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Isso se arrastou por umas boas semanas. A tarefa era ler e resenhar Cartas a um jovem escritor e suas respostas (Record), livro de correspondências trocadas entre o então iniciante escritor Fernando Sabino e o já consagrado poeta Mário de Andrade. Função de facilidade aparente.

Topei, muito por conta de um outro livro que havia me caído nas mãos meses antes: Mário de Andrade – A morte do poeta (Civilização Brasileira). Na última Bienal do Livro do Rio troquei umas poucas palavras com o professor e filósofo Eduardo Jardim, autor do livro, sobre os últimos anos do poeta no Rio.

A pretensão agora era sobrepor, ou melhor, por diante um do outro dois Mários: o primeiro aquele que se diz “mentalmente fatigadíssimo, num bem completo esgotamento intelectual”; o segundo aquele capaz de despertar, no mesmo período, ressalte-se, um estado de absoluta euforia em um jovem Sabino, prenhe por “continuar querendo saber”.

É este segundo Mário (o primeiro estaria sempre à sombra, rondando) que daria o empurrão salvador ao escritor mineiro e com ele se corresponderia entre os anos de 1942 e 1945, ano de sua morte. Entender como um desencantado poeta pôde ser um sopro de vida em uma já pulsante criatura era o que buscava.

As leituras dos dois livros, no entanto, se embaralhavam e atrapalhavam. Enquanto buscava na obra de Jardim referências ao Mário epistolar, encontrava neste o retrato de um artista desiludido dando esperanças ao garoto. Enquanto houve tempo, ambos sugaram e entregaram o que puderam entre si.

Cartas a um jovem escritor... é uma espécie de diário múltiplo. Nele é possível se observar a transformação de um discípulo em par de seu mentor; é possível acompanhar, quase que passo a passo, a angústia existencial do poeta que vê a morte aproximar-se; e, sobretudo, o florescer de uma sincera amizade que teria papel fundamental na carreira e na vida de Fernando Sabino.

No prefácio de Cartas a um jovem escritor... Fernando Sabido diz a certa altura: “Eu lhe confiava as minhas dúvidas e preocupações literárias com o ardor dos que querem vencer a todo custo: o problema da sinceridade do artista, a importância ou desimportância do sucesso, a necessidade de escrever e ao mesmo tempo ganhar a vida, o aprimoramento do estilo, a opção entre a arte social e a arte pela arte, e outros temas em moda na época”.

Depois desse ponto, leitura estanque, pensava apenas em quais seriam as dúvidas dos novos escritores – isso no caso daqueles que se permitem ter dúvidas. Pois a impressão mais freqüente (particular e possivelmente torta, dirão), é de que questionamentos são associados à insegurança, algo que, de forma alguma, condiz com a postura altaneira dos novíssimos.

Não há dúvidas, penso. Encaminhá-las, quando surgem, a nomes “consagrados” da literatura, ligados ao que vem sendo produzido há séculos e a possível representação do que de mais arcaico há, seria a subserviência elevada à enésima potência. “Flaubert não me diz nada”, já ouvi. Os novos não perguntam; respondem, respondem, respondem apenas. Raras são as exceções.

Mais adiante, ainda no prefácio, Sabido prosseguia: “Foram numerosas cartas de parte a parte (...). Representavam o que poderia haver de mais precioso para um jovem que pretendesse ser escritor. Teria adiantado? Relidas agora, diante dos problemas de hoje, parecem falar de um tempo morto e de assuntos já sem memória, como se estivéssemos discutindo o sexo dos anjos”.

Era o que dizia. Por ora, penso na humildade de um escritor como Antônio Dutra trocando cartas com Sérgio Sant’Anna; imagino a eletricidade verborrágica de Mariel Reis diante de um pacato Antônio Torres; e aguardo, ainda, novas indagações de Simone Paterman, cheias de pausas longuíssimas, a uma elegante e inebriada Nélida Pinõn (a exemplo da que Paralelos publica aqui).

Noves fora o arremedo de resenha, resta apenas um pedido: perguntem, perguntem, perguntem.

Cartas a um jovem escritor e suas respostas
Fernando Sabino e Mário de Andrade
Editora Record
224 páginas



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:: novembro 19, 2005 04:12 PM



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