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Caio Fernando e o spleen no fim do século XX
por Henrique Rodrigues

A recente valorização das correspondências emitidas e recebidas por escritores vem ao encontro de dois pontos identificáveis na literatura e cultura contemporâneas. O primeiro, fomentado pelos meios acadêmicos como nova e profícua linha de pesquisa, consiste nas possibilidades de investigação da obra de determinado autor a partir de seus rastros – e, muitas vezes, suas raspas e restos -, os quais adquirem vida paralela à obra principal ou, poderíamos dizer, canônica. Incluam-se nesse conjunto não só as cartas, mas também textos incompletos, entrevistas, crônicas deixadas em jornais e revistas e até obras renegadas pelo próprio escritor. O segundo ponto diz respeito ao público leitor/consumidor e está ligado ao crescente interesse pela figura do artista, cuja essência poderia ser desvendada a partir dos diálogos pessoais com os seus contemporâneos. Sem serem necessariamente tendenciosas, ambas as vertentes podem contribuir para o enriquecimento da leitura literária.
O volume das cartas de Caio Fernando Abreu, lançado em 2002, concentra-se mais no primeiro aspecto. Organizado pelo professor Ítalo Moriconi, o livro fornece um retrato da vida social e literária das três últimas décadas do século XX. No estudo introdutório apresentado por Ítalo, a obra do autor de “Morangos mofados” é situada contemplando todas as esferas estéticas e culturais desse período, perpassando pela cultura marginal dos anos 70 até a exaltação do misticismo dos 90. As cartas foram divididas em duas partes. A primeira, intitulada “Todas as horas do fim”, cobre o período de 1980 até a morte do escritor, em 1996; já “Começo: o escritor” abarca o intervalo de 1965 a 1979. Essa inversão cronológica traz um benefício à leitura, pois o livro começa e termina justamente quando o escritor atingia a sua maturidade artística.
Em algumas cartas é possível, ao leitor, captar inusitados sentidos literários coerentes com o universo de Caio Fernando. Como em uma de 1980, em que num P.S. solicita ao pai que lhe envie determinada marca de erva-mate, visto que a sua havia acabado: “O senhor podia me mandar um ou dois pacotes de Madrugada Amarga?”
Muitas das cartas narram a árdua luta de Caio para conciliar as atividades jornalísticas com a produção literária, como numa ao escritor gaúcho Charles Kiefer: “É que nossa ‘profissão’ (aspas intencionais & irônicas) não tem muitas vantagens objetivas. Até hoje, cinco livros publicados, 34 anos, me debato todos os dias para sobreviver e para não desistir. Nélida Piñon costuma dizer que, de alguma forma, todos os dias alguém bate à nossa porta e nos convida a desistir. Não desistimos de teima quem sabe até meio burra.” A condição homossexual, na época ainda não tão bem aceita na sociedade, convive com a ameaça da AIDS (que acabou sendo a causa da morte do escritor). Em missiva ao teatrólogo Luiz Arthur Nunes, em 1984, o autor já demonstra preocupação: “Como anda a história da AIDS por aí? Aqui acalmou, mas correm uns horrores vezenquando, há duas semanas foi um amigo-de-um-amigo, quer dizer, foi-se.” Ao se inserir Caio no mesmo grupo de Renato Russo e Cazuza, a doença pode ser vista como um mal-do-século, equivalente ao que foi a tuberculose no século XIX, que atingia determinada categoria de artistas entregues à vida desregrada e, quando não, libertina.

Já se fala no caráter datado da produção de Caio Fernando Abreu, cuja obra, tal como nas correspondências, poderia ser tão marcadamente um retrato de uma época que teria dificuldade de transcender os muros cronológicos em função de uma universalidade. Isso só o tempo dirá. Por outro lado, essas “Cartas” mapeiam um período histórico de maneira às vezes bem-humorada, outras trágica, mas sempre permeadas por um imenso afeto.


“Cartas”
Caio Fernando Abreu
Organização de Italo Moriconi
Aeroplano
534 páginas

Henrique Rodrigues nasceu no Rio de Janeiro, em 1975. É formado em Letras pela Uerj e mestre em Estudos de Literatura pela PUC-Rio. Trabalha com projetos de incentivo à leitura e circulação de manifestações literárias. É co-autor dos livros “Quatro Estações: o trevo” (1999, independente) e “Prosas Cariocas: uma nova cartografia do Rio de Janeiro” (2004, ed. Casa da Palavra). Colabora com o caderno Idéias, do Jornal do Brasil.



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:: novembro 19, 2005 04:15 PM



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