Caça aos novos escritores
Concursos literários costumam ser uma boa opção para novos escritores que tentam quebrar a barreira do primeiro livro. Principalmente ser o prêmio for a publicação da obra. O Prêmio Sesc de Literatura, em seu terceiro ano, vem se firmando como um forte propulsor literário, já que os vencedores das duas primeiras edições vêm conquistando um ótimo espaço no mercado. “Santo Reis da Luz Divina”, de Marco Aurélio Cremasco, vencedor do ano de 2003, foi um dos dez finalistas do Prêmio Jabuti. “As netas da Ema”, de Eugenia Zerbini (veja resenha em paralelos.org), vencedora de 2004, foi lançado na Bienal do Rio em maio e já está na sua segunda edição. As inscrições para a edição de 2005 estão abertas até 31 de outubro e o prêmio é, mais uma vez, a publicação da obra pela Editora Record. O regulamento pode ser encontrado no site www.sesc.com.br. Henrique Rodrigues, assessor técnico em literatura do Sesc – Departamento Nacional, fala um pouco sobre o concurso e a política da instituição para a literatura.
Como surgiu a idéia de o Sesc realizar um concurso literário?
O Sesc atua há muitos anos na área de promoção da leitura, seja na realização de diversos eventos literários - como as dezenas de feiras de livros, projeto que existe há 24 anos -, seja permitindo o acesso gratuito ao acervo atualizado das mais de 200 bibliotecas e salas de leitura distribuídas pelo país. Temos conhecimento da dificuldade em se publicar literatura de qualidade, ao mesmo tempo em que vivemos um período bastante frutífero em termos de novos autores. Considerando que o concurso literário é uma das formas mais claras e criteriosas para que se descubram novos autores, uma agência cultural como o Sesc não pode ficar de fora dessa frente.
De que forma esse concurso se encaixa na política cultural do Sesc?
O Prêmio Sesc de Literatura segue as duas linhas principais de trabalho da instituição para a área de Cultura: a difusão de um produto artístico de qualidade e o acesso ao artista que não está necessariamente vinculado à indústria cultural. Seria muito mais fácil concedermos um prêmio a obras publicadas de autores consagrados, numa linha voltada mais para marketing cultural do que para democratização do acesso à cultura. Porém optamos por criar uma estrutura que permitisse descobrir o autor inédito, onde quer que ele esteja no país, e aí sim lançá-lo no mercado editorial por meio da nossa parceria com a editora Record.
Esse é o terceiro ano em que o concurso se realiza. Como você avalia os resultados obtidos na duas primeiras edições?
Esse formato de concurso, em que o prêmio concedido é a publicação por uma grande editora, era algo ainda inédito, de modo que não sabíamos como seria a resposta por parte do público. O romance vencedor do primeiro concurso, "Santo Reis da Luz Divina", do paranaense Marco Aurélio Cremasco, foi um dos dez finalistas do Prêmio Jabuti, além de ter sido indicado pela Secretaria de Estado da Educação do Paraná para fazer parte do acervo bibliográfico dos estabelecimentos da rede estadual de ensino. A obra vencedora da segunda edição do concurso, "As Netas da Ema", da paulistana Eugênia Zerbini, foi lançada em maio, na Bienal do Livro do Rio, e já está indo para a segunda edição. Esses resultados indicam que o concurso está no caminho certo.
Você poderia falar um pouco sobre as obras vencedoras em 2003 e 2004?
"Santo Reis da Luz Divina" é uma saga histórico-familiar, que começa na Guerra do Paraguai e vai até a Era Collor. O autor tem uma observação muito interessante do fato histórico dentro da trama, desmitificando os registros oficiais pelo filtro literário. A estrutura do romance, numa linguagem ágil e dinâmica, também chamou a atenção da comissão julgadora. Segundo o crítico Wilson Martins, "trata-se de um romance modelar". Já "As Netas da Ema" estabelece uma relação intertextual com a obra-prima de Gustave Flaubert, em que a própria condição feminina no mundo de hoje entra no discurso da narrativa, somando-se ao famoso "bovarismo". O interessante é que são duas obras totalmente distintas
Como você vê os concursos literários dentro do mercado editorial de novos autores?
Estamos vivendo um novo boom literário, comparável ao da década de 70. Está ocorrendo com a prosa o que antes era exclusivo da poesia: tudo mundo escreve. As facilidades editoriais para pequenas tiragens permitem que qualquer pessoa imprima seu livro - embora não consiga distribuir. Nesse universo, obviamente é necessário que se separe o joio do trigo. Os concursos literários para autores inéditos são uma forma democrática de se identificarem autores. Protegidos pelo anonimato, seus textos são observados pelo critério da qualidade, fora dos sistemas de coleguismos a apadrinhamentos que permeiam o meio cultural.
Qual a expectativa do Sesc para o concurso deste ano?
A partir dos resultados obtidos nas duas primeiras edições do Prêmio, ampliamos para a categoria Conto. Esperamos descobrir, além de mais um romancista, um bom contista ainda inédito em livro.
Como se dará a seleção da obra vencedora?
Como o concurso é de âmbito nacional e as obras inscritas têm textos longos (romance e livro de contos), dividimos o país em subcomissões, onde as obras passam por uma pré-seleção. Daí cerca de 10% das obras vão para a comissão final, que seleciona o livro vencedor e pode atribuir até três menções honrosas para cada categoria. Os autores das menções honrosas recebem kits de livros da Record e um certificado do Sesc informando que aquela obra foi avaliada por um grupo de escritores e críticos renomados, de modo que é indicada à publicação. Tanto as subcomissões quanto as comissões finais sempre são compostas por profissionais não só com nome de peso, mas que sejam antenados na produção contemporânea. Já contamos com a chancela de autores como Luis Antônio de Assis Brasil, Italo Moriconi, Antonio Torres, José Castello e Carlos Heitor Cony.
Alguma dica para quem pretende se inscrever no concurso?
O critério é a qualidade literária. Como vimos nas duas obras vecedoras, não há uma linha ou temática específica. Creio que o candidato deve ser, antes de tudo, um grande leitor, tanto de clássicos quanto de contemporâneos. É interessante sempre submeter o livro a um leitor de confiança, fazer um tipo de "test-read" para que o texto fique o melhor possível. E não desistir. Lembramos que o Prêmio Sesc de Literatura será realizado todos os anos.
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:: outubro 17, 2005 10:15 PM