EDITORIAL
Nos últimos e malfadados tempos, circularam pela capital mineira uma nova versão dos santos-do-pau-oco dos tempos da inconfidência: malas de dinheiro. Belo Horizonte, cidade com nome de cartão-postal, transformou-se no anti-cartão postal, com novos pontos turísticos incluídos em nossa paisagem. Que Igrejinha da Pampulha, que Rua do Amendoim, que nada: todo mundo queria mesmo saber era onde ficava o Banco Rural, a SMPB, o Retiro do Chalé, o BMG, a DNA. A cidade abasteceu-se de um raro turista: o turista daqui mesmo. Houve quem fizesse fotos na porta dos lugares citados na CPI, como “Lembrança de Belo Horizonte”.
Assistíamos nossos ilustres personagens pela TV como em final de Copa do mundo – se no Brasil inteiro estava assim, imagine aqui, na capital dos botecos. Chegamos a fazer uma pequena enquete na vizinhança a respeito de quem eram realmente nossos personagens ilustres, e o resultado foi desanimador. “Guimarães Rosa? Conheço não. Tava na CPI?”. Mas Marcos Valério, Cristiano Paz, Simone Vasconcelos, estes sim, haviam corrompido até mesmo a memória do nosso cidadão comum.
Resolvemos então falar um pouco mais sobre isto. Corrupção. Corrupção não apenas na política: corrupção como deterioração, adulteração, depravaçã. Corrupçõezinhas, corruptelas, erupções. Se todo político corrupto é corrupto do mesmo jeito, cada cidadão corrupto é corrupto à sua maneira. Corrupto. Pense, e você se lembrará o dia em que já foi um.
Fizemos um pequeno passeio pelas montanhas e cerrados da ficção, um passeio curto, despretencioso - uma caminhada. Com humor e dor, e também uma certa dose de amargura (afinal, somos mineiros, carregamos metais pesados em nossos subterrâneos).
Alguns dos autores aqui presentes não são escritores, são realizadores que usam a videoarte como meio de expressão artística (ou sobrevivência caótica). Foram convidados a apresentar sua versão sobre o tema, e, já que se fala tanto em pulverização nos meios audiovisuais, pulverizaram-se, sem problemas, em outro suporte, e o resultado foi uma mistura de estilos, de diferentes gêneros e gerações. Há quem tenha corrompido seu próprio nome, usando pseudônimos, ou seu próprio trabalho, roubando textos do alheio, há usos indevidos e apropriações indébitas. O pântano não deixa de ser um dos mais ricos ecossistemas.
E.M. Cioran, em seu Breviário da Decomposição, faz sua “Defesa da Corrupção”: “a ‘verdade’ só é vislumbrada nos momentos em que os espíritos, esquecidos do delírio construtivo, deixam-se arrastar pela dissolução das morais, dos ideais e das crenças. Conhecer, é ver, não é esperar nem empreender”.
Bom, ainda não empreendemos nada, não vislumbramos verdade nenhuma, ainda há muito o que ver, mas, na pior das hipóteses, fizemos um trabalho honesto.
Christiane Tassis
Editora Convidada
kititassis@yahoo.com.br
| comentários (0)
:: outubro 16, 2005 11:10 PM