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Anéis de fumaça
por Tatiana Carlotti

Sete e trinta da noite. Elis e Tom, meia luz e o riscar do fósforo na caixinha. Cada cigarro tem um sabor diferente, João sempre dizia. Eu fumo um por dia, no mesmo horário, sentada na minha janela (eu moro no quinto andar entre a Brigadeiro e a Ribeirão Preto). Às vezes, alguém acena da rua e eu finjo que não vejo. Às vezes, o telefone toca e eu finjo que não estou. É o ir e vir da fumaça. É cidade que trago dentro de casa.

Da primeira vez, eu não sabia. Era a vertigem da fumaça e o clarão das luzes, os faróis, o néon, a infinidade de apartamentos. Eu me apoiei no parapeito da janela, estava tonta. A claridade cega, mas depois que meus olhos acostumaram, nunca mais dormi na penumbra. Deixei a escuridão do meu quarto na Vila Moraes, o pedaço da cidade que é a vila, lugar dos nomes próprios, das boas e más companhias, e decidi morar no centro.

Porque a luz é um fato nessa cidade, mas João achava isso besteira. Ele dizia que de manhã era tudo cinza, faltava cor, faltava vida. Ele chacoalhava a latinha de spray nas mãos e brincava de pintar estrelas nas minhas pernas. A tinta demora pra sair, é preciso esfregar com as unhas debaixo do chuveiro. Vira e mexe, encontro os desenhos que ele fazia em mim nos muros da cidade, dá um aperto.

Da segunda vez, eu senti a nicotina. Era o gosto da poeira, escapamento de carro, asfalto molhado. Eu sentei no meio fio até a náusea passar. É desconcertante ser um corpo e só um corpo, no meio desse concreto todo. São texturas que se estranham. Não são morros, não são folhas, não é nada que nasça, cresça, reproduza e morra. Não. A paisagem é envidraçada e concreta. A paisagem é a suspeita do elemento humano que a habita, mas eu jamais tenho certeza. Eu apenas suspeito atrás dos vidros, uma presença que na maior parte das vezes é o meu próprio reflexo.

Porque o concreto é um fato nessa cidade e ela foi concreta com João. Ele queria expor na Bienal, não conseguiu. Ele queria entrar na faculdade, mas precisava trabalhar. Depois foi a história do teatro experimental, o cenário que ele grafitou sem ganhar um centavo. Era noite de estréia, a gente caminhava no viaduto Treze de Maio, João me contou que o crânio do seu avô estava cimentado naquela ponte. Que horror, a cabeça do avô nos meus pés, a mão do neto nos meus ombros.

João fingia não saber que mais cedo ou tarde, estaria cimentado em algum arranha-céu. Ele defendia sua liberdade querendo fruir todos os tipos de arte. Nós corríamos pelos museus, teatros, cinemas, rodas de choro. Minhas mãos suavam e escorregavam das mãos dele. Meus saltos tropeçavam nos buracos das calçadas. João nem percebia. Vem. Dava sinal para um ônibus e eu entrava esbaforida. Corre. O maestro se maquiando no camarim e nós em pé na fila.

Numa delas eu me vi refletida no espelho. Era fila para a mostra de cinema no Cinesesc. Eu como uma estranha, o cigarro nas mãos, a fumaça pelo nariz, os gestos incertos. Quando entramos no cinema, ele me levou para sentar no bar. Daqui nós podemos ver o filme, então as luzes se apagaram e da nossa mesa eu vi a tela. Meus olhos estiveram nele o tempo todo, João se emocionava, envergava o corpo para entrar no filme. Às vezes, seu rosto ficava escuro e eu só via a pontinha acesa do cigarro, às vezes, era tudo tão claro que eu tinha medo de ver. Na saída o veredicto. Gostou do filme? Eu só queria fumar como você.

Hoje eu admito, foi João quem me ensinou a tragar. Logo nas primeiras vezes, ele fazia anéis de fumaça com a boca pra eu pegar no ar. A fumaça passava pelos dedos, o cheiro ficava na pele, o gosto da nicotina na língua. Ele queria dizer que nada é eterno porque o efêmero é um fato nessa cidade. Isso ele não precisava dizer, eu já sabia.

Antes de ir embora, naquela maldita manhã de carnaval (as pessoas andavam fantasiadas pelas ruas, as crianças jogavam água dentro dos carros), eu perguntei: João, como se traga? Ele tirou o maço do bolso e pela primeira vez acendeu o meu cigarro. Minhas pernas tremiam, meu corpo dolorido. Você puxa a fumaça devagar e a deixa descer pela garganta. Tá sentindo? Não, não sopra antes. Tenta mais uma vez. Isso. Não é bom?

Então, eu me dei conta da semelhança. Eu tinha o cabelo bem curto e ele também. Éramos da mesma altura, da mesma cor, as mesmas proporções. Havíamos estudado em colégio municipal, filhos de pais separados, cartão de ponto, sem carro. Éramos tão iguais que eu olhei pra ele e não sabia mais quem ele era. João era eu. Duas semanas depois, exausto de mim, ele desabafou: Você não me acrescenta em nada. Ele tava puto porque também não conseguia me ver.

Vinte para as oito. Algumas luzes se acendem, outras se apagam. Algumas pessoas se esmagam nos ônibus lotados, outras em carros blindados. A vida média de um cigarro é de dez a quinze minutos. Foram quatro maços com João e não sei quantos sem ele. Hoje, não me lembro mais do seu rosto, a cidade apaga a memória, os carros passam, os faróis ficam verdes. Prefiro assim. Gosto de esquecer os nomes. Gosto de caminhar entre estranhos na rua. Certa vez, ao acender o meu cigarro, um desses estranhos me disse: O último trago sempre se parece com o primeiro. Ele tinha razão. Deve ser por isso que fumar vicia tanto.


TATIANA CARLOTTI nascida em São Paulo, tem 27 anos e é formada em História. Escreve poesia e contos desde a adolescência. Durante a faculdade formou com amigos, um grupo de discussão e crítica de textos literários. Esporadicamente escreve resenhas sobre obras literárias para o site IG Ler. No momento, escreve uma novela.



| comentários (8)

:: outubro 30, 2004 10:36 PM



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