Das linhas de memória, do tempo e do sonho
Breve pensamento
por Débora Monnerat
Palavras surgem na mente. Pensamento, sentimento e ação. Todos se comunicam, sem percerber a real dimensão deste ato. Idéias vagas, com direção certa percorrem as vielas da memória. Estamos lá, mas nos consideramos imóveis. Habitamos o espaço e traçamos rotas invisíveis que redimensionam o infinito.
Quadro negro
por Fransueldes Abreu
Tínhamos sete anos. Bia peidou na sala de aula. Todos ouviram. O cheiro se espalhou. Risos gerais. Nossas mesas coladinhas. Ela vermelha como um pimentão. Levantei a voz e disse com firmeza: “Fui eu!”. Essa foi minha primeira loucura de amor.
Sob medida
por Dani Sigaud
Úmido estalar de dedos apagando a memória de uma cama com pregos. A água vem toda do nariz que escorre em pleno resfriado. Marco a página do livro com um cartão-postal. Certas viagens deveriam acontecer.
Vade retro
por Ariela Boaventura
Vestido vermelho, pegadas de sangue. Tal musa irresistível, a Realidade diz: vem. Súplica muda. Atrás dela, o espelho. Pinço do bolso certo retalho vermelho: lenço ou patuá. Olhar de terror, ela vai sumindo. E esse olhar, até que toda ela desapareça na superfície do reflexo, fica grudado no meu.
exílio
por Paloma Vidal
estou aqui para contar como vim parar de volta na terra que me pariu. como foi que girei o mundo, do rio ao mar e de novo ao rio, numa só vida que me fez sem fi m. não há fantasia que agüente uma história dessas. mas a história precisa ser contada, pois a separação é muito árdua para ser vivida só.
A menina que sonhava
Marcelo Moutinho
Rita sonhava toda noite. Não gostava. Disseram-lhe: não há jeito, todo mundo sonha toda noite. Passou a rezar antes de dormir para esquecer do que sonhara. Às vezes esquecia. Assim cresceu – e continua sonhando a contragosto. Resta-lhe a dúvida: onde dormem os que estão despertos em seus sonhos?
Desprezo,
por Alessandra Archer
Quando soube que ele trocara a solidão calorosa de Copacabana pela fria Alemanha, riu. Disseram que lá conheceu Tina e casou-se. Os amigos ainda relutaram em contar que ele dera um trago tão forte num cigarro, que seu coração endureceu. Desconfiada, ela estranhou: poderia jurar que já o enterrara.
Graças
por João Paulo Vaz
Maria das Graças que graças fazia a Graciliano no fundo do quintal?
E porque lhe dói tanto essa lembrança, se foi tão bom?
No lusco-fusco do final da tarde, arfavam juntos, grudados no muro e um no outro, as mãos trêmulas dele remexendo no corpo dela, as folhas tremeluzentes do milharal remexendo na brisa. Ah, como doía então o desejo e como dói agora a saudade!
Eu conto
por Alexandre Matias
Começa com uma pessoa. Acontece alguma coisa que culmina numa conseqüência
inesperada. A pessoa divaga sobre o acontecido, surpresa. Outra coisa
acontece. Os dois acontecidos são confrontados e a pessoa chega a uma
conclusão - ou esta chega a ela. O resto de sua vida não importa. Fim.
Cousas que me contaram...
por Ana Paula Mangeon
Já muito idosa, a serpente, revelou que o primeiro indício da sem-vergonhice que dominaria todos os homens do mundo manifestou-se no momento em que Adão, analisando Eva com um pouco mais de cuidado, concluiu que pecado era deixar de provar da maçã.
Ideograma
por Saint-Clair Stockler
O Imperador Amarelo amava tanto os pássaros que erigiu para eles um Jardim. Em seu amor, esqueceu-se das esposas, dos generais e dos filhos do povo. Pressentindo a morte, deixou instruções: que fizessem de seu corpo pó a servir de alimento às aves. Hoje o Imperador voa pelo céu luminoso em cada asa.
Pele
por João Paulo Cuenca
Levanto sem pensar. No travesseiro, pedaços de pele. Sento na beira da cama e ajudo a arrancar a cobertura do meu corpo, cada vez menos resistente às unhas. Aos poucos vou me largando por aí. Os pedaços soltos pelos lugares mais improváveis. Alguns servem pra encher papel, viram palavras. Outros, ventam. Vão agitar o cabelo de uma morena.
Fim de caso
por Alessandro Garcia
O pior eram as fotos pelas paredes da casa. Recolhidos os presentes, os bibelôs a enfeitar cada canto de cada estante e mesa e ainda depois de dar sumiço às cartas, cartões, perfuminhos e cadernos rabiscados. Depois disto, o pior era parar em frente a cada parede e tirar o retrato do prego.
Eu vi o foguete decolar e cair
por Fred Leal Chuva de fogo e o caralho. Tava deitado no capô do meu carro, fumando um cigarro depois de tirar o sistema do ar três vezes, quando vi aquele foguetão de cabeça vermelha cruzando o céu. Todo cheio de si. "Vá se foder você também!", gritei, e ele explodiu. Voltei pra casa e não contei pra ninguém.
the dream is over
por Leonardo Barbosa Rosato
e sorri cumprimentando-os por existirem e por serem meus amigos e por estarem ali quando eu já estava indo, junto com a foto da Letícia que joguei pelos ares poluídos de são paulo que tragou-a, como um livro traga palavras e frases e pensamentos e sonhos e estórias e vida: logo que são fechados.
Crise dos sete anos
por Rosana Caiado
Chegou chutando pedra longe. Admitiu taquicardia - dava para ouvir. ?Acabou?, ele disse com voz de barítono. Impactante, irremediável, indigerível, inconstitucionalissimamente, paralelepípedo. O sinal tocou. Coloquei a merendeira no ombro e fui chorar no banheiro do pátio. Depois dele, nunca mais.
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:: abril 6, 2005 02:11 PM