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Antropofagia de uma sonhadora
por Crib Tanaka

Patsy, Mara, Arel – são muitos os nomes que cerceiam Patrícia Galvão. Os pseudônimos parecem casar com as dúvidas sempre atormentando a vida inconstante, os sentimentos carne e osso escondidos pela jovem revolucionária, que aparece sem o véu do julgamento alheio, em Paixão Pagu – a autobiografia precoce de Patrícia Galvão (editora Agir).

O livro é a publicação de uma carta dirigida a Geraldo, seu segundo companheiro. Ele e Rudá - fruto do casamento com Oswald de Andrade – são os responsáveis por compartilhar esse registro íntimo com os leitores. A carta-depoimento começa como um pedido de liberdade e um aviso de dor – dois gritos sufocados por Pagu: "O meu corpo quer extensão, quer movimento, quer ziguezagues. Sinto os ossos furarem a palpitação da carne. As folhas estão verdes. As azaléias morrendo. Esse ventinho doloroso. Talvez eu não devesse começar meu relatório hoje. Com olhos de sol. Que preguiça de pensar. A longa história cansa. Não será ainda uma modalidade de fuga? Quero rolar na areia e esquecer...Se eu tivesse a certeza de que não me custaria nada falar, eu não falaria. (..) Por que dar tanta importância à minha vida? Mas, meu amor: eu a ponho em suas mãos. É só o que tenho intocado e puro. Aí, tem você minhas taras, meus preconceitos de julgamento, os contágios e os micróbios. Seria bom ser eu tivesse o poder de ver as coisas com simplicidade, mas a minha vocação grand-guignolesca me fornece apenas a forma trágica de sondagem. É a única que me permite o gosto amargo de novo. Sofra comigo."

Impressiona a racionalidade da autora ao tratar dos sentimentos passados. O texto é uma profunda reflexão de seus atos - pensados ou não -, percorrendo diferentes fases da vida. A infância em que já "não encontrava a bondade e a beleza onde procurava" seguida da primeira relação sexual, aos 12 anos, quando ela descobre que usa seu corpo em favor da revolta. "Sabia que realizava qualquer coisa importante contra todos os princípios, contrariando a ética conhecida e estabelecida. Com certeza, havia uma necessidade, mas não era nenhuma das chamadas necessidades, ou melhor, a necessidade nada tinha a ver com a entrega fisiológica do corpo". Às suas atitudes, sempre uma resposta ríspida dos que a cercavam. "As mães das outras crianças não queriam que eu brincasse com suas filhas (...) Eu nunca consegui perceber a minha pervesidade. Tinham me feito assim e jogado em paredes estranhas. Andava então sozinha".

O amor por Oswald ela afirma nunca ter existido. Pagu presenciou muitos casos e aventuras do primeiro marido, mas nunca as compreendeu de fato. "Compreendia a poligamia como conseqüência da família criada em bases de moral reacionária e preconceitos sociais. Mas não interferindo numa união livre, a par com uma exaltação espontânea que eu pretendia absorvente". Havia, no entanto, o companheirismo e a sinceridade acima das mágoas - ao que ela revela gratidão: "Ainda hoje o meu agradecimento vai para o homem que nunca me ofendeu com a piedade".

A luta socialista, que a move em busca do "bem de todos", termina aflorando as inseguranças, a não-aceitação de seu comportamento. Pagu enfadava-se com reuniões intelectuais – "As mesmas polemicazinhas chochas, a mesma imposição da Inteligência, as mesmas comédias sexuais, o mesmo prefácio exibicionista para tudo"- e estava cada vez mais longe de seu filho, de quem tinha notícias por cartas, enviadas por Oswald. A resistência ao amor vem junto à repulsa pelo sexo - ela, sempre desejada, passa a criar ódio pelo assédio constante, pela sugestão do Partido Comunista para que usasse da sedução para obter informações importantes para a causa. "Você nunca despertará um sentimento puro", ouviu uma vez, ainda antes de entrar no Partido. Junto ao novo corpo que construía, tentava ser fortaleza por fora, distanciar-se dos próprios sentimentos, anular-se. Os sentimentos não podiam ter espaço entre os guerrilheiros – panfletos na mão, discurso pronto.

Em 52 anos de vida, Pagu foi presa seis vezes e colaborou com textos – desde contos policiais até colunas de TV – para diferentes publicações. Nutriu-se de ideais que não foram concretizados e acreditava na solução para as desigualdades. No final da carta-depoimento, o encontro com uma criança de rua, tremendo de frio, sem pedaços de dedos dos pés, na Praça Vermelha do Kremlin: "Todas as conquistas da revolução paravam naquela mãozinha trêmula estendida para mim, para a comunista que queria, antes de tudo, a salvação de todas as crianças da Terra. E eu comprava bombons no mundo da revolução vitoriosa. Os bombons que tinham inscrições de liberdade e abastança das crianças da União Soviética. Então a revolução se fez para isto? Para que continuem a humilhação e a miséria das crianças?" – um questionamento sem resposta.


Paixão Pagu - A Autobiografia precoce de Patrícia Galvão
Organização de Geraldo Galvão Ferraz
160 páginas
R$29,90
Editora Agir


Crib Tanaka é jornalista e escritora. Já colaborou com diversas iniciativas na internet (Spamzine, Radio Mol, Splash, Falaê!) e está no livro Paralelos - 17 contos da nova literatura brasileira. Atualmente, mantém o blog Desfio (www.desfio.zip.net) e é correspondente do Cronópios no Rio de Janeiro. E-mail: cribtanaka@uol.com.br



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:: novembro 19, 2005 04:21 PM


Crib Tanaka é carioca, jornalista e atualmente estuda moda. Fez parte do conselho editorial do Falae! e teve textos publicados nos sites Spamzine, Txt Magazine, Bolsa de Mulher e Banheiro Feminino. Atualmente, colabora com os sites RadioMol e Moda Brasil.

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