EDITORIAL
Há quem diga que toda literatura é confessional. Mas a correspondência mantida durante anos entre escritores ou diários descobertos após a morte costumam atiçar a curiosidade de quem acredita que ali, sim, estarão revelados os mais íntimos segredos. E, muitas vezes, há a decepção de descobrir que não há nada que já não tivesse aparecido, mesmo que de forma sutil, ao longo da obra do autor.
Esse gênero não raro costuma cruzar a fronteira entre ficção e não-ficção e tem se mostrado um interessante elemento narrativo. O escritor japonês Junichiro Tanizaki, em seu romance A chave, leva ao extremo uma relação baseada em diários que desempenham o papel de unir os cônjuges. Marido e mulher escrevem, cada qual, um diário que a princípio deveria se manter a salvo dos olhos do outro. O leitor compartilha um jogo de esconde-esconde fascinante, em que ambos deliciam-se em descobrir e, principalmente, deixar-se revelar por meio das palavras escritas nos cadernos.
Nesta edição especial espreitamos cartas esquecidas sobre a mesa, vasculhamos diários entreabertos em gavetas mal fechadas e apuramos nossos ouvidos para confissões feitas a meia voz. Nossos resenhistas leram nas entrelinhas de livros que prometem expôr seus autores e nos mostram por que vida e obra costumam caminhar lado a lado.
Além disso, Paralelos lançou um desafio a dez escritores: revelar-se num texto confessional. São cartas, páginas de diários ou apenas digressões que pretendem ir além da literatura de cada um. Mas aqui surge Fernando Pessoa quase a nos alertar para a leitura que se segue: “o poeta é um fingidor/ finge tão completamente/ que chega a fingir que é dor/ a dor que deveras sente”.
Ronize Aline
Editora Convidada
meuemail@ronizealine.eti.br
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:: dezembro 3, 2005 01:19 PM