"Escritas híbridas” no Forum das Letras de Ouro Preto
Hitchcock ficaria louco nesta cidade: tantas janelas e nem uma alma viva para se espiar. Observando o belo casario colonial, é a imagem de James Stwart em Janela Indiscreta que me vêm à cabeça – ao contrário dele, destas discretas janelas só vejo uma mulher diante de sua máquina de costura.
Não que a cidade estivesse vazia ou que o evento não tenha sido bem sucedido. Pelo contrário. Aqui estiveram vários nomes que, individualmente, mereceriam os 90 km BH-Ouro Preto: Zuenir Ventura, Humberto Werneck, Nelson de Oliveira, Luiz Ruffato, Maria Esther Maciel, Marçal Aquino, Nelson Motta, Alice Ruiz, Fabrício Carpinejar, Márcia Tiburi, entre outros. Seria de se esperar que o público belo-horizontino, com suas “raízes literárias”, comparecesse em peso ao evento, mas, quem sabe a chuva, quem sabe algum problema de divulgação, ou a greve na universidade tenham sido a causa da baixa frequência. Mas ainda que nunca se saiba muito bem o que é Minas, Minas Gerais, tão funda, tão abissal, como bem começou Wilson Bueno em sua fala, citando Drummond, muito provavelmente foi a preguiça mesmo - a inércia montanhosa que afeta os belo-horizontinos, em geral não muito animados com muita coisa, menos ainda com viagens a Ouro Preto, “esta cidade pesada, cheia de calabouços e energia de escravos”.
Se o entrecruzamento cultural BH-Ouro Preto nem sempre acontece, nas mesas do Café do Centro de Convenções, onde aconteceu o I Forum Literário, os entrecruzamentos literários foram muito bem-vindos, principalmente na mesa de encerramento do evento, “Escritas Híbridas”. Estavam presentes Wilson Bueno, embaralhando poesia, narrativa, idiomas, culturas, portunhol e guarani; a poeta, ensaísta e ficcionista Maria Esther Maciel, com seu livro de Zenóbia, “romance que pode ser lido como romance, conjunto de contos ou de poemas em prosa”, e Luiz Ruffato com seus muitos e belos cavalos, livro que pode ser romance, novela, painel, contos, registros, espantos. A mesa teve a mediação de Luis Alberto Brandão.
Escritas Híbridas. A busca das formas impuras. Interseções. Misturas de gêneros. O romance além do romance clássico, o gênero romanesco e suas linhas de fuga. A multiplicidade. A proposta de se deixar contaminar.
Seria esta uma tendência moderna? “Desde que existe literatura, a mistura de gêneros sempre existiu”, lembra Maria Esther. “A literatura é híbrida como o mundo”. Lenguage is a virus? E, se o hibridismo sempre existiu, o que o torna agora uma linha de força na literatura contemporânea?
“Estamos vivendo um momento de grandes entrecruzamentos, estéticos, culturais e políticos, que acaba se constituindo um cenário heterogêneo, e há vários autores em sintonia com estas formas”, diz Maria Esther Maciel. “As formas foram se radicalizando para outros tipos de textos”.
E o que faz com que isto não seja apenas um ‘modismo’, uma tendência?
O romance sempre foi propenso ao diálogo com outras linguagens. No Brasil, com os modernistas, foi reforçando sua condição de forma híbrida. Na produção poética contemporânea também se observa esta confluência de linguagens, desde Drummond, ganhando mais força nos anos 70 com Ana Cristina César, Leminski, (Catatau, romance-idéia) e Armando Freitas Filho, com a incorporação de formas como diários íntimos, cartas, verbetes de dicionário, em uma criativa articulação de diferentes linguagens.
São inúmeros exemplos que não caberiam neste espaço, e que também não couberam na mesa das “Escritas Híbridas”. Borges em “O Jardim dos Caminhos que se Bifurcam”, um conto de espionagem que inclui um relato lógico metafísico, que também fala de um interminável romance chinês. Em "Formas Breves", Ricardo Piglia - ele próprio um multiprocessador de textos de vários gêneros e estilos – “para Borges, a história 1 é um gênero e a história 2 é sempre a mesma". Para atenuar ou dissimular a essencial monotonia dessa história secreta, ele recorre às variantes narrativas que lhe oferecem os gêneros”. Paul Auster em “A invenção da Solidão”, memórias e ensaio literário, George Perec em seu enciclopédico e vertiginoso hiper-romance “Vida - Modo de Usar”, Rosa Monteiro em “A Louca da Casa”, Paul Valéry, "sempre busquei e busco e continuarei buscando o Fenômeno Total".
Calvino, nas suas “Seis Propostas para o próximo milênio”, faz uma apologia do romance como grande rede, da multiplicidade como uma de apostas para o futuro: “o ser humano é uma combinatória de experiências, informações, leituras, imaginações. Cada vida é uma enciclopédia, uma biblioteca, um inventário de objetos, uma amostragem de estilos, onde tudo pode ser continuamente remexido e reordenado de todas as maneiras possíveis”.
Enfim, muitas janelas abertas e pouca gente disposta a olhar pra elas. “A coisa literária de Minas Gerais, pelamordedeus, né, nem precisa dizer”, como disse Wilson Bueno, sobre “esta imensa galeria de grandes escritores” que seria Minas. Olhando a platéia e a cidade, precisava dizer, sim. Falando de novo em Leminski, “onde é que nós estamos que já não reconhecemos os desconhecidos?”
CHRISTIANE TASSIS
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:: dezembro 4, 2005 09:31 PM