumulado. No rio central, os dejetos se misturam à lama, os despojos imergem no lençol aquoso, os resíduos de cheiro fétido coagulam no ar, adensando a superfície esfumaçada do rio.
Usava bermuda surrada, chinelos de dedo e uma camiseta regata amarela de tecido sintético furadinho. Devia ter pouco mais de um metro e meio de altura. Debaixo das placas religiosas enormes — TV Imagem da Besta; Jesus Todos o Verão; Só Cristo Salva —, acenava para ônibus, carretas e, sobretudo, caminhões que passavam. A imagem do chapa, à beira do corredor de alta velocidade da Marginal Tietê, minúsculo debaixo das enormes placas de mensagens de fé, era impressionante.
Como de hábito, os prejuízos humanos são contabilizados, pelo poder, como ganhos. A proeza, do poder, é de fato vitoriosa, mas esconde violência maior e pouco evidente: as enchentes, em verdade, são desejáveis e necessárias. Ao poder, no entanto, interessam realizações truculentas e de boa aparência.
Os automóveis e os caminhões trafegavam em alta velocidade, muito próximos, e, então, éramos obrigados a levantar a voz para nos fazermos ouvir. O chapa passava despercebido a toda a cidade, mas eu estacionei o carro para pedir informação. Sua profissão era essa mesmo: informar os motoristas e guiá-los pelas ruas da cidade. “Profissão” não é uma boa palavra. “Ocupação” tampouco.
Dragas escavam o leito do rio. Máquinas descomunais estão estacionadas no terreno interior às Marginais. Grandes manilhas de concreto despejam o esgoto industrial diretamente na água. Carros circulam pelas várzeas asfaltadas.
O barulho metálico do trânsito encobria outros sons e aniquilava a propagação de nossas vozes. “Chapa”, dizia a placa afixada no poste, e ele se colocava à beira da Marginal, recebendo a poluição densa dos automóveis que atravessavam seu caminho, sentindo o vento do trânsito intenso ao pé do qual trabalhava, o dia todo mascando pó e cheirando escapamento.
Outras placas propagandeiam o projeto de despoluição do rio, mas os tubos de refugo não foram estancados. Se enchentes já não há mais, se as chuvas deixaram de cobrir as várzeas do rio, se as encostas agora se recobrem de cimento, é de se esperar que o rio, mesmo despoluído, tenha dificuldade para voltar a respirar — a várzea precisa ser alagada para que vida e decomposição fervilhem nas margens do curso de água, terra e seres diminutos.
A Favela do Gato foi varrida das margens do rio retificado. Paulo trabalhava como chapa, e tinha os seus clientes preferenciais. “Trabalho” é provavelmente a palavra adequada. Estimei que fosse bom no que fazia, mas esqueci de perguntar quanto cobrava. Já não sei onde mora. Perdi de vista o chapa Paulo, brasileiro baiano residente em São Paulo, de pai desconhecido.
Os automóveis povoam as pistas asfaltadas, que precisam de reparos. Caminhões chegam todo dia à cidade e dela se vão. Os ônibus levam trabalhadores de lá pra cá. As construções são desproporcionais, as pontes variáveis e quebradiças, o mato e a terra batida estéreis. O lixo incorpóreo contaminou as águas do rio. Os moradores estão encaixotados nos condomínios habitacionais populares.
Já não escuto o que diz o chapa que conheci. A várzea do rio não alaga mais. As placas proliferam e mentem, dizendo a verdade. O pesadelo está instalado e convivemos bem com ele. //
BRUNO Gonçalves Zeni nasceu em Curitiba, PR, em 1975. Mora em São Paulo desde 1989. Formou-se jornalista. Integrou a revista independente de poesia Azougue, onde publicou seus primeiros textos literários. É autor de "O fluxo silencioso das máquinas" (Ateliê, 2002) e "Sobrevivente André du Rap" (Labortexto, 2002), este em parceria com José André de Araújo. Conclui, ainda em 2004, tese de mestado em teoria literária sobre a representação ficcional de São Paulo no século XX.
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:: outubro 30, 2004 10:22 PM