“Contos Frios”
Virgílio Piñera
Ed. Iluminuras, 1989
~ Original de 1956
Eric Novello, autor de "Histórias da noite carioca" (Lamparina), inaugura em Paralelos uma nova série dedicada aos livros obscuros, esquecidos e mofados. Neste primeiro artigo, Eric fala sobre "Contos Frios", de Virgílio Piñera
(Iluminuras, 1989), lançado originalmente em 1956.
Quero iniciar dizendo que o sentido da arte está nos olhos de quem a vê. Digo assim, secamente, pois é um pensamento que me assusta como escritor, mas que mantém desperta a mente diante de obras causticantes como “contos frios” de Virgilio Piñera.
Para que entenda onde pretendo chegar é importante que tenhamos o mesmo ponto de partida, que no caso foi a leitura sem conhecimento prévio da obra. Assim, antes de qualquer comentário, dou a vez a Piñera e aos retalhos de “A queda”, texto que abre “cuentos fríos”.
Dois alpinistas, após uma manobra mal-sucedida, percebem que irão despencar.
“Não dissemos palavra, mas sabíamos que o despenhamento seria inevitável. Passado um tempo indefinível começamos a rodar. Como minha única preocupação era não perder os olhos, pus todo o meu empenho em preservá-los dos terríveis efeitos da queda. Quanto a meu companheiro, sua única angústia era que a bela barba, de um admirável cinza de vitral gótico, não chegasse à planície sequer ligeiramente empoeirada. Então pus todo o meu empenho em cobrir com minhas mãos aquela parte de seu rosto coberta pela barba e ele, por sua vez, aplicou as suas sobre meus olhos”.
Neste conto, escrito em 1944, Piñeda deixa claro o que espera o leitor (do leitor?). A frase seguinte talvez pudesse ser “ou me ame ou me largue na prateleira, pois é disso que vamos tratar e somente disso”. Sem desmembramentos de tramas, descrições geográficas ou necessidade de contextualizar historicamente os escritos, temos acesso a questões simples de moral e de comportamento humano. Sua agonia pessoal nunca está escondida entre linhas, pelo contrário, aparece vermelha como uma fratura exposta. E se o termo agora parece fora de contexto, logo um significado surgirá.
Juntar poesia e Virgilio Piñeda é contrariar críticos fervorosos, mas me arrisco a adentrar esse universo mórbido com os olhos da poética. Construído em cima do absurdo, o universo de beleza e estrutura peculiar se dá através das idéias e pensamentos das personagens, na maioria das vezes anônimas, que narram as histórias. Longe de ser um escritor de ação, é o tempo psicológico que move cada um de seus textos. Ou haveria ação em “natação”, no qual um homem explica o porquê de nadar em uma piscina vazia?
Mas não se engane imaginando uma leitura lenta, um livro arrastado. “Contos frios” instiga, desperta a curiosidade, provoca um vertiginoso virar de páginas e um ligeiro embrulho no estômago. Usando situações assombrosas descritas com naturalidade, aparente frieza, Piñeda faz com que o único movimento possível seja para baixo e impede o leitor de abandonar o texto antes da luz da compreensão e aqui repito: diferente para cada par de olhos a espreitar este álbum de fotografias literário. Em um processo de auto-análise contínuo, pelo qual tentava expurgar medos e tentações, o autor desmembra literalmente o ser humano que é, e dá respostas aos próprios questionamentos, gerando novos em quem compartilha deles.
“A velocidade crescia como é obrigatório nestes casos de corpos que caem no vazio. Com algum esforço, é preciso reconhecer, íamos salvando: meu companheiro, sua bela barba, e eu, meus olhos. Em cinco trechos perdemos: meu companheiro, a orelha esquerda, o cotovelo direito, uma perna (não recordo qual), os testículos e o nariz; eu, a parte superior do tórax, a coluna vertebral, a sobrancelha esquerda, a orelha esquerda e a jugular”.
Quando seu corpo torna-se pouco, o instinto antropofágico leva o leitor até “A carne”, para acompanhar cidadãos que cortam bifes do próprio corpo para comer. Podem ser lascas da nádega esquerda, lábios, bochechas, peitos ou até o macio do dedão do pé, o que importa é saciar a fome. Ou a um hotel, para a exibição do álbum de fotografias de uma senhora por meses e meses ininterruptos, o que obriga os hóspedes a comerem e defecarem sem sair do lugar. Se em alguns textos Piñeda põe de lado a escatologia, a insensatez não o abandona jamais. O importante é entender que as peças não estão lá por acaso, há sim uma simulação do acaso, com um toque de destino digno de Buñuel e seu “Anjo Exterminador”. Homens em metamorfose virando bonecos e palhaços tristes que transformam seu público em palhaços risonhos são reflexos da visão ácida de um escritor sem paciência para o mundo, cercado de poucos amigos.
“Aproximadamente a uns dez pés de planície, a vara de um lavrador enganchou-se graciosamente nas mãos de meu companheiro, mas eu, vendo meus olhos órfãos de todo amparo, devo confessar que, para eterna, memorável vergonha minha, retirei as mãos de sua bela barba cinza, a fim de proteger meus olhos de todo impacto”.
Piñeda viveu de 1912 a 1979. Sua obra, solo fértil para o humor negro, encontra-se viva em sebos e estantes variadas, com páginas amareladas e cheiro de mofo, do jeito que suas personagens gostariam de ler.
ERIC NOVELLO
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:: outubro 5, 2005 07:36 PM