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Quase meio século de Roth
por Vinicius Martinelli Jatobá

Muitos escritores levam anos para alcançarem uma voz narrativa que dê conta do material que possuem para transformar em literatura. Outros sofrem de uma alarmante precocidade, que os fazem mestres de si mal saíram de suas primeiras leituras e releituras. Philip Roth é um desses casos precoces que maravilham os leitores – por quase meio século o público estadunidense tem acompanhado suas constantes transformações. A última é a mais corajosa: canonizado aos 72 anos, pela luxuosa edição da ‘Library of America’.

Não há dúvidas de que Roth pertence à constelação de bons autores da literatura dos EUA da segunda metade do século XX, mas é muito recente, no entanto, e apesar de toda sua precocidade, o conjunto de livros que lhe justificam essa atenção. Foi apenas com a publicação de ‘Pastoral Americana’ (1997) que Roth parece ter realizado o encontro feliz entre seu talento descomunal e uma exploração mais pertinente da histórica dos EUA. Esse mês, sua última pérola (‘O complô contra a América’, edição original em 2004) chega às livrarias em tradução da Cia das Letras; nesse intervalo de oito anos ele recuperou a balança de toda uma carreira marcada por vôos altos, porém nunca suficientemente altos. De Roth sempre se esperou mais do que dos outros.

A leitura dos dois volumes da LOA nos revela que mais turbulento que seu talento era apenas a sua confusão e versatilidade – os seis livros reunidos são pérolas cada um a seu modo. Eles falam mais de Roth como leitor do que de Roth escritor. Ele mesmo admite que são cadernos de aprendizagem, textos em que a busca é maior que o encontro. ‘Goodbye, Columbus’, livro que abre a coleção, tem contos cinzelados; a aproximação de Roth das personagens é sempre precisa, quase nunca o universo que narra deixa de ser visível ao leitor. Nesse livro já encontramos o humor e o erotismo que iriam marcar sua carreira. Meu texto predileto do livro é ‘Epstein’. Saul Bellow considerava ‘The Conversion of the Jews’ uma obra-prima. E uma comissão julgadora concedeu a Roth, um menino de 26 anos, o maior prêmio literário do país naquele momento: o National Book Award.

Seus dois próximos livros, romances (‘Letting Go’ e ‘When she was good’), trazem um Roth exercitando o gênero ao extremo da frieza e seriedade. A massa verbal transbordante, a caracterização das personagens, o jogo de focos e a paciente estruturação da ação narrativa: é Roth seguindo a cartilha do bem escrever. Os dois romances têm seus bons momentos, e embora confirmem o talento do escritor não adicionam realmente ao que ele havia feito antes com seu livro de contos. Ele apenas avança suas artimanhas ao dissecar a vida de quatro adultos jovens em ‘Letting go’ ou o tédio da vida de interior em ‘When she was good’, único romance Roth com um protagonista feminino. Lendo esses dois livros lembrei de uma parte já esquecida da tradição literária americana: algo de Henry James, muito Sinclair Lewis e Sherwood Anderson, James T. Farrel e Bernard Malamud, talvez uma ou outra lição de Saul Bellow. São livros sóbrios, talvez até mórbidos; e são livros perdidos na bibliografia de Roth, tão conhecida pelo seu viço e movimento frenético.

Finalmente (estamos na metade do segundo volume), vem ‘Portnoy`s Complaint’. Esse romance talvez seja o mais superestimado da literatura americana. Ele não é tão engraçado assim, nem tão provocativo. Muitos apontam sua linguagem como inovadora, mas o impacto na cultura americana dos livros de Bellow era o palco onde a verdadeira apoteose de uma linguagem forte e original estava sendo encenada. Acredito que se confunde muito uma linguagem forte com uma retórica pronunciada fortemente. O romance liberou a forma para Roth, e foi vendido e lido com sofreguidão e histeria – e acaba aí sua influência. É um romance que envelheceu, e que não é nem ao menos memorável. É forçado; é estruturado com nós falsos; é tosco. Vale a leitura? Sim, claro. Uma leitura despretensiosa, leve, macia. Porém, acompanhando do primeiro livro a esse – possibilidade privilegiada pela LOA –, se tem uma visão clara de como Portnoy liberou Roth: sente-se até mesmo o entusiasmo do autor, é um livro que parece ter sido escrito com alegria. E, principalmente, fará Roth um escritor disponível às mais bem sucedidas experimentações no terreno da farsa como no romance ‘Operação Shylock’, de 1993, esse sim um grandioso livro, muito engraçado, divertido.

A surpresa da edição é ‘Our Gang’. Que livro delicioso! Que maravilha! Que humor ácido! Que hilariante sucessão de frases! Os discursos, a caracterização do presidente! Nunca um livro me fez rir tanto, nunca. Eu ri da primeira a última página, e ri de novo nas releituras, e li mais uma vez lendo trechos separados, e tenho a certeza que irei rir quando o pegar de novo. Com a tradução muito do ritmo poderá se perder, assim como os jogos de palavras. No entanto, é urgente a publicação desse livro no Brasil. É atual, tem um frescor que somente o feliz casamento entre a despretensão e o acaso podem realizar. Trick E. Dixon entrou para galeria dos meus personagens favoritos; é um falastrão da maior categoria. O humor continua, menos exagerado, na pequena novela que fecha o segundo volume da série programada para oito. ‘The Breast’ conta a estória de um professor universitário que um dia acorda transformado num seio gigantesco. O ouvido para os diálogos é perfeito, e o humor é mais sutil que em ‘Our Gang’. A novela é tão pequena que revelar algo de sua anedota será revelar a trama inteira. Uma homenagem a Kafka que faria até o soturno poeta de Praga rir.

No geral, é um autor cuja leitura é capaz de nos imprimir as mais contraditórias emoções. O projeto da ‘Library of America’ é fantástico, e ler Roth é sempre uma adição. A oportunidade de acompanhar meio século em oito volumes será, certamente, mais gratificante que pesarosa. Os dois pólos de sua trajetória, aos 72 anos, nem dispostas a serem amarrados estão – que seus últimos oito anos sejam dez, quinze. Seu último romance (‘O complô contra a América’) estará ainda esse mês nas livrarias; e não será dinheiro jogado fora encomendar os dois belos volumes de Roth pela LOA. O fato de que conhecemos já a sua trajetória nos envolve de curiosidade em acompanhar por quais caminhos e com quê artimanhas ele alcançará os cimos elevados de sua atual e rica literatura: detetives livrescos.
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VINÍCIUS JATOBÁ



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:: outubro 1, 2005 07:05 PM


VINICIUS Martinelli Jatobá é escritor. Bacharelando em Ciências Sociais pela Universidade Federal Fluminense (UFF) é colaborador do suplemento 'Idéias' do Jornal do Brasil."

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