Segunda-feira de manhã. Gretchen Samsa estava em seu carro, plena Marginal Pinheiros, percorrendo os quinze quilômetros que separam sua casa do emprego. Seus olhos estavam inchados. O corpo, dor. E a mente concentrada no tempo que corria rápido e no trânsito, lento. “Meu Deus, o que aconteceu? Congestionamento a essa hora?” E a hora já não era essa, mas a próxima. E sua cabeça já não estava ali, mas sim em tudo o que tinha de fazer. Hoje, amanhã, nesta semana, na seguinte.
Seu Fiat Uno ocupava a pista mais próxima ao rio. Distraída, observava no meio-fio um cachorro morto. Inchado, patético, as patas para o alto, o oco dos olhos. Gretchen lembrava-se de já ter visto aquele cadáver na semana passada, mas ele não estava inchado. Tinha sim um fio de sangue seco escorrido da boca. Chegou a ter dó. Hoje, só tinha nojo. E raiva. Fechou o vidro do carro, pois agora o cachorro fedia, bem ao seu lado. A temperatura subiu. Aquele bafo de carniça parecia um desprezo do além à sua agonia.
Depois de quatro minutos que demoraram vinte, a luz de freio do carro da frente se apagou e os veículos começaram a se movimentar. Gretchen então enxergou a luz silenciosa da sirene de uma viatura e alguns policiais de luvas, embaixo da ponte. Um deles iluminava o pequeno vão entre a estrutura de concreto e o barranco. Entendeu: tinham desovado um corpo ali. Passou interessada ao lado da lona amarela. Viu um pé. Desviou os olhos rapidamente. Estava chegando ao trabalho.
O dia foi a repetição de todos os dias úteis do último ano e meio. Só que na vida, só figurinha repetida é igual. Dia repetido, não. Já esperava a bronca pelo atraso, mas surpreendeu-se quando o chefe reclamou do seu cheiro e da sua aparência. Baixou a cabeça. Não podia perder o emprego. Seu salário era o sustento da casa desde que o irmão ficou doente. Além disso, ser secretária era uma boa desculpa para comprar roupa nova. E bem que precisava, pois de uns tempos pra cá seu corpo vinha mudando, sua cintura cada dia se alargava mais e seus ossos também pareciam crescer. Decidiu que semana que vem ia começar um regime e ficou aliviada. Na mesma hora, lembrou dos cadáveres na Marginal e sentiu uma pontada de fome. Ainda tinha bolachas na bolsa, o cheiro adocicado chegava às suas narinas. Num impulso devorou o pacote todo.
Voltou ao trabalho. Tinha cinco tabelas para terminar e pouca experiência com o Excel. Mas fazer o quê? Não podia perder o emprego de jeito nenhum. Concentrou-se na tabela mensal com os horários de entrada e saída, o tempo de almoço e o número de chamadas interurbanas de cada funcionário. Deixou a tabela em cima da mesa do chefe e sentiu-se culpada. Amanhã, muita gente ia dançar com seu relatório. Quando deu seu horário de ir embora, enrolou o quanto pôde, mas isso não foram mais de dez minutos.
De novo a Marginal. Tinha os braços dormentes, apesar da dor dura que se concentrava nos ombros. A sensação não era boa, mas também não era nova. O fluxo entrecortado dos veículos na pista expressa compunha uma trilha sonora seca, sincopada. Olhou ao redor e viu vultos dentro de carros. Gente distraída pensando coisas, olhando nadas. Aquela solidão coletiva. Um Gol a cortou. Brecou bruscamente. Quis gritar, mas não conseguiu. Sentiu uma protuberância brotando logo abaixo das costelas. Uma espinha?
Olhou pro Rio Pinheiros pela última vez antes de pegar a entrada da Ponte do Jaguaré. Imensa cobra de lama e lixo. Era esse o fio condutor da sua vida? No primeiro balão, sinal vermelho. Distraiu-se por um momento com aquela cor de céu inusitada, de um mármore esverdeado, leitoso. “Esse céu é bonito, mas dá medo também. Deve ser algum efeito da poluição na atmosfera. Coisa boa não é. Vai ver é vazamento de Césio, como lá em Goiânia. Céu bonito em São Paulo só se for...”
“Aí, moça, passa as jóia, o relógio.”
Deu um pulo, engoliu o ar. Usava um conjuntinho de brinco, colar e aliança de hematita que a tia tinha trazido de Minas, um anel de prata em formato de golfinho e um relógio de marca mediana. “Pode levar, leva tudo”, dizia enquanto desatarraxava os brincos, dava anel e relógio e tirava o colar.
Olhou pra cara do menino-assaltante e viu uma lona amarela. O sinal abriu. Acelerou. O céu escurecia rápido. Pensava em tudo. Como podia haver tanta coisa pra pensar? No próximo sinal fechado, não pensava mais em nada. Estava cansada. Não via a hora de dormir, pra amanhã poder acordar e ir trabalhar. Chegou em casa. Era noite. Saiu do carro e respirou fundo. Cheirava feijão. Queimado.
FABÍOLA MOURA é jornalista, tradutora e fotógrafa.
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:: outubro 30, 2004 10:31 PM