O escrito pernambucano Raimundo Carrero costuma alertar nas suas concorridas oficinas literárias que não se deve entregar o personagem de bandeja ao leitor, mas sim deixar que este o descubra acompanhando seu comportamento ao longo do enredo. Permitir que o personagem se apresente por meio de suas ações: essa é a proposta da Pequena Enciclopédia de Personagens da Literatura Brasileira, de Clóvis Bulcão. São noventa personagens que o autor pretende que sejam um retrato da sociedade brasileira em seus diferentes aspectos.
O livro faz parte da coleção Pequenas Enciclopédias, lançada pela Campus, e que recupera o modelo das obras de referência para soprar novos ares no hábito de consultar verbetes. Neste volume, dedicado aos personagens da literatura brasileira, a disposição em ordem alfabética é facilmente deixada de lado por um percurso de leitura muito mais interessante: seguir os pontos que ligam um personagem a outro, já que ao final de cada verbete há indicação de outros personagens da mesma obra que complementam o que foi lido.
No prefácio, Clóvis Bulcão revela que o livro foi pensado de forma multidisciplinar, tendo em vista não só os amantes da literatura mas também os interessados em história, ciências sociais, sociologia e afins. Isso porque o autor acredita que “após a leitura dos noventa verbetes o leitor estará habilitado a entender melhor o país e sua complexa diversidade”. Para isso ele identifica temas recorrentes aos personagens apresentados na enciclopédia e que seriam representantes da sociedade em suas diversas épocas, como o papel da mulher, os homoeróticos, as drogas, a imagem negativa da polícia e a figura dos religiosos na igreja católica, por exemplo.
Para nos apresentar cada um dos personagens escolhidos – de acordo com Bulcão, segundo o critério de reunir o maior número possível de autores representativos de todas as regiões do Brasil – o autor prescinde de uma descrição pura e simples e envereda pelas tramas que colocam cada um deles no centro da ação. Como Bulcão opta por apresentar os personagens por meio de suas histórias, há repetição de fatos ou mesmo de trechos. Em alguns casos, quando é apenas de fatos, essas repetições se sobrepõem reforçando a caracterização daquele verbete ou preenchendo lacunas da narrativa. No entanto, quando é repetição de trechos, a leitura pode se tornar um pouco cansativa. É o caso de Meyer, personagem do romance Inocência, que aparece também nos tópicos referentes a Cirino e Inocência e não agrega nenhuma informação complementar. Por outro lado, um exemplo de sobreposição eficiente na repetição são os verbetes de Demétrio, Nina e Timóteo, de Crônica da Casa Assombrada, em que a leitura dos três nos fornece uma melhor compreensão do romance.
Os verbetes não seguem um tamanho padrão, sendo alguns enormes como Teodoro Madureira, de Dona Flor e Seus Dois Maridos, e outros muito pequenos, como Diadorim, de Grande Sertão: Veredas. Um dos grandes méritos da enciclopédia é apresentar cada verbete segundo a linguagem utilizada pelo autor da referida obra. Assim há textos com tons urbanos, regionalistas, sotaques específicos e até mesmo reproduzindo maneirismos dos autores.
Há quem sentirá falta de seu personagem preferido da literatura brasileira. Nesse caso, apesar de não suprir a ausência, há de se lembrar que essa é uma “pequena enciclopédia”, daí sua ambição limitada. Mas uma ambição cumprida e que nos permite ter às mãos, além de uma obra de consulta, uma porta de entrada para obras que ainda não lemos e que nos são apresentadas pelos seus próprios personagens. Ou uma porta de retorno para aqueles livros que há algum tempo não revisitamos.
Pequena Enciclopédia de Personagens da Literatura Brasileira
Clóvis Bulcão
Editora Campus, 2005
271 páginas
Ronize Aline nasceu em 1970, em Rio do Sul (SC), e desde 1988 mora no Rio de Janeiro. Jornalista, escritora e professora universitária, ainda divide seu tempo com os interesses acadêmicos de um doutorado. Atualmente mantém o blog Palavra&Tal em www.ronizealine.blogger.com.br
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:: novembro 19, 2005 04:19 PM