A frase do Eclesiastes que dá título ao primeiro livro do jornalista Rogério Nery resume o espírito dos jovens personagens do seu livro, todos moradores da Zona Sul carioca no final dos anos 90. Uma época em que não havia mais ditadura para combater, o muro de Berlim estava sendo derrubado e no cotidiano daquelas pessoas cultas, bonitas e com algum dinheiro no bolso só havia uma preocupação: curtir a vida.
Morando sozinho no Leme em um apartamento de três quartos, bancado pelos pais que moram em Brasília, Mateus é o mais fiel representante desta geração aparentemente perdida. Estudante de jornalismo, é freqüentador assíduo do underground carioca, onde encontrava artistas de vanguarda, talentos promissores e inúmeros fracassos. “Eram porres homéricos. Chegava a dormir com um balde do lado da cama – a melhor maneira de colocar tudo para fora sem sujar o colchão”.
Mateus encontrava o par perfeito em Diana Prado, uma garota que “poderia ter a credencial de uma verdadeira junkie das páginas de um romance de William Burroughs”. Juntos, eles tomam porres juntos com os outros amigos em apartamentos da Zona Sul ao som de R.E.M. e Joy Division e fazem sexo, muito sexo, que aliás é um dos temas constantes do livro e descrito de forma bastante explícita.
Rogério Nery não esconde a influência da literatura americana, da qual é admirador e conhecedor. Hemingway, Fitzgerald, Henry Miller, o já citado Burroughs e todos os seus parceiros beatniks, assim como Charles Bukowski (este fundamental nos trechos de sexo e bebedeira), cada um contribui com o seu quinhão para que o estilo do autor se defina. O texto é dinâmico, com muitos diálogos, frases curtas e objetivas e descrições bem detalhadas. O belo projeto gráfico da editora Bruxedo, bonito e funcional, contribui para que o livro seja lido de um fôlego.
Quando está razoavelmente sóbrio, Mateus tenta escrever alguns contos embalado pelas sinfonias de Gustav Mahler. “Fazia um esforço sobrenatural, mas não tinha a regularidade e persistência necessárias pra poder deixar as palavras em mais de três páginas por dia”. Logo o telefone toca e a proximidade da noite e suas imprevisíveis tentações tiram totalmente a concentração do pretenso escritor. “Vamos entrar que hoje o negócio vai pegar fogo aí dentro”, convida o amigo Márcio diante de uma boate.
Embalado pelo ritmo frenético da história, Rogério Nery faz um paralelo interessante da época. Era o ano em que o brasileiro iria, enfim, votar para presidente da República e os debates na TV paravam o país, “que estava prestes a cair numa armadilha”. As pessoas usavam máquinas de escrever e ouviam LPs, num retrato tão fiel que é impressionante constatar como os últimos 15 anos tornaram tantas coisas, inclusive os costumes e as idéias, obsoletas.
O livro é repleto de pequenos dramas pessoais, o contraponto perfeito para as noites de delírio que os personagens vivem. O pai de Diana Prado é ex-alcoólatra, a ex-namorada de Mateus sente um ciúme perturbador de qualquer uma que se aproxime dele e de vez em quando rola uma briga na turma – quase sempre por ciúmes inflamados pelo álcool. São jovens meio sem rumo, sem destino, que apesar de terem projetos, às vezes empregos, vivem num mundo que em muitos momentos lembra a “Doce Vida” de Fellini e seus burgueses decadentes.
A conclusão a que se chega é que os personagens deste livro querem “fazer tudo ao mesmo tempo, num único fôlego, como numa jam session de jazz, soprando, improvisando”. Como os ídolos do rock dos anos 60 que morreram cedo, eles querem chegar aos limites. O problema é que depois sobram apenas o vazio, o tédio e o desencanto.
Tudo é vaidade”
Rogerio Nery
editora Bruxedo
R$ 25,00
132 páginas
ANDRÉ LUIS MANSUR
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:: dezembro 5, 2005 10:01 AM