Oi, querido. Não sei se estarei por aqui quando acordar, por isso escrevo. Preciso lhe falar sobre as migalhas, as migalhas de pão que deixa sempre na mesa, depois que parte lentamente o café-da-manhã em pedaços iguais. Nunca lhe disse isso, mas tenho ódio profundo do meu cotovelo machucado por esses pedaços de pão. Sempre me debruço com força na mesa, você sabe e sempre bronqueia comigo por essa mania de me apoiar em tudo com essa empolgação toda, mas enfim, sempre fui assim. Também preciso lhe falar sobre os sábados, quando você varre as migalhas com a serrinha da faca passeando na toalha de algodão. Por favor, amor, não faça mais isso. Tenho nervoso do barulho, desde pequena. Vovó costumava fazer isso, olhar perdido na estampa florida, como que vendo navio partir. Mamãe depois pegou o mesmo costume, conforme escasseavam as opções de vida fora de casa. Guardo essa angústia desde que nos casamos, precisava falar isso tudo o mais rápido, por isso o bilhete. Não agüento mais. Quando você sai para o trabalho, fico olhando as casquinhas formando desenhos na mesa e me ponho a pensar em despedidas no cais.
Sua mulher,
Lucia
Crib Tanaka é jornalista e escritora. Já colaborou com diversas iniciativas na internet (Spamzine, Radio Mol, Splash, Falaê!) e está no livro Paralelos - 17 contos da nova literatura brasileira. Atualmente, mantém o blog Desfio (www.desfio.zip.net) e é correspondente do Cronópios no Rio de Janeiro. E-mail: cribtanaka@uol.com.br
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:: dezembro 4, 2005 05:55 PM