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No rastro do sujeito oculto
por Ronize Aline

Sujeito oculto, para Houaiss, é aquele que não está representado por meio de palavras na oração, mas pode ser identificado pela desinência verbal. O sujeito oculto de Karam tangencia o estado do inexistente. “As sombras são a minha máscara nas ruas estreitas”, diz o sujeito que se apropria das sombras para ocultar-se. O matador de Sujeito Oculto, de Manoel Carlos Karam (Editora Barcarolla, 2004), é quase um não-sujeito. O que o salva da inexistência é o seu discurso. Ao falar, ou escrever, sobre si, esse oculto se torna sujeito. Mas nada além das palavras é capaz de comprovar sua condição de ser: não há família, não há amigos, as pessoas que poderiam confirmá-lo como sujeito são suas vítimas, que não sobrevivem para dar testemunho. Há certamente clientes que encomendam os serviços mas que, ausentes da narrativa, não oferecem provas de relação com o matador. O sujeito deixa escapar que pode haver mulheres, com as quais se envolve apenas para o sexo. Se forem reais, ele mesmo não vê motivos para que se lembrem dele.

O personagem prefere ver a si mesmo como um contraponto aos outros. Se define pela contraposição, pelo que os outros não são. E esse jogo de opostos, esse revela-esconde, dá o tom do livro. Quando revela temos a certeza de que está escondendo algo muito maior, e quando esconde nos deparamos com uma revelação inesperada. Porque o sujeito de Karam não tem receio de dizer que não sabe, não se lembra. Não é onisciente, é uma pessoa comum falando consigo mesma. E nessa conversa, da qual somos intrusos, ele se espanta, se surpreende com seus próprios pensamentos e o que deles advém. Muitas vezes parece maravilhado ao descobrir que é capaz de interagir com o mundo. Maravilhado de se perceber sujeito. Como se ele mesmo não estivesse a salvo de esquecer disso.

“O verbo fazer, pronto, eu sou isto, o verbo fazer.” O matador procura uma prova de sua existência no seu ofício; e o livro acompanha esse sujeito em ação – a única forma de percebê-lo. Em nenhum momento perde-se de vista o que está fazendo ou mesmo pensando, já que Karam segue seus rastros físicos e mentais como um cão farejador e nos arrasta com ele como que para nos fazer testemunhas de sua existência. E nessa perseguição ao sujeito temos uma valiosa ajuda, já que ao narrar a si mesmo se exime de qualificar ou selecionar o que é contado. Fatos que poderiam ser considerados irrelevantes para a ação estão lado a lado com fatos essenciais, quem sabe como armadilhas ou pistas, já que todos os elementos fazem parte da cena, do que ele é – ou pretende ser. Cabe a nós, leitores-intrusos, darmos sentido ao que recebemos.

O narrador oculto corporifica a versão discursiva da teoria do caos. Ele fala de si levando em consideração que qualquer alteração em uma das partes, por ínfima que seja, provocará alterações no todo. Assim, vai esmiuçando cada ação, cada cenário, guiando nossos olhos para aquele pontinho escondido o qual não demos a menor importância e que fará toda a diferença. Ele parece ter necessidade de fazer do leitor cúmplice do que faz, por isso aponta, destaca, repete, como a alertar-nos a todo momento: está prestando atenção? Mas, da mesma forma que faz, desfaz. Seu ofício cria uma sensação de impureza, então desenvolve uma obsessão por limpeza, rituais de purificação que devem ser seguidos antes de retornar ao local sagrado que é sua casa. Mas a limpeza também é a ausência de marcas. Na limpeza não há rastros, pegadas. E, ao mesmo tempo em que o sujeito trata de ocultar suas pegadas para que outros não o percebam, institui hábitos e costumes para que ele próprio não deixe de se perceber. E o jogo do revela-esconde, numa subversão da brincadeira infantil de esconde-esconde, é reforçado.

Karam nos presenteia com esse sujeito oculto em seu sétimo livro, depois de criar uma literatura própria com marcas inconfundíveis. Esse catarinense de Rio do Sul, radicado em Curitiba desde 1966, é capaz de surpreender sem no entanto perder seu traço. Nesta obra pode-se encontrar vestígios da escrita espiralada de Encrenca, seu romance anterior, porém de forma mais atenuada. Karam se inventa e reinventa e, ao se construir como autor, participa da construção de uma literatura inovadora. Não é à toa que Nelson de Oliveira, na apresentação da coletânea Geração 90 – os transgressores, inseriu Pescoço Ladeado por Parafusos, de Karam, na biblioteca básica de transgressores contemporâneos.



| comentários (1)

:: janeiro 5, 2005 07:03 PM



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