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Calafrio
por Monica Bustos

Mónica Bustos

A todos aqueles que sofrem por amor à arte em algum lugar desconhecido e desconhecedor.

Amalito Luna é o trecho bombardeado entre a Cidade do Senhor Ninguém e o Complexo Urbano do Todo-Podersos. Amalito Luna é o recorrido de um curriculum vitae até o túmulo de quatro corpos. Na cabeceira de uma mesa, senta-se o diabo e brinda por ele, e por todos os sul americanos que, por viverem na Cidade do Senhor Ninguém, passaram a contemplar o Complexo Urbano do Todo- Poderoso somente a partir do umbral (porque entrar eles não entraram, continuam olhando de longe sabendo que isso é um espelhismo).
Amalito se olha no espelho e diz: “Sou o monge patife oculto em uma sex-shop”. E nesse mesmo espelho pode ver o reflexo de um manuscrito ardendo em sua sacada. “Mil idéias queimando-se”, diz e se consola sabendo que quando quiser poderá escrever algo melhor. “O problema é – acrescenta – que ninguém sabe que eu sou um bom escritor. E só por isso considero que sou um dos piores. Porque ainda que eu saiba que sou um dos bons, nunca poderei mostrar isso ao mundo – as cinzas do manuscrito voam pelo céu cinza como se fossem granizo de carvão caindo de lá. O mundo; que problema é esse para o gênio destinado a viver deste lado, aquí onde se acaba o mundo”.
Todas as quintas, às oito da noite, ele vai ao bar morto de uma rua sem saída nas imediações do nada, um jovem toca o sax como um verdadeiro Coleman Hawkins, mas ninguém que ele o escuta, porque só existe um público amorfo e quente, que não entende nem quer entender, porque usam e abusam daquele lugar como um centro de corpos perdidos e encontrados, usados e devolvidos e volvidos a pedir. Ninguém entende de música e ninguém que entende vai àquele lugar (esses vão ver os estrangeiros). Amalito aplaude e o jovem tenta ver seu único admirador mas só vê uma silhueta escura que se move na luz azul e uma tragada de fumaça que assinala sua presença, depois de aplaudir, tira o cigarro da boca escura como seu destino e diz, sempre diz algo que o artista não consegue ouvir: “Somos a namorada frígida na nossa lua de mel”.
Em uma longa mesa está uma bicha, uma que ainda não se atreve a comer e olha para todos os lados esperando que ninguém o veja ou que acreditem nele, o que será melhor, que ele não teve culpa, que se está nessa mesa é porque no Céu ele era discriminado.
Amalito guarda a carta suicida de um pintor frustrado, um Marc Chagall nascido nas ruas de Assunção e morto de forma trágica ao atravessar um pincel n˚ 20 no pescoço e sangrar sobre um lenço pintado de azul. “Dia dos inocentes”, se chamava a obra, dizia a carta escrita para seu amigo Amalito Luna quem o encontrou no quarto podre dos subúrbios do inferno suburbano. E conservou a triste obra, monumento aos gênios que apodrecem no terceiro mundo rendidos ante a oportunidade que é uma escapista de alto nível, um dia dos inocentes. Um céu azul com um sinal vermelho por todas as partes, um proibido e um não passar, uma lista que marcava o limite, um céu azul e o sangue de um suicídio por impotência. Impotência de chegar a ser.
Amalito pendurou o quadro atrás de sua cama, olhou-o de longe e o enquadrou com suas mãos: “Somos o toureiro que colabora com Greenpeace”. E uma lágrima opacou o brilho de seu sorriso sardônico.
A oportunidade está sentada em uma longa mesa, e esconde suas mãos embaixo dela, para que ninguém veja que as algemas em seus pulsos estão frouxas, para que ninguém veja que se escapou outra vez. Quer que acreditem que não foi sua intenção, que ela não tem preferências.
Amalito perde todas suas esperanças pouco a pouco, maldiz não ter nascido no norte, maldiz o inglês e sorri dizendo em tom jocoso: “I´m a whore without legs”, e chora pensando que nem sequer sabe se falou corretamente. Senta-se para escrever o último que vai escrever e se pregunta como se escreve algo que não se escreve com o coração. Para por um momento e se dispõe a amassar o papel, volta a pensar na possibilidade de escrever outra novela, mas quase no mesmo instante se dá conta – o relógio da parede diz isso – que não tem tempo para sonhar. Que há circunstâncias, situações, momentos, ou simplesmente perssoas que não podem mudar. Dá uma olhada na carta suicida do pintor frustrado que está perto de uma caixa de veneno para ratos, e depois volta o olhar para o anúncio de emprego que o espera expectante dentro de um círculo vermelho, um desses avisinhos que afirma que o melhor é tentar outra coisa do que morrer como um rato; e então Amalito volta a escrever e pensa sem querer pensar: “Sou o rato morto por falta de esgoto”.
Um drugs-dealer permanece imóvel de um lado da mesa, esperando o momento para oferecer sua mercadoria, no entanto, frente às acusações feitas ainda tenta desmentir e adverte que ninguém o procurou, que ele não ofereceu.
Amalito sai do edifício, uma chuva negra produto de literatura incandescente cai do seu apartamento barato e pousa sobre seu cabelo sem que ele se dê conta. Leva o histórico de vida entre os dedos, sem carteira e sem documentos, porque sabe que é tão bom escritor que acredita que isso é requisito suficiente para contratá-lo como datilógrafo naquele lugar que, por suas formas letradas nas folhas de um jornal, o impediram de cometer suicídio. Mas pobre Amalito não imagina que para conseguir emprego precisa de algo mais, ao menos de um amigo. Ele não tem nada, nem sequer um curriculum completo, leva só os seus olhos desesperançados e uma vaga idéia que ainda o acossa: “Hoje datilógrafo, amanhã jornalista e depois de amanhã escritor”, diz parado na porta da empresa. Mas não sonhe agora, Amalito! Quantas vezes mais você debe renunciar para renunciar de verdade a seus sonhos, quantas vezes mais debe topar com as duras verdades do mundo para saber que nem sequer passará dessa porta.
De seu último emprego foi despedido. Um chute em sua sintaxe, um cheque por suas oitenta palavras por minuto e a porta fechada para sua primeira edição da obra nunca concluída. Amalito sonhava agora com algo maior, aquele orgulho de superartista cegava sua condição de ninguém-me-conhece, jamais imaginou que aquele sub-chefe iria rir do seu histórico de vida e dizer que não era suficiente para ele.
Um professor medíocre tenta esconder-se sob a mesa, porque não quer que o acusem, diz que não é sua culpa que a escola não cumpra com todas as condições necessárias para ensinar e faz uma piada: que o salário que pagam não dá direito a que exijam que produza homenzinhos de sucesso.
Amalito nunca compreendeu a violência do bairro no qual vivia, nunca compreendeu como as pessoas matavam para roubar, ele era um homem honesto e respeitador a pesar do ambiente que tinha sido criado, era uma dessas raridades urbanísticas, uma dessas mutações de correção em uma zona de completa permissividade, era um menino de bem que não entendia o mal, nunca teria sequer imaginado uns meninos jogando bola, descalços e abandonados a sua própria sorte sobre um monte de terra que em seu interior albergava três homens mortos e um vivo. Essas coisas lhe causavam medo ou repugnância.
“Impotência de chegar a ser”, lembrou Amalito, “Impotência de ter certeza de nunca poder sê-lo”, corrigiu em seguida. E bêbado no bar morto daquela rua sem saída nas imediações do nada, golpeando-se contra a mesa e interrompendo o saxofonista fenomenal que não conhecia ninguém e os que o conheciam não o compreendiam nem podiam prometer-lhe nada, gritava com voz alcoólica e frustrada, assassina e lamentosa: “Somos o apêndice do apêndice do apêndice, víscera de todo o inorgânico, matéria desleal a seu próprio corpo, somos a fúria de um coquetel não sorvido, o tormento do destino que sabe que você é capaz enão te dá a oportunidade, somos o produto com o qual o azar fode todo mundo, somos o gênio incompreendido que não pode pagar o aluguel, o que escreve e desescreve, o saxofonista excelente com um sax emprestado, somos a voragem que desencadeou a idéia absurda da superação latino-americana, o defeito ineludível de nascer sob a má estrela”.
Anos mais tarde, em uma entrevista, o idôneo músico iria se lembrar palavra por palavra daquele delirium tremens alheio que o levou a sonhar com algo mais, se não tivessem sido aquelas palavras, ele teria renunciado em pouco tempo a uma carreira tão pouco promissora em seu país.
Amalito Luna vestido só com suas cuecas brancas queixando-se dos quarenta graus de calor e, por sua vez, lembrando-se de quando escutava que diziam que os artistas neste país não tem nem onde cair mortos ria sim querer rir da sorte de seu melhor amigo que estava enterrado em uma fossa em uma bairro marginal na beira do rio sem que ninguém se importasse; e por sua vez lembrava disto quando abriu novamente a mesma fossa e observou o espetáculo maravilhoso do corpo putrefato com o pincel com sangue seca que nunca se atreveu a extirpar das carnosidades de seu amigo, agora nada mais que cavidades de vermes e negras, mas lindas e tenenebrosas por sua vez, como uma escultura que só ele compreenderia e valorizaria, então jogou o outro corpo sobre o de seu amigo, um ainda quente com uma faca de abrir cartas atravessando o pescoço – uma desses facas de abrir carta que não suportam que uma alma incompetente diga a outra muito hábil que seu curriculum não é suficiente, que a história de sua vida não lhe importa – se viram ele saindo com o moribundo nas cosas, pois sim, se entenderam o que acontecia, não. E ao lado desses dois corpos jogou também o do mariachi boliviano estrangulado com a corda de sua guitarra. Não tinha feito isso para eliminar toda evidência frustrante daquela última obra prima, mas para deixar uma terceira escultura enterrada na periferia, a do imigrante boêmio em busca do pão, a do homem que tocava o banjo de forma linda mas que teve que adequar-se à guitarra e ao disfarce de estrangeiro para ganhar o pérfido sustento.
O magistrado gordo e bronzeado quis se sentar no meio, mas desta vez se encontrou com alguém pior do que ele, alguém que o devolveu ao seu lugar. De se assento envenena o copo de todos os comensais, enquanto murmura que ele não tem culpa de ter tant sorte, de ter como escudo um sobrenome e de família a uns amigos que tem tudo, que não era sua responsabilidade o desenvolvimento do país.
Quando amalito estendeu a faca de abrir cartas através do pescoço de seu entrevistador, uma silhueta surpreendida e uma guitarra desafinada soaram como uma tentativa de Jimi Hendrix atrás dele, um deus boliviano do banjo, oculto atrás de uma guitarra e um sombreiro mexicano (nada que pudesse enganar Amalito, ele podia sentir o cheiro de um bom talento a léguas de distância) o surpreendeu com a lâmina na carne do outro e suplicou por sua vida, e o ajudou a transportar o moribundo para aquelas terras margeadas da felicidade, e enquanto o imigrante frustrado e frustrante empurrava o corpo tíbio do recém-falecido, Amalito arrancou a corda da perversa guitarra e com ela sustentou por tras o músico esbanjado e lhe disse ao ouvido: “Sou o paladino que acaba com a burocracia, sou o sonho perdido do menino que queria brincar com a bola, sou o super-herói covarde que agora não pode continuar, sou o que acaba de uma vez com todo aquele que procura sabendo que não vai conseguir, afronte-o irmão, deste lado do mundo se sobrevive ou se morre, e a sobrevivência não inclui a arte”.
Não era preciso ser um supergênio para saber que viriam atrás dele em poucos minutos, por isso se jogou sobre as três esculturas: a do artista fracassado com um pincel atravessado no pescoço, a da vítima de um homem com tentativas de superação que já tinha perdido a paciência e a de uma mariachi boliviano que em lugar de viajar para o norte continuou muito para o sul em busca de uma esperança e se encontrou em um dia de má sorte com um louco desaforado assassino serial dos sonhos abandonados.
Atirou-se a pá e enterrou ao contrário, do fundo e com a pá para cima, com um curriculum vitae sobre seu peito e a terra que caía lentamente sobre seus olhos. “Sou o calafrio de um dia lindo, a obra que ninguém é digno de ver”.
O currículo diz: “Sou Amalito Luna, ganhador de dois Cervantes, de um Rómulo Gallegos, de um Juan Rulfo e de um Nobel de Literatura nunca entregues. Professor incorpóreo da Sorbonne, editorialista fantasma do El País. Sou um homem com toda possibilidade de mudar a história, mas tropecei antes de chegar a Atenas e caí na América do Sul. Uma de tantas criaturas criadas sob a ignorância de um povo onde não há oportunidades e as poucas que existem são tomadas pelas mesmas pessoas, as que não foram vítimas do impune que abusa das pessoas como os outros pervertidos que implantam em você o medo do mundo desde muito jovem, também fui vítima de professores medíocres que não me ajudaram a desenvolver meu talento, também fui presa do dealer que capturam os homens que se acreditam frustrados por sua condição de vizinhos da Cidade do Senhor Ninguém, e um dos tantos produtos exclusivos dos magistrados que se esquecem que existe alguém além deles. Alguém com sonhos e com vontades, mas sem poder para conseguo-los. Tenho capacidade suficiente para escrever novelas, roteiros, contos e poemas, mas antes tenho a prioridade de sobreviver e isso implica deixar de escrever, de fazer arte, ou de tentar mudar a história, por isso me vejo obrigado a responder a seu anúncio no jornal e oferecer minhas hábeis mãos para que o senhor disponha delas, e as faça trabalhar como uma laranja mecânica de meras cópias datilográficas”.
Há uma mesa na obscuridade no meio do calor tropical tão típico do inferno. Um violador bicha está sentado em uma extremidade, a seu lado a Oportunidade tenta desviar o olhar, a uma cadeira de distância dela, está um dealer tentando fazer um negócio com o professor medíocre que está bem à sua esquerda, mas este quase não o escuta só observa com inveja o magistrado gordo que insta os demais a levantar o copo à saúde do brinde que oferece o anfitrião. O diabo sentado no meio olha para frente e espera que todos levantem seu graal envenenado enquanto ele os felcita por ter logrado que uma vez mais um grande talento e uma grande pessoa tenha sucumbido ante o estigma do sangue inculto e corrupto, da aparente má situação geográfica e econômica. E brindam todos olhando para frente e sorrindo pelas esperanças mutiladas e dos sonhos esfumaçados.
E enquanto bebem um sorvo de veneno espumante, uma bola salta pela periferia de um país remoto, vai sobre um montinho de terra vermelha e oculta o último espaço livre pelo qual entrava um feixe de luz até o fundo da fossa iluminando a palavra “Amalito” e oculta não para sempre mas sim para o esquecimento: um curriculum vitae, três cadáveres e um homem que respira pela última vez. Três crianças correm para a bola e param para brincar sobre um dos tantos montinhos estranhos que ninguém vai investigar e brincam de ser Pelé, Maradona e um futuro Fulano de Tal (um a mais que tentará vencer os obstáculos de qualquer lugar).

Mónica Bustos Nasceu em Assunção, Paraguai, em 16 de março de 1984, filha de um pintor magnânimo, um Rembrandt não reconhecido, e de uma mulher que aprecia a arte como poucos. Cresceu sem outros interesses a não ser os livros e graças ao apoio de seus pais pôde publicar seu primeiro, uma novela de ficção de quatrocentas páginas, “León Muerto”, aos 20 anos, em abril de 2004. E graças à cálida acolhida ao cadáver do rei da seilva, por um público descuidado que se animou a ler uma literata nova – que tinha duas coisas em contra de si: ser jovem e ser compatriota – foi possível o lançamento do segundo livro “Complejo de Bustos” (abril de 2005), onze contos sobre personagens que beiram a loucura se misturam na fantasia e realidade. Atualmente trabalha como Diretora da Galeria de Arte no Centro Cultural Porfirio Bustos, luta por seu projeto “Cría Cuervos” (tentativa de iniciar uma editora independente), co-escreveu um roteiro cinematográfico que será rodado em 2006 pela mão do cineasta independente (paraguaio) Jorge Pettengill. Também trabalha em sua próxima novela…



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:: dezembro 11, 2005 12:06 AM



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