Para Charles B.
Perdida. Perdida. Perdida. Perdida. Perdida. Perdida. Perdida.
Sônia considerou as razões pelas quais tudo dava errado e concluiu que eram todas. Era assim. Vida besta desde o nascimento. Cota comum de pais recalcados, ignorantes e opressores, namorados estúpidos e violentos, empregos insípidos e sem futuro. Igual, um patrão/galinha/obsceno. Seu casamento durara exatos um ano e dois meses: o tempo suficiente para ficar grávida e descobrir que seu marido mantinha outra família desde antes ainda. Mulher e três filhos! E foi Sônia a pagar a maior parte das despesas da cerimônia e da festa. Mulher e três filhos! Isto é, nada fora do normal. Perdida. Perdida. Perdida. Perdida. Perdida. Perdida. Perdida. Desavergonhada. Moça da vida. Vaca.
Sua mãe dizia Culpa Dela, protegia seu ex-marido e lhe dava razão, tratava-o como injustiçado. Seu pai adorava a situação, demonstrava o quanto seus filhos eram idiotas e tapados. Maior orgulho chegar pros amigos do bar Viu Como Aquele Desgraçado Se Fodeu? É Meu Filho O Peste e gargalhava de gosto. E era Sônia a colocar dinheiro em casa, única com salário fixo, fosse lá! contar com a aposentadoria dos velhos ou a displicência dos irmãos. Puta semvergonha.
A cabeça rodava, não entendia as risadas. Não havia nada dentro da bolsa. Nada de importante. Nem originais os documentos, xerox autenticada. Marmita suja que não tivera tempo de lavar, horário da loja muito rígido. Dinheiro ... ridículo, moedas miúdas, troco pra passagem (dia de pagamento nem mesmo passava pelo Caixa, tudo já comprometido), uma nota falsa de um dólar, passe de ônibus acabara (seu irmão mais velho roubava da bolsa).
Carregava um gravador. Coisas da vida, amiga trouxera de presente. Rádio-gravador velho antigo parecia deslocar o ombro. Em tempos de cd, valia mais jogar fora, mas e coragem? Nem. Adiou dias para levar pra casa, sabia da trabalheira, do cansaço. Atravancava o armário pequeno, fazia volume, tirava do uniforme. Resolveu leva-lo.
Foi o que atrapalhou o trombadinha (´trombadinha´ de uns, sei lá, metro e oitenta): subestimou o peso. O instinto de Sônia agarrou a bolsa, foram parar os três no chão. Bateu a cabeça, tentou levantar, as pernas não obedeceram, como quebrado o ombro por martelo, a dor subia e descia dos pés á cabeça, o desespero e o medo não a deixaram gritar. Nem não precisava gritar, estavam na Praça do Correio horário do rush (fila do Jardim Irene tinha quatro). Gente não faltava. Mas gente não se movia, não falava, começou, inclusive, a rir da posição ridícula da queda.
Trombada sondou terreno, se sentiu com moral, tomou respeito, ficou com ares de ofendido. O Que Ela Pensava Que Era. Sônia não entendia mais nada, as risadas aumentavam. Ela sabia o que tinha que fazer: deixar rolar, largar a bolsa, engolir o fel, voltar chorando pra casa. Perdida. Perdida. Perdida. Perdida. Perdida. Perdida. Perdida.
Levantou. Estou Ficando Zangado, Tem Medo de Morrer Não? Passou a bolsa para o outro ombro. Desinfeta, Vadia! A alça caiu, segurou com a mão. Pegou do braço dolorido, sem precisão, pura maldade. Sônia É Isso? Toma! Girou a bolsa. Ouviu dois sons perfeitamente distintos, a cabeça do malandro quebrando com um ruído abafado. E ouviu! o sangue colando no couro.
Perplexa, entrou no ônibus sem olhar para trás, mãos trêmulas quase perderam a moeda da passagem, o cobrador olhar esquisito Não Tem Troco, sentou no banco também estranho e sorriu. Tinha certeza absoluta de que quando abrisse a bolsa, o gravador não teria soltado nenhuma peça. Era antigo, daqueles pesados.
| comentários (2)
:: outubro 30, 2004 10:40 PM