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Um jardim de livros: a editora Fina Flor
por Elisa Andrade Buzzo

Cristiane Lisbôa, que dirige a mini micra editora Fina Flor conta nesta entrevista como a editora foi criada, o processo de seleção dos originais, e ainda explica qual é o conceito por trás do livro-objeto. O primeiro livro da Fina foi lançado em outubro de 2004 (“Deles e quase o resto”, de Cristiane Lisbôa). Hoje, o catálogo da editora conta com livros de Xico Sá, Pinky Wainer, Rita Wainer, Miranda e Thais Lima. Cristiane e sua irmã, Fernanda Tavares, proprietárias da Fina Flor, preparam mais três lançamentos para este ano.


A Fina Flor tem linha editorial?
Não. A gente lança o que gosta, é meio egoísta. Quando chegam os originais eu dou uma primeira lida. E tenho conselheiros editoriais. Por exemplo, tenho um amigo que gosta de poesia, passo pra ele, tenho amigos que gostam de crônicas, passo pra eles. E essas pessoas lêem e falam, “olha, eu gostei, não sei o quê, não sei o quê”. O livro do Ademir [Corrêa] é uma novela, o livro da Ane [Aguirre] é um romance e o livro do Tadeu [Sarmento] são contos. Mas nós não escolhemos isso. A gente quer lançar coisa boa, independente do que for.

Como a tiragem dos livros é determinada?
Primeiro foi por uma questão de custo, porque a gente não tinha dinheiro para bancar uma tiragem muito grande. Segundo, porque é absurdo tu lançar um livro de um escritor que está começando, com uma tiragem de 1.000, 1.500 exemplares. Tu fica com um monte de livro em casa, parado, à toa. Não queremos concorrer com a Companhia das Letras. A idéia é lançar, sabe, souvenier de literatura. Livros muito bons, mas que sejam especiais, que tu coloque, assim, na sala do teu apartamento – e ache lindo ter
aquele livro na sala do seu apartamento. É juntar as duas coisas. O livro do Xico [Sá], por exemplo é um romanção grosso, só que a capa dele é toda grampeada, tem textura, ele vem dentro de uma meia. Então tem toda uma graça, e a tiragem pequena é justamente por isso, porque a gente não quer perder essa história do artesanal. Todos os livros da Fina, e isso é garantido, inclusive nestas novas edições, a gente coloca a mão nele, o autor autografa todos eles, numera. E vamos manter isso sempre.

A editora vai reeditar os livros que tiveram a tiragem esgotada?
É engraçado, a gente não pretendia fazer reedição de livro algum. Só que o livro do Xico acabou e o Xico quer muito fazer uma segunda edição. Pra nós, vai ser uma honra. Então a gente vai fazer assim – ah, vendeu 250 cópias, vamos fazer mais cem. E sempre ir fazendo aos poucos. Só que vai ter sempre uma diferença, vai ser um livro grampeado e tal, mas o Xico vai revisar o livro inteiro, vai colocar coisa nova, vai tirar coisa, vai acrescentar foto. Então, mesmo as “segundas e terceiras edições” vão
ter sempre uma cara nova pras tiragens serem sempre limitadas e especiais, mesmo sendo variações de um mesmo tema.

E vocês não têm interesse de vender os livros da Fina Flor em livrarias?
Por enquanto não. As livrarias ficam com 50% do valor final do livro. No nosso caso não é interessante porque os nossos lançamentos vendem bem e depois a gente faz o delivery, aqui [São Paulo], em Porto Alegre e no Rio. Ou seja, entregar pelo boy, ou pelo correio. Além disso, gostamos da liberdade dos lançamentos, com festas, vendedores especiais e o que mais conseguirmos inventar. Então, desse jeito tá ótimo. Se tivermos uma oportunidade de em livraria vai ter que ser uma coisa muito especial.

O que é essa denominação de livro-objeto?
Quando começamos a fazer a Coleção Salvo Melhor Juízo, transcendemos a pura e simples literatura. Os livros acabam tendo um valor de objeto. Imagina um livro que tem uma capa de madeira e um espelho na capa. Um outro livro que vem dentro de uma bolsa de vinil. O livro da Pinky [Wainer] que é uma coletânia da obra dela desde a década de 1980. Então, transcendeu a literatura para ser um objeto que tu acha bonito
Ter em casa, tu acha bacana mostrar pros teus amigos, que tu quer ter porque
te dá prazer. E a idéia é isso, sabe, essa coisa do sensorial, as pessoas gostam. Não que as pessoas não gostem de ter um livro, mas a gente quis brincar com essa coisa de um pouquinho mais do que as palavras.

Você acha que os livros da Fina Flor são mais “livros” ou mais “obras de arte”?
Os dois juntos.

É que alguns que parecem ser mais uma obra de arte do que um livro mesmo, não que livros não possam ser obras de arte...
Sinceramente, eu acho que é interpretação pessoal. Eu vejo como as duas coisas ao mesmo tempo. E é tão bacana que uma não interfere na outra. Sabe, o livro da Rita [Wainer] é lindo, tem textos maravilhosos dentro, só que é uma obra de arte, ela fez à mão, com tecido bordado à mão. É um absurdo. O livro da Pinky é todo carimbado à mão e são os trabalhos dela retratados ali. Pra mim, pelo menos, é na mesma medida. Tem umas pessoas que acham que é mais literatura, tem umas pessoas que acham que é mais obra de arte, tem gente que acha que é objeto de decoração, tem gente que acha que não é nada, que odeia.

Quem tem essas idéias de grampear o livro, colocar bolsa, etc.?
Todo mundo junto ao mesmo tempo. A gente senta pra conversar com o autor e com o designer, analisa, pensa, pira. A proposta da editora é essa – vamos lançar livro que não seja simplesmente livro, que dê à pessoa outro sentido, que a pessoa sinta uma outra coisa além do prazer de estar lendo aquela história. E quando nos procuram, os escritores sabem disso.

E os autores pagam parte da tiragem? Como fica isso para os próximos títulos da editora?
Não mais. Fora o meu, até agora os custos foram divididos. Eram quatro livros ao mesmo tempo. Não tínhamos grana. E aí a Pinky e o Xico disseram “queremos lançar o livro”, eu falei, “ótimo vou ficar muito feliz, só que eu não tenho dinheiro”. “Não, mas a gente quer lançar, então a gente vai pagar a gráfica”. Então, nestes primeiros trabalhos, minha irmã (Fernanda Tavares) e eu fizemos todo o trabalho for a da criação do conteúdo. Entramos em contato com gráficas, fecha os arquivos e tal. Por esse trabalho, mais o uso do nome da editora e o delivery, ficamos com 10% do valor final de cada livro. O resto da grana todo foi passado pra eles. Mas a partir de agora, vamos começar a pagar os livros. Porque a gente brinca que quer ser uma editora de verdade. Não por ter mais possibilidade de fazer o que bem entenderemos, porque a gente faz o que bem entende. Dentro do limite do que as pessoas deixam, claro. Por eu ser escritora, acho muita sacanagem as grandes editoras pagarem 8%, 5% do valor final do livro. Então a gente vai pagar 20% para o escritor como pagamento dos direitos autorais.

Cristiane, e como é que surgiu a editora?!
É meio doido. Eu morava em Porto Alegre ainda, estava na faculdade. Tinha uma amiga, tenho uma amiga, que se chama Carola que é uma maravilhosa escritora. Trocávamos textos e tal. Nesse meio tempo, juntei vários fragmentos que formavam uma única história, Carola também. Então, do nada, decidimos, “vamos fazer uns livrinhos e distribuir de graça?” [final de 2003]. Então, começamos a imprimir na PUC de graça, tirar xérox. E montamos os livros em casa, com ajuda do meu pai e da minha irmã. E aí, nisso eu falei “Carola, isso tem que ter um nome!” Fiz uma lista de nomes, entrei na viagem que ia ser uma editora, uma coisa assim, mini, micro editora.

Você que teve a idéia do nome da editora ser Fina Flor?
É. Aí, eu falei para o Binho, que além de ser meu namorado é um super ilustrador, ele achou a idéia o máximo e mandou o logo, que é o logo que a gente tem até hoje.


Para conferir os livros da Fina Flor, acesse o endereço:

www.editorafinaflor.com/


ELISA ANDRADE BUZZO

Elisa Andrade Buzzo, 23, estuda jornalismo na Escola de Comunicações e Artes da USP. Trabalhou na redação da Radiobrás e das revistas Cult e Jovem Pan. Lançou em julho de 2005 o livro de poemas “Se lá no sol”, pela editora 7 Letras. Atualmente colabora com a revista de literatura e artes visuais Mininas (www.mininas.com.br), de Belo Horizonte, e participa do Rumos Itaú Jornalismo Cultural.



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:: outubro 18, 2005 08:29 PM



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