Toda a cidade sob mim.
Fecho os olhos, abro os braços e me inclino para frente. Um centímetro para o fim. Me deixo cair. Vôo no sentido contrario do que todos tanto desejam sinto, o ar batendo em meu rosto, se deslocando, falhando em me segurar, seguindo em direção ao chão. É como tudo, apenas um passo para frente e não tem mais volta, a vida é inclemente e o chão se aproxima mais rápido do que eu gostaria. Sinto, mas não vejo. O asfalto se aproximando, se tornando mais impiedoso. Não tenho coragem de abrir os olhos. O que não é nada perto do que estou fazendo, mas mesmo assim, prefiro me preparar para o fim de olhos fechado. Nada me vêm à mente, nenhuma cena da minha vida, nenhuma imagem que me reconforte, nada, apenas a sensação e a certeza de que o chão está próximo, escuto gritos, e fim.
Abro os olhos, afasto-me da beirada, sinto-me fraco, fracassado, o rosto lavado de lágrimas, a mente e o corpo em frangalhos. Sento e olho para a silhueta de São Paulo à noite, talvez eu devesse sair dessa cidade, mudar de ares, ir para outro lugar onde nada tornasse sua lembrança tão presente. Todas as luzes se mesclando perante minha visão embaçada, formando riscos que se apagam lentamente em minha retina, todo o movimento abaixo de meus pés, o som, chegando fraco, o formato da nuvem cinza e o vento frio, cheio de pó e poeira batendo em meu rosto, se transformando em saudade. Estou diante de um monstro que primeiro me deu você e depois a tirou de mim. Fria, inconstante, cheia de vontades. Sempre me desafiando. Eu, logo eu, que tanto a amei. A cidade e você. Respiro fundo, levanto-me e abro os braços novamente. Você é minha, vocês são minhas, e não vou desistir. Não vou fugir. Não vou terminar com tudo. Vou acertar as contas. Vou me refazer. Vou aceitar o desafio. Me viro de costas e volto para onde eu pertenço, não acima, mas dentro de você.
Lembro de uma noite vermelha. Na mão, uma garrafa de cerveja. No olhar, cenas estroboscópicas em camera lenta. Você se mexia sem nenhuma sutileza, o braço voava sobre a cabeça, o rosto virava de um lado e logo estava do outro. Olhos fechado. Boca levemente aberta. Blusa preta de listras brancas fechada, saia curta e botas. Pulava, e quando voltava ao chão a saia levemente se inflava, mas não levantava. Hipnótica. Talvez culpa do ambiente, da cerveja ou daquela pílula que tornava o mundo muito melhor, que eu me aproximei. Parei diante de você, que fingiu não me ver, mas sorriu envergonhada, disfarçando enquanto continuava virando o rosto de um lado para o outro com os olhos fechados. Enlacei sua cintura. Você olhou-me nos olhos, não estava assustada, sorriu apenas. Parecia piscar milhões de vezes. E no segundo entre o preto e o vermelho, na velocidade de um piscar de olhos, eu te beijei. E em seguida você me beijou. E fomos um do outro. Para sempre.
Até ontem.
Uma carta foi o que resumiu nossa história. Uma carta mal escrita, uma carta suja, rabiscada e úmida, queria acreditar que fosse de lágrimas, mas o papel cheirava a uísque e a garrafa vazia em cima mesa destruía a fantasia. Rasguei a carta, joguei os pedaços pela janela, tentei não olhar adiante, fechei as cortinas e dormi. Dormi até agora, até há pouco. As costas e o coração doíam, incomodavam. Eu sabia que levantar seria ter que encarar o apartamento, já sem você, os armários vazios, a estante de livros incompletas, a falta dos seus CD´s que eu tanto gostava. Mas levantei. E encontrei exatamente o que esperava. Maldita sensatez que você sempre teve. Maldito cuidado que teve em levar somente o que era seu, cada bilhetinho, cada lembrança, cada presente que te dei e que nesse ano tornou-se nosso. Cada enfeite em cima da mesa da sala, cada remédio, até cada copo da cozinha você cuidadosamente separou. Deixou a casa tão sem vestígios da sua passagem que chego até a duvidar se você realmente esteve lá.
Uma leve garoa atinge meu rosto, enfio a mão nos bolsos e caminho de cabeça erguida deixando que ela lave os últimos resquícios de desanimo, mas mantendo a dignidade. Não há mais lágrimas desde o trigésimo andar. Ou realmente acabaram ou resolvi congela-las dentro de mim.
Atravesso até a metade da avenida onde há uma calçada, bem no meio, e sigo por ali. Quero fazer o caminho inverso. Consolação – Paraíso.
Aqui era nosso lugar. Onde viemos conversar naquela manhã depois de nos beijarmos tanto, depois de tanta loucura, depois da música alta, do cheiro de fumaça e do calor. Foi aqui que, surpreendentemente você segurou minha mão e caminhamos assim. Foi no vão livre que sentamos e vimos o sol nascer, cansados e cheirando a cigarro. Foi aqui que você me disse, algum tempo depois, o seu nome.
Tudo parece vazio, há muitas pessoas e no entanto não há ninguém. Sou invisível para elas. Não significo nada e não sou ninguém. Olho em volta. Casais. Muitos. Todos os possíveis, todos os que cabem no vão livre. Ninguém me percebe. Todos aproveitam suas parcelas de felicidade e sonham, com o minuto seguinte, com a urgência necessária, com a eternidade contida no momento. Sonham porque podem. E porquê não sou ninguém. Inexisto sem você. Me torno clichê. Faço o que antes de mim milhões já fizeram.
Sou um ninguém patético. Um, como vocês amanhã. No mesmo lugar, onde outros já estiveram, lamentando os primeiros beijos, o primeiro toque, essa maldita sensação primeira que perseguirá vocês até aqui, nesse ponto onde estou parado, onde vocês não saberão como agir, onde a conclusão se mostrará inevitável.
E vocês, como eu, não acreditarão.
As lojas, livrarias, restaurantes, botecos e cinemas. Nossos santuários. Você sempre tinha algo que eu não conhecia para mostrar e eu sempre te apresentava coisas e pessoas novas. Nunca perguntamos nada, nunca planejamos nada e tínhamos nossa parcela de felicidade. Caminho, e é impossível desvencilhar. Olhar para o lado e não te ver. Não querer entender que força faz tudo isso ser insuportável. Mesas de bar, calçadas, árvores. Carros zunindo ao meu redor. O farol, verde, amarelo, vermelho. Mas não para mim. Atravesso mais uma vez e o fim não me alcança. Sinal verde. Só um sinal, um semáforo. E falta pouco.
A cama nunca era grande o suficiente. Você tentava alcançar a solidão. Me empurrava, pedia licença, me mandava dormir no sofá. Chorava. Queria liberdade e agarrava mais forte minha mão. Precisava de ar e cada diz mergulhava mais fundo. Falava sobre mudança, móveis, a maior coleção de livros e cd´s do edifício. Fazia planos e sentia medo disso. Logo depois do devaneio em olhava odiando, acendia um cigarro, pegava a bolsa e não voltava. Sumia por horas. Aparecia dormindo, cheirando a cigarro, de outras marcas. Marcas outras que apareciam em sua pele, marcas feitas por outros.
Mas você dormia e eu me calava. Você simplesmente dormia. E eu podia, nessa hora, te olhar.
E mesmo andando devagar eu me canso. Noto que as lágrimas não irrompem mais. O coração parece mais leve. O único problema agora é a mente em turbilhão, dando-me facadas a cada carro que passa por mim. Nas duas direções. A medida que avanço as coisas ao meu redor vão mudando. Há poucas pessoas nas calçadas, a luz diminui, a imagem em minha frente é mais sombria, sinto-me observado. Por você. Sinto que você, de agora em diante comanda meus passos. Vocês. Não tenho coragem de olhar para trás. Há muito o que ser visto, e ainda não estou preparado.
Vejo a mão na sua coxa. Tiro-a e o afasto. Você ri. Bêbada. Um punho me acerta o queixo. Meu estômago dói com o chute. Você cai no sofá, rindo. Eu caio no chão. Sangue. Meu sangue que sai da boca. Outro soco na cara. O escuro não me deixa ver nada. Tento me levantar ao mesmo tempo em que tento enxergar com as mãos. Ouço a risada alucinada. A dor é maior do que a da surra. Uma garrafa se quebra em minha nuca.
Se pudesse, pensaria em te deixar naquele momento. Ali seria o ponto em que você morreria para mim. Mas acordo em seus braços. Vejo seu rosto sujo pela maquiagem que as lágrimas borraram. Você limpa minhas feridas. Você cicatriza meu coração. E se eu pudesse, nesse exato momento, pensaria em não começar a te amar.
Já não há mais tanta lembranças nesse ponto.
Não há lembranças nem justificativas. Não há o que entender, e nem o que fazer. Nada acontece. Nem acontecerá. Te conheci o bastante para saber disso. A vida não vai mudar. E você não vai voltar. Eu pensava que sem você essa cidade era só uma cidade. É quase Paraíso. Me viro de repente pois já olhei muito para trás nessa noite. Sempre soube que uma de vocês não era minha. Sabia ou sentia. Não importa. De onde vim você se perde em cada esquina. Fez parte, mas não foi o todo. Em uma das esquinas está a carta. Jogada numa lixeira. Numa das esquinas lá de trás, antes do prédio, antes da morte imaginada, antes de tentar me encontrar.
A carta em que você diz nunca ter me amado. Em que confessa não saber viver para ninguém. Em que diz ter medo, querer liberdade. Onde assina a confissão de egoísta. Onde mostra ter sido burra. Onde confessou ter acreditado em tanta coisa que não valia a pena, onde tomou decisão pelas ilusões, onde matou o que fez você própria fez nascer.
Sem você São Paulo é só mais uma cidade. E você, aqui, é só mais alguém.
Ainda há o que seguir. O caminho não termina. A paraíso está ainda um pouco longe. E preciso chegar, para saber onde estou, para saber voltar. Dou uma olhada para trás e sorrio. Feliz, pois não há como, no asfalto, deixar pegadas.
PAULO F. nasceu em São Paulo, em 1980. Já escreveu diversas peças teatrais, roteiros, contos e um romance intitulado "10 Canções de Amor", todos na gaveta. É formado em Roteiro e logo será em Produção Editorial.
| comentários (6)
:: outubro 30, 2004 10:42 PM