A luminosidade intensa do sol estala contra a janela, se expande e arrebata os móveis, os lustres e as paredes da sala. O calor se propaga a passos vagarosos, em uma maré de sufocamento. As persianas são diques frágeis, inúteis contra o fogo que torna o céu branco, envolvendo as casas, o asfalto, os prédios, as copas das poucas árvores e os carros em uma névoa cegante.
Do décimo andar, vê que, no entanto, as pessoas caminham indiferentes sob o meio-dia, a roupa colada aos corpos que ele imagina cindidos entre a teimosia de viver e uma persistente repulsa. "São animais de carga suando", pensa.
Cada mínimo elemento da paisagem multiplica a agudeza da luz solar: o cascalho, o aço, o concreto e o piche que derrete à beira das calçadas ampliam a febre da canícula, mas a multidão entra e sai dos ônibus, abarrota as ruas, preenche cada minúsculo espaço como insetos incansáveis cujas vidas se resumem a repetir os gestos dos antepassados e procriar.
As partículas de mica sobressaem das construções como fragmentos de um suplício vulcânico, e ele vê a cidade resplandecer, formando um mar cintilante de mormaço e derrota. A linha do horizonte, recortada de edifícios, torres e antenas, submerge sob um halo de poluição.
Pensa ouvir um murmúrio e volta-se na direção do corredor, caminhando para o quarto. – Você está bem? – pergunta ao corpo estendido sobre a cama, sem obter qualquer resposta. Senta-se na beirada do colchão e espera. Os lábios murchos da mulher desenham o princípio de uma palavra, mas apenas um sopro escapa, enquanto os olhos, sumidos nas cavidades sombreadas, fixam o teto. Ele confere a cadência das gotas do soro dependurado em um suporte de ferro à cabeceira e acaricia a mão encarquilhada que repousa sobre o lençol.
– Será que você não quer um pouco? – sugere, a voz carregada de carinho, e leva aos lábios da mulher o bico de um pequeno bule de porcelana que estava sobre o criado-mudo; mas, apenas o inclina, vê que os movimentos da boca são mecânicos, pois o caldo escorre pelas faces encovadas. Levanta, vai até o banheiro, volta com uma toalha umedecida, limpa o rosto da mulher e o travesseiro, desistindo de apagar a nódoa que se desenhara na fronha, e senta-se novamente.
Ele espera, sem saber o quê. Os minutos se dilatam, o soro pinga na borracha ligada ao braço inerte, a barriga inchada e desproporcional avulta sob o lençol encardido, a penumbra iguala tristemente as cores dos objetos e um odor azedo paira entre a cama e o teto. O calor sufoca. – É primavera... – murmura, colocando a mão dela entre as suas, olhando as persianas fechadas que não contêm o mormaço. – Mas não há flores... – completa, ainda sem olhar para o rosto da mulher. – Eu não estou mentindo... Não há flores... – insiste, temendo que ela, mesmo sem escutá-lo, duvide de sua sinceridade. – Sabe o ipê-rosa da esquina, na frente da creche? Não vi nem uma florzinha este ano...
O corpo respira, os seios murchos sob a camisola caem para os lados e os lábios se movem, incansáveis, simulando o princípio de qualquer palavra.
– As jabuticabeiras devem estar floridas no Ibirapuera, Marina... – ele sorri, agora olhando para o rosto dela. – A gente podia ir até lá... Num dia de semana, quando está mais vazio... Sentar num banco, na sombra... Ver as crianças empinando as pipas e andando de bicicleta... Eu te comprava um sorvete...
O corpo arqueja. Da rua sobem o fragor dos carros e um bafo pegajoso. Os chinelos da mulher repousam, arrumados, sobre o tapete. Um crucifixo de prata enfeita o criado-mudo, sob o abajur, circundado de vidros e caixas de remédio. O bordado de um lenço de organdi puído surge debaixo da colher na qual certo líquido escuro secou.
– Vou até a padaria e já venho... – ele descansa a mão dela junto ao corpo e caminha para a porta do quarto. Mas volta, debruça-se e beija-a na testa, sentindo o suor formar uma película delicada e amarga em seus lábios.
Na rua, apressa-se em cruzar os dois quarteirões que o separam da padaria. Esconde-se do sol nas sombras estreitas que as marquises dos prédios formam nas calçadas. Seu velho corpo avança por entre o calor quase sólido, e ele protege os olhos com as mãos, evitando os reflexos dos carros e das janelas dos edifícios.
Enquanto espera o semáforo fechar, observa, na esquina, a pata-de-vaca frágil e sem flores, agitando-se ao sabor dos ônibus e caminhões que não param de passar. E ao percorrer a avenida principal, tenta ver a sucessão de ipês-amarelos raquíticos que se contorcem nos canteiros. Lembra-se das flores tímidas que desejara ter visto em agosto, enxuga o suor com as mãos e prossegue, arfando, preocupado com as árvores que consegue encontrar nos jardins dos edifícios, muitas delas ainda sem folhas, apesar de ser o final de setembro. E a um passo da padaria, ao lado da banca de jornal, não encontra nenhuma pequena flor, mesclada de roxo, branco e rosa, no manacá-da-serra que insiste em sobreviver ali.
"Não há flores, não há flores", diz a si mesmo, trazendo o pão e o leite, ensurdecido pelos carros, a calçada a ferver sob as sandálias que protegem os pés deformados pela artrose. "Mas é primavera... Na semana que vem já é outubro..." A idéia persistente o tortura, e à sua frente, misturando-se às formas da cidade que parecem derreter sob o miasma dos combustíveis, vê o colorido das flores que a memória faz renascer como símbolos de alguma vaga promessa.
À porta do prédio, apertando os olhos contra a luz ofuscante do céu, lança um último olhar à esquina tomada pela sibipiruna, e ao invés de encontrá-la, da mesma forma que nos anos anteriores, recoberta de intenso amarelo, descobre apenas o verde esmaecido.
Mal experimentara o frescor da cozinha, ao colocar a sacola sobre a mesa ouve um barulho estranho. Corre para o quarto. A mulher estertorava. A boca ainda se movia debilmente, mas em cansados intervalos, e da garganta subia um som fraco e contínuo, semelhante a um gargarejo. Os olhos, no fundo da escuridão, pareciam mais abertos.
Lentamente, o silêncio se instalou no corpo desfigurado.
– Marina... – sussurra, dando à voz a entonação de uma súplica. Interrompe o fluxo do soro e senta-se ao lado da morta. Diz a si mesmo que deve recordar os anos vividos juntos, esforçar-se por lembrar algo que seja belo ou que acorde algum pensamento feliz, mas consegue apenas ver as árvores sem flores, lembrando-se da alvura das jabuticabeiras, da púrpura e do branco das patas-de-vaca, dos ipês-roxos aveludados, das calçadas em que as flores das sibipirunas formavam um tapete cuja delicada trama amarela recobria a sujeira e o cinza sempre igual, e de tantas outras cores que talvez tivessem desistido de vicejar. O calor se distende no quarto como uma placa invisível que pesa sobre os corpos, impregnando-os de gordura e fedor. E ele sonha com delicadas violetas bordadas em tons de lilás e primaveras sanguíneas, nas quais se concentrassem, apesar da cor predominante, todos os matizes que conhecera no passado.
A noite o encontrou ainda ali, respirando o ar avinagrado do cômodo, sentado na mesma posição, as costas doendo e a perna esquerda adormecida. Levantou-se com dificuldade, meio arqueado, e caminhou a esmo pelo apartamento, olhando para os móveis como se não estivessem ali. Na sala, o rumor do trânsito continua a subir, há sirenes cruzando a avenida, e a lua, alaranjada e bojuda, nasce entre os prédios, cortada ao meio, manchada de fumaça. Volta ao quarto e, na gaveta da cômoda, pega o rolo de esparadrapo. Vai até a cozinha, fecha a porta e lacra a soleira com uma tira. Faz o mesmo na porta que leva à lavanderia e nos vãos da pequena janela basculante. A seguir, abre todas as bocas do fogão e deita-se ao lado do forno aberto, respirando profundamente o gás. O piso frio o reconforta. – É primavera, mas não há flores, Marina... – fala com a voz calma, tranqüila. Os motores, as sirenes e as buzinas sobem até ali, irrompendo no frescor que o abraça, mas as flores que não nasceram neste último ano também estão ao seu lado, enquanto que de sua memória, naufragando lentamente em doce escuridão, emerge uma derradeira lembrança, uma frase talvez lida em algum artigo de jornal, talvez em um velho livro, ou apenas insinuada pela primavera imperfeita; um pensamento estranho mas apaziguador, que lhe sugere, na forma de uma última certeza, que a morte nasce em nós como uma flor.
RODRIGO Gurgel é escritor e editor. Escreve regularmente para vários sites na web e em seu blog: http://rodrigogurgel.blogspot.com/. Também possui um site pessoal: http://www.rodrigo.gurgel.nom.br. É membro do núcleo de redação de Novae (http://www.novae.inf.br). Presta serviços de consultoria editorial, prepara originais e revisa provas para várias editoras. Foi um dos dez ganhadores do Concurso de Contos "450 Anos de São Paulo", promovido, entre 2003 e 2004, pelo Caderno 2 do jornal O Estado de S. Paulo.
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:: outubro 30, 2004 10:41 PM