Não há apologia à vigarice. O que aconteceu foi o seguinte. Eu estava sentado com a máquina de escrever nas pernas. A cerveja na mão. A fumaça do cigarro saindo do cinzeiro. Deliberadamente falso e feliz por um tropel de bocetinhas pulando pelo meu colchão.
Uma ruivosa agora, de cabelo curtinho. O biquinho do peito duro de espetar a bochechosa. Coxas compridas e grossas e pouquinho de celulite no contra-luz. Ai a marquinha do biquíni aparecendo no ladinho da calcinha. Ai, doce.
Uma negra agora. Um pouco dentucinha. Feliz em me roçar o bumbum pelo rosto. O biquininho azul quase sumindo no bumbunzinho. Agora ela se vira. Transida, puxa o biquinoso de lado e me pede dois beijos. Amooooooor.
Eu, o mesmo Hermes, feliz com meu tropel, tenho de ouvir a campainha do apartamento estrilar. Espero que não toque mais. Sim. Vai tocar. Que agora se foda.
A cena foi mentirosa, mas foi assim. Do lado de lá da porta, meu vizinho, para quem eu tinha vendido meu Gol a ar 1986, na cor bege, em ótimo estado, tanque cheio, tenta contar toda uma história entre o que lhe restou de dentes e um olho roxo.
Passo a mão pela jaqueta 1978 e estamos ele e eu diante de um guardador de carros. Eu fazendo às vezes de amigo, ele de espancado e o guardador no papel de animal ameaçado pela refrigeração 1986.
A ressaca da infância que não vai. O guardador não era ninguém menos que os milhões de gorduchos que têm medo de quem conserva amigos.
Aí me animei. Não levei em conta o gesto desesperado. Ele veio e me estendeu a mão. Gosto doce de crocodilo de plástico. Cheio de suco cor-de-laranja.
Perguntei se ele sabia quem tinha espancado. Ele me contou o seriado de um Gol a ar, de um estacionamento e de uma rua de lazer. Tudo em três tópicos e sem a falta de dente e o olho roxo do vizinho.
Fiquei entre mais nostálgico e menos imbecilizado. Pensei seriamente em colocar a mão no meio dos dois e incentivar a diversão de cela de cadeia: “Quem não cuspir aqui, a mãe não é séria”.
Foi um passo para eu coçar a barriga como o Bud em “Minhas Férias na África” (“Going Bananas”), o único gordo mandrião do mundo, olhando pra cima. Provavelmente examinava o céu. Falei: “Pede desculpas pra ele”. Ele disse “ahn?”. Eu repeti: “Pede desculpas pra ele”. O gorducho pediu desculpas diante de mim, o magro fã de Bud Spencer. “Agora dá um abraço nele”. Fui longe na demência do Acquaplay cheio de pipi amarelo e Woody Woodpecker às 7h. Ele repetiu: “Ahn?”. “Dá um abraço nele”.
O gordinho foi abraçar meu vizinho e foi aí que eu vislumbrei a grande beleza de toda merda que me enfiei.
Bem, falo de uma história mentirosa. Sem trilha de “Police Truck”, cotoveleiras e closes em barriguinhas de fora se agitando pela platéia. Falo de um trecho de rua sem edifícios espelhados, Galaxão modelo 1974, Raybans e biquininhos cavadinhos.
Falo de coisa baixa. Cinema nacional. Rua de lazer promovida pela vereadora Joelma da Cadeira de Rodas (PTB, 14.526), o homem do realejo entregue, cambaleando e dando arrotinhos de conhaque, duas rampas de bicicross e uma mesa de sinuca “ao ar livre”.
Meu vizinho deve ter lembrado do terno que sempre usou para ir ao emprego. Elegância exigida na sede da rede Econ Supermercados. Emendou para o guardador de carros um “não. Isso não vai ficar assim!”. Quase peço meus 1.200 pelo modelo 1986, parabenizo o gordinho pelo serviço e me despeço depois de dar o sinal de “valendo”. Mas, e isso conta bastante, estávamos no meio de uma rua de lazer promovida pela vereadora Joelma da Cadeira de Rodas (PTB, 14.526) _com platéia.
Visto que é em tardes em que a sombra lambe ruas vazias que você pode chegar perto da grandeza do ser humano. Ali, solidários, todos se prontificavam a analisar o descambar da situação com “noooooossas!”, “aveeeeees!” e “vichhhs! Agora foi foda!”. O amargo do gosto de crocodilo de plástico. Cheio de suco cor-de-laranja. Que se foda o homem do Gol a ar 86.
Então o que ele quer é bater no guardador? O homem só, do edifício Guaru I, quer bater no guardador de carros. De minha parte, não teria nada contra, mas ele me convidou; isso aprendi na TV.
À mim, a “maneira diplomática” de acabar com toda aquela feira-livre. Isso também aprendi na TV. Bem, daí de espanto ensaio um passo pra trás e o gorducho se enche de medo. Bom, tive aí uma visita da dupla Walter Lantz e TVS da Vila Guilherme (seeempre alagada). Ensaio outro passo e o gorducho estremece de novo.
O poder de hipnose de Buzz Buzzard. Atividade mágica que não requer conhecimento anterior nem erudição. Passo a mão pelas costas do meu vizinho e dou uma empurradela nele para frente. A resposta é uma patada do guardador de carros que meu jovem vizinho deve se atormentar por um flash explodindo até por esses minutos.
Dou um passo largo para trás, outro e mais outro e acompanho a reação atordoada do meu vizinho. A audiência vê interessada a, sem dúvida, maior distração do ano. Uma mulher se diverte erguendo um bebê de sete meses no ombro para que ele bata palmas e sorria o riso babado. Vou avançando para fora da roda de Lodo.
Ponho a mão nos bolsos da 1978 e começo a andar na rua. Era hora da mentira ter “Holiday in Cambodia" na trilha, uma pilha de créditos deslizando pelas minhas costas e eu dar um braço para a ruiva e o outro para a negra. As duas em biquininhos, Deus querido, bem cavadinhos.
Jefferson Alves de Lima
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:: abril 28, 2005 01:31 AM