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As mulheres e Flaubert
por Ronize Aline

Não é raro a proximidade com a morte trazer arrependimentos de coisas não feitas e decisões de outras por fazer. A protagonista de As netas da Ema, romance de Eugenia Zerbini vencedor do Prêmio Sesc de Literatura 2004, passou por uma situação de quase-morte e saiu dela com uma resolução: escrever um livro. “Se eu tivesse morrido ontem, o que sentiria não ter feito durante a vida? (...) Sofreria por não ter escrito um livro”, conclui.
Mas esse é apenas um gancho para a própria autora escrever a obra que temos em mãos. O romance é, na verdade, um grande bate-papo feminino sobre mães solteiras, endometriose, superstições, falta de namorados. “O poder está nas mãos não de quem faz, mas de quem conta a história”, sentencia a personagem, como que decidida a comprovar a máxima de que toda história é contada pelos vencedores. Logo, escrevendo ela se torna uma vencedora.

Depois de “Sex and the City”, impossível não comparar qualquer produção que envolva o universo feminino com o seriado americano em que quatro amigas discutem seu dia-a-dia de forma bem-humorada. Mas Eugenia consegue fugir do que poderia ser uma simples paródia. Seu texto mescla insatisfações compartilhadas entre as amigas com lembranças da protagonista sobre o desaparecimento dos pais na época da ditadura.

O sugestivo título faz referência à personagem de Flaubert. Inspiradas em Ema Bovary, essas mulheres crescidas na época da emancipação feminina, que trocaram o casamento pela carreira, permanecem ousando mas vivem perseguidas pela culpa. Mulheres bem-sucedidas profissionalmente cuja preocupação com a estética as impede de entrarem em um elevador sem se dirigirem ao espelho. “Carregávamos véus de sonhos que caíam de nossos chapéus cônicos invisíveis de fada: o véu vivia se enganchando, puxando-nos para trás, e dependíamos de forma crônica de alguém que viesse nos desvencilhar”, confessa.

Eugenia utiliza um recurso de não nomear as personagens e sim identificá-las com características que as representam. Há, então, A-divertida-de-cabelos-vermelhos, A-loira-muito-linda-de-olhos-gateados, A-amiga-comum-que-também-era-dentista e Aquela-que-seguiu-o-exemplo-das-amazonas. Com isso ela destaca o hábito um tanto esquecido de se escolher os nomes pelos seus significados.

Ao longo do texto, é possível encontrar um ou outro clichê perfeitamente dispensável, como “vampiros na luz do primeiro raio da madrugada”. No mais, a narrativa é simples, direta e objetiva. O tipo de leitura descontraída e divertida que nem sempre tem o mérito de ser bem escrita. Esta tem.

As netas da Ema
Eugenia Zerbini
Editora Record, 2005
173 páginas


RONIZE ALINE

Ronize Aline nasceu em 1970, em Rio do Sul (SC), e desde 1988 mora no Rio de Janeiro. Jornalista, escritora e professora universitária, ainda divide seu tempo com os interesses acadêmicos de um doutorado. Atualmente mantém o blog Palavra&Tal em www.ronizealine.blogger.com.br



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:: outubro 16, 2005 11:22 PM



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