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Decifrando os mistérios da roda
por Marcelo Moutinho

Ao anoitecer de cada domingo, num minúsculo boteco de Copacabana reúnem-se alguns dos mais talentosos músicos cariocas. Aos poucos, eles chegam com seus instrumentos, tocam e cantam, sem cobrar couvert artístico e pagando do próprio bolso a cerveja que consomem. A tradicional roda de samba do Bip Bip, porém, tem suas regras. Sob olhar atento do proprietário do estabelecimento, Alfredo Jacinto Mello, ou simplesmente Alfredinho, os participantes devem falar baixo e evitar pedidos ou aplausos. Além disso, só os músicos sentam-se nas cadeiras de ferro do bar. Muitos dos desavisados que chegam à Rua Almirante Gonçalves estranham e juram nunca mais voltar. Outros encantam-se com o ambiente e acabam por se tornar assíduos, embora não saibam exatamente nomear o que os move a cada domingo em direção ao apertado boteco.

O rígido ordenamento interno e os mistérios singulares, ambos conhecidos da grande maioria dos freqüentadores do Bip, são sintomáticos também do que ocorre em tantas outras rodas ao redor da cidade, esmiuçadas com erudição pelo jornalista, crítico e produtor Roberto M. Moura em No princípio, era a roda – Um estudo sobre samba, partido-alto e outros pagodes, que acaba de ser lançado pela Editora Rocco. Baseado em tese de doutorado em Música defendida na Unirio, o livro parte da premissa de que as rodas precedem as escolas e mesmo o próprio “samba”. Acredita o autor que elas vieram favorecer e proporcionar uma “ambiência sonora” que desembocaria no surgimento do gênero, já que representam sua “matriz física”, sua célula original. Da casa de Tia Ciata, Praça XI, no início do século passado, as rodas teriam tomado forma no bairro do Estácio e se espalhado pelos subúrbios cariocas através dos encontros de terreiro, realizados dentro das próprias escolas e decerto fomentadores dos chamados “sambas-de-quadra” que tanto sucesso fizeram em agremiações como Portela e Império Serrano.

Ainda sob perspectiva histórica, Moura sinaliza para o fenômeno seguinte, que ocorreu nos anos 60. Com a institucionalização das escolas - elevadas a ponto principal do carnaval carioca - e o imenso sucesso popular dos sambas-de-enredo, as composições de terreiro foram paulatinamente aniquiladas, obrigando os sambistas a transferirem as suas rodas das quadras para teatros e bares, como o mítico Zicartola. Foi uma época de shows memoráveis, caso do célebre Rosa de Ouro, que levou ao palco, entre outros bambas, Paulinho da Viola, Elton Medeiros e Clementina de Jesus. Se o sambista não podia mais fazer da quadra o seu quintal, levava-o para outros cenários, talvez nem tão maravilhosos, mas onde lhe seria permitido reencenar, por intermédio da realização da roda, uma representação possível da própria “casa”.

Sim, porque na oposição entre os conceitos de “casa” e “rua”, cunhados pelo antropólogo Roberto DaMatta, encontra-se o cerne do trabalho de Roberto Moura. Não se trata, evidentemente, de espaços geográficos, mas de esferas simbólicas, áreas de ação social, domínios culturais. O jornalista identifica nas rodas a reprodução de relações íntimas e de pertencimento nas quais os laços de amizade e sangue são permanentemente renovados. A intimidade da “casa” confrontaria-se com o mundanismo da “rua” em que se transformaram as escolas de samba a partir da espetacularização do carnaval. Tal traço é sublinhado no livro por intermédio do depoimento de músicos como Nei Lopes, Monarco e Luiz Carlos da Vila, de entrevistas realizadas com freqüentadores e de versos de sambas que tratam do tema, todos eles citados e relacionados ao final do volume.

Felizmente, o autor não se furta em comentar também processos mais recentes, como as importantes inovações efetuadas pelo Cacique de Ramos na década de 80 e a atualíssima revitalização capitaneada por produtores corajosos como Lefê Almeida e por jovens artistas como Galotti, Teresa Cristina, Nilze Carvalho, Pedro Miranda, agentes ativos e fundamentais de uma nova geração sem medo do diálogo com a tradição e cuja voz é registrada talvez pela primeira vez num estudo mais aprofundado.

Moura sustenta que, apesar do longo percurso histórico - da casa de Tia Ciata à Lapa de hoje -, pelo menos sob o ponto-de-vista da significação e das relações de hierarquia interna as rodas não mudaram tanto. No livro, ele enumera algumas das “regras” que perduraram: não se pode manejar um instrumento sem competência, nem falar mais alto do que o som. Imperdoável puxar um samba e esquecer a letra pela metade. Mais uma distinção: não importa o artista ser um sucesso de vendas ou execução, “nada lhe assegura qualquer respeitabilidade ou diferenciação dentro da roda. Seu lugar será sempre determinado pelo que for capaz de fazer ali.” Quando aos participantes, explica ainda o autor: “O modo mais natural de participar é cantando ou tocando, mas aqueles que integram o coro também são considerados ‘parte’ da roda”.

Outra característica seria o repertório em permanente busca por “saudar o passado”, embora paradoxalmente a roda funcione também como área de “legitimação” para novas canções, já que os sambistas costumam apresentar ali, entre seus pares, as composições inéditas. “Como em qualquer ritual, a roda preserva e atualiza o que terá em sua origem”, resume Moura, situando-a como uma resultante da “dialética entre o cotidiano e a utopia”, capaz de instaurar no sambista “a ilusão da eternidade”. “É como se o tempo tivesse parado e o mundo ficasse lá fora”, destaca Moura.

Entretanto, diante de tantas reflexões fundamentadas sobre o tema, não é do autor, nem de algum sambista entrevistado, ou mesmo do pensamento sempre sagaz de Roberto DaMatta, a melhor síntese sobre aquele mistério aludido no primeiro parágrafo: o motivo pelo qual alguém sai de sua casa e se aperta entre tantos outros para ouvir (e cantar) samba numa roda como a do Bip Bip. A fala é de André Vianna Dantas, professor de História, morador de Niterói e simples freqüentador, em resposta à pesquisa feita pelo site Agenda do Samba e do Choro. Diz André: “No meu caso, vou às rodas porque preciso mesmo. Não é frescura, é necessidade. Sai do plano individual e vai para o coletivo. É como se todo mundo se olhasse e dissesse: - A vida é foda mas é boa pra cacete”.

E não é mesmo?//

No princípio, era a roda – Um estudo sobre samba, partido-alto e outros pagodes
Roberto M. Moura
Editora Rocco
320 páginas

MARCELO MOUTINHO

Marcelo Moutinho é Jornalista, escritor e freqüentador assíduo das rodas



| comentários (0)

:: fevereiro 16, 2005 04:19 PM



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