Do sangue, suor e lágrimas
(Sem título)
por Tony Monti
Golpe único e preciso. Nenhuma chance de fuga.
Animal morto, esmagou a cabeça com duas marretadas adicionais. Um globo ocular rolou silencioso no soalho. Lamentou não ter destruído a cabeça no primeiro golpe, com o animal ainda vivo, quando a raiva primitiva latejava-lhe a alma.
Por um fio
por Luis Eduardo Matta
Pelo vidro da janela, vejo a luz difusa do lampião solitário, encoberto pela névoa fria da alta madrugada. Não era mais a minha única companhia. Há dez minutos alguém bate furiosamente à porta. O medo me domina. Preciso correr e concluir logo este texto. Mas, talvez já seja um pouco tarde para fugir.
Espiral
por Crib Tanaka
Celsius muitos. Jato frio. Sem óculos tomava banho, achando-se míope diversão. O sabonete escorregou da mão, deu cambalhota e, no instinto, ela pegou-o no ar com a mesma mão. Continuou passando-o pelo corpo. Deu-se conta da proeza e pensou: hoje as coisas só podem dar certo. E foi sugada pelo ralo.
três gordas
por Carol BensimonUma delas matou um cara. Eram três gordas que ficavam empoleiradas numa sacada minúscula. Todas com o cabelo cheio de laquê. E voz de gorda que pedia por caramelos no mercadinho. Se o gosto por caramelos era de uma, ou era de todas, não sei. Ninguém sabia dizer a diferença entre elas. Só o jornaleiro. Que um dia apareceu pendurado na sacada das gordas.
foie gras para o rei
por Emílio Fraia
tenho a impressão, qüén, de que tomamos o castelo, qüén-qüén, que o bater panelas é nosso, que a gente está mais dentro do que nunca, que aquele ali na cozinha, de faca na mão, qüén, vai nos ajudar, vai sim, que essas cebolas e tomates, qüén-qüén, isso tudo, qüén, é o nosso plano dando certo.
Ninguém disse 'eu te amo' para Miuko
por Miguel Conde
"Minha prima quer te conhecer". "Japonesa?". "É". "Gostosa?". "É, boazinha".
Toma um gole, pensa. "Chupa uma piroca, a vagabunda". "Não sei...". Outro
gole. "A gente come essa filha da puta. Já paguei por coisa pior". "Beleza".
Paz na Terra aos homens de boa vontade
por Fábio Fernandes
- Nada se resolve com violência - disse o filósofo ao kickboxer antes de apertar o gatilho.
- Concordo - respondeu o kickboxer ao desarmar o filósofo e quebrar sua espinha em dois lugares.
Moto contínuo
por Christiane Tassis
Paisagem comum, encostada em um carro, top amarelo, short agarradinho, barriga de fora. Não dessas barrigas malhadas: uma de seis meses. Muito ermitão queria aquela montanha. Suely sabe que o som da vida é um choro. Mas enquanto o dele não vem - é um menino - ela tenta sorrir para ganhar um troco.
Pessoas más também fazem festa
por Ana Beatriz Guerra
Apesar do desfalque à mesa, o anfitrião tocou o sino. A criada empurrou o carrinho. O aroma era muito requintado. Os convidados salivaram. Empunharam garfos e facas esperando por uma iguaria absurdamente palatável. A tampa da bandeja foi levantada, revelando a cabeça decorada com cenouras e cerejas.
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:: abril 6, 2005 02:03 PM