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Corpus Civita
por Lidiane Soares Rodrigues

Para ler no metrô.
Ou ao som de Marina Lima.

A mão que dá sinal para o ônibus. Vê a mão do cobrador. E o pênis do mendigo no canto. Que não olha nos seus olhos. Olhos que miram a nuca do homem no banco da frente. As vergonhas por trás da roupa de pé na altura do seu rosto. O dedo da ascensorista no número do andar. Sua mão não. Vê. A cabeleira nas costas e nada mais talvez. A ascensorista, os pés que entram no elevador. No banco, os dedos rápidos do caixa contando a parte suja. No departamento pessoal as cabeças baixas lembram bancos escolares. No departamento pessoal só há departamentos. Apartamentos de pessoal. As partes do pessoal.

Todas nossas partes todas dizendo quem não somos na cidade que nos esconde exatamente quando nos desvela.

Ela.
Outro dia quente. Suor de nu na cama acordando, brisa que só na manhã tem, passando na pele e espalhando o gosto do seu cheiro gostoso na brisa que só no quarto há. Outra dor latente. Nada de novo. O front de sempre. Outro dia quente.

Ele.
Metrô. Já asseado e sem brisa. Já com perfume. Sem cheiro. Parte deixada na brisa do quarto. Vazio ainda. A moça entretida. Sentada. Brincos pequenos. Linhas pequenas. Poesia? Nem me pede a bolsa! Logo cheio. Pescoços. Rabos de cavalo. Enrolados. Lisos. Rubros. Loiros. Colarinhos engomados. Colares improvisados. Qual o nariz do pescoço de que só vejo o queixo? Seguro-me no alto. Olho para baixo. Bicos finos. Altas. Como elas conseguem? Sapato engraxado. Tênis novo. Tênis sujos. Subo, mochila. Cabelo curto. Sem
cheiro, e eu tão perto. Me solto. Logo me caio. E procuro o que segurar. O ferro está à minha altura sem salto. Será por isso que elas? As mãos delas. Unhas vermelhas. Marrons. Anéis grandes. Outras, delicadas. Meninas. Outros, unhas sujas. Qual a cor do pescoço da unha suja de trabalho? Ai, meu pé! Não, não digo. Olho. Jeans, ternos, saias longas, saias curtas. Estas continuo olhando. Quase caio. Qual a cor dos olhos da unha pink? Me seguro próximo ao banco. Que faz o rosto por trás das páginas? Ler o rosto. Será como o poema
que lê? Estranho, as sobrancelhas dela mex. Estação S. Sair. Quase sou levado. Choques. Mas nada de tato.

Ela.
Asseada. Sentada. Entre uma palavra outra de Hilst, olhava. Olhei. Lamentei. Vi os olhos. Alguma coisa da pele. E. Os olhos se mexiam. Para baixo. Para cima. Para o meio. Para todas as alturas dos de pé. Mas não ali, no canto, sentada. O relance de seu olhar me fez fugir o rosto para entre as páginas, “Ama-me. Embora eu te pareça demasiado intensa.” De novo olhei. E os olhos parados em qualquer saia me fez lamentar cruzar as pernas Mas eu usava calças pretas.

Ele.
Sé. Os companheiros. Era greve, de fato. A angústia das partes. Quase lhe fizera esquecer. Aquele era dia de muito trabalho. Greve. Faixas, abraços, sorrisos, dos homens e mulheres que podia ver inteiros. O primeiro dia de greve é sempre uma conquista com sabor qualquer de. Explosão anárquica. Estamos em greve.

Ela
se esticou tentando ver. Algo além dos fios loiros. Longos talvez. Quantas cabeças. Cabelos, coisas. Não, coisas não. Eram pessoas. Tudo bem, mas quantas! Ai, meu pé!, Licença, desço na próxima. Correu, crianças a esperam. O sinal a chama. O tempo não espera. E ela, ainda espera? Respiro. Nenhum cheiro no ar. Tanta gente no chão. O último verso, parece o último olhar impossível: “Lembra-te que há um querer doloroso”. Não espera. Respira o ocorrido. Correndo, ofega-se. O elevador, espera.

Meio dia.
Mais uma boehmia! E mais meio dia e mais outro meio dia seguiriam as manifestações e as comemorações e os bancários em greve rindo, e ele, na pior das hipóteses vendo pelo menos a parte de cima completa do corpo de seus colegas de trabalho. E talvez, quem sabe, em mais horas de conversas, mais partes, mais que os corpos, com os quais trabalhavam e mais qualquer coisa que desenhe por dentro do corpo, o corpo, isso, a que alguns chamam de alma, espírito e ele chama de. Não, gente, não me esperem. Vou trabalhar mais um pouco. Comer um lanche, é, no boteco mesmo, tenho muita coisa para fazer, ah, tudo bem, semana que vem. Bobagem, sabia que a semana que vem também não daria.

Uma e meia.
Ela desceu o prédio, até a rua São Bento era rápido. Gostava das padarias. Os bancários também. Mais uma boehmia! As mesas lotadas. O Largo São Bento lotado. Parece até festa. Ah, ia demorar, não podia, tinha que ser rápido. Meia hora, e. Quase sem querer, leu.

“Campanha Salarial”. Colados nos peitos dos homens ali sentados. Invejou momentaneamente os adesivos e se sentiu só. Num dos peitos, além do adesivo havia fios longos, claros e uma pele entrevista como a da manhã que localizava perto daqueles olhos. As mãos. Lembra-se de te-las visto, mas eram tantas na barra de ferro que não ligava a mão à pele e aos fios. O mesmo? “Desejo é Outro. Voragem que me habita”. É para isso que serve greve, né, a senhora vê que pouca vergonha, faiz greve pra bebê! Comeu no balcão com pressa no pão, mas lentidão no olhar. Era aquele o corpo que tentava ver pela manhã? Via-o agora, se o fosse, em sua partícula socialmente mais (re)apresentável, que é a que se vê quando as pessoas sentam à mesa, quando os telejornais enquadram sua gente, enfim. Insatisfeita. Quase nada do corpo. Parte pequena demais lhe era possível ver. E o suficiente para. Pouco tempo para comer. Raro para desejar. Saiu rápida. Menos do que pretendia. Desviou de muitas mesas. Não olhou. Até porque, sem óculos. Era a mesma? Lembrou dos. Ora, logo ele, o homem sensível orgulhoso de o ser, diferente dos outros. Mas não pode deixar de não lembrar. Não eram os brincos, mas o decote branco com os brincos-pérola que faziam a mulher brilhar conforme suas sobrancelhas se mexiam, que será que se mexia dentro dela naqueles versos que supunha ter o livro? Notou então que era desejo demais para que quisesse apenas saber dos belos e profundos sentimentos que ela tinha enquanto lia o poema. Levantou, pediu. Mais uma boehmia! Ela não ouviu. Como ouviria também? Não era para ela trazer. Licença, por favor, eu estou atrasada. Tentou falar alto, com algum amigo, enfim, soltou e prendeu os cabelos. Por que será que corre. Todos ouviram. Ela, não.

Cinco e meia.
Tchau pessoal, até a próxima aula. Mais uma boehmia! Teria de passar novamente pelo Largo antes de seguir à Biblioteca Mario de Andrade. Quase não acreditou. Todos lá, em seus lugares, em seus mesmos lugares. Lembrou dos seus tempos de movimento estudantil. E quis estar ali, com eles, sentada. Horas e horas, roubadas do trabalho pelo prazer. Ah, se pudesse. Talvez não fizesse nada, mas pensar, se pudesse, dava qualquer arroubo, de. Tentativa. Mas lembra-se que há um querer doloroso.

Dez e meia.
Chega de boehmia! É melhor ir. Na verdade, única opção. Estão fechando o bar. Mãos acenam. Fecha a conta. Quanto eles deixaram? Abraços. Quanto a gente paga? Tapas nas costas, abraços de homens a homens. Garçom faz a conta. Tem troco? Valeu, valeu. Até
amanhã. Manifestação na Paulista, hein.

Ela,
Sentada, desde o Anhagabaú. Ler. Não, nada que lhe exigisse mais que isso: sentir. Ouvir. Para alguma coisa aquela coisa que o ex namorado lhe dera (e ele) tinham de servir. Como ouvir lhe convocava inteira, farta da seqüência de Picassos que os rostos na cidade lhe faziam mais desejar que compreender, ouvia Deixa estar, vai, vai passar, com sorte... Fechou os olhos encostando a cabeça na janela e os cabelos escuros quase lhe cobriam o rosto, deixando a perola e o branco lhe iluminarem toda. Será que um dia vicia?

Ele
Sé. Sentou. Era impossível. Quanto mais pessoas há na cidade mais difícil de encontrar alguém. Ou quanto mais pessoas há na cidade, mais provável que se encontre alguém? Pela noite, já não diria, eles, os brincos de novo, mas eles, os seios sob o branco de novo, o rosto escondido de novo. Dormia ouvindo som. Desejo afogado de novo. Que ouvia? Sem poder olhar a diante, levantou, deu as costas já olhando a diante, tinha de descer. Seria sempre alheia por causa do som? Era aquela que não o ouvira? Pudera. Nem chamava por ela. Embora a chamasse. Pudera. O barulho da cidade não tem tato também. Olhou. Pensou em. Mas. Nem ele acreditaria que ele “apenas queria lhe conhecer o cheiro e a voz e olhar o corpo inteiro”, quando ao dizer isso a ela após ficar no vagão do metro até a estação de ela descer, ela lhe respondesse com veemência, você me seguiu! Direito soltou esquerdo prendeu direito esquerdo direito esquerdo pés. Há outro jeito? Andar. Amanhã, paulista de novo. Na Paulista.

Ela,
Quando abriu os olhos e viu longos fios claros presos com elástico do homem que prendia quando ela saía do bar após um X-qualquer coisa miserável, e a pele do pescoço e a mão que podia se encaixar em tudo e que se ela seguisse não entenderia que ela tinha um corpo e ele outro e eles precisavam se saber pois era inacreditável que passeando pelo mundo a fora duas pessoas se encontrassem assim e as partes podiam se encaixar em tudo e, quando abriu os olhos e viu longos fios claros presos com elástico do homem guardou na bolsa aquela coisa de tocar cd, mas deixou cair o livro de poesia e quase tropeçou. Quando abriu os olhos e viu longos fios claros, presos e soltos com elástico do homem, a porta se fechou. //


LIDIANE Soares Rodrigues é paulista, com toda dor e delícia que isso significa. Leciona e pesquisa. É viciada no debate cuja pauta é cultura, política e história. Atualmente lê Inventários do Irremediável, de Caio Fernando Abreu, e anda fascinada pelo cinema de Frederico Fellini.



| comentários (2)

:: outubro 30, 2004 10:23 PM



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