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Dillinger nunca teve uma oportunidade
por Efraim Medina Reyes

Efraim Medina Reyes

Interior – noite
Música do Sex Pistols


Me chamam de Rep – diminutivo de réptil – desde sempre. Meço seis pés e peso oitenta quitlos, tenho olhos negros e fundos como buracos de escopeta a ponto de disparar, a boca sensual e uma pica de 25 centímetros nos dias de calor. Não sou um ejaculador precoce nem costumo ter mau-hálito, gosto de cortar minhas unhas até os dedos sangrarem, tenho marcas de acne na cara e no cu, uns dentes fortes e o cheiro natural da minha pele é fascinante. Para as enrabadas que toda mulher sonha, sou o tipo indicado. Também me destaco bebendo. Não sei dançar nem cantar, mas se os que sabem fazer essas coisas, pudessem fazer como eu, estariam no alto. Meus amigos falam que eu sou a pica ferida, meu inimigos que sou um fantoche. A e B são opiniões acertadas, ainda que vocês podem imaginar a minha preferência. Sou heterossexual e minha inteligência é feroz. Recebi feridas de bala, de faca e de objetos não identificados. Nunca matei ninguém mas deixei muitos à beira da morte física ou espiritual. Não é bom mexer comigo. Meu coração tem dentes como pontas de uma explosão. Não gosto de gente que vive se queixando nem das mães que batem nos seus filhos. Gosto de uma linda mulher chamada Nilda.

Este é um quarto pequeno pintado de negro. Nas paredes, estão os pôsteres de Teo Monk, Sócrates e Morrison; tem fotografias de Ma-pi, Adriana e Uma Thurman. As persianas estão cobertas de uma fina camada de poeira, onde escrevo nomes, telefones e depois deixo que a poeira os apague, se sobrevivem por três dias é um mau sinal e então eu mesmo os apago. Sempre tem algumas mulheres por aqui e, se tenho vontade ou algum interesse especial, dou uma boa sacudida nelas. Alguns dizem que sou cruel, no entanto, nunca mato uma barata se não for necessário. Tenho um gravador, livros, leque, cama, máquina de escrever e um cinzeiro para as visitas.

O cara que canta se chama Sid Vicious, um demente da pior espécie, a mulher que amou se chamava Nancy Spungen, juntos tentaram fazer o melhor possível, romper as duras fronteiras da realidade e, para isso, transaram com vontade, encheram a cabeça com todo tipo de drogas, vomitaram sua raiva em hotéis mal cheirosos. Fizeram valer o sentido de sua liberdade, em um mundo de bonecos que andam. Quiseram roubar um pequeno espaço de vida no reino da morte, viveram como anjos infernais e caíram como cães de rua. Nancy sustentava um doce sorriso enquanto Sid enfiava a faca no seu peito catorze vezes. Gary Oldman interpretou Sid em um filme de Alex Cod mas Oldman não esteve à altura, o covarde. Você alguma vez já foi um covarde? Eu sim, exatamente quando estive apaixonado por uma certa garota mas ela não era como Nancy, ela era suave como um flan e tiveram flanzinhos e todos estavam cheios de cocô. Ela queria ser atriz, com sua personalidade suave não teria podido interpretar nem uma voz em off. Sentados na praia, olhávamos a lua, eu inventava com palavras um reino de duendes alucinados e castelos medievais, gastava o poder da minha mente nela, uma mulherzinha que usava a cabeça para separar as orelhas, dentro só tinha merda de ratazana enferma. Sid era a alma do Sex Pistols mas quando o enterraram, veio outro filho da puta e a festa continuou igual. Na verdade, eram uns escolares tentando ser malvados mas eles se esqueceram que os maus não cantam nem dançam. As pessoas que têm pelos no coração e pensam muito antes de dormir nunca conseguem ser más. Sid poderia ter sido mas balançava a bunda com verdadeira graça e isso foi um deslize.

Não digo que sou ruim mas advirto: tenha cuidado. Sou de uma raça indômita, que se move rápido, essa classe é de seres que deixam um rastro de ânsia por onde passam. Não conto mais mentiras porque perdi a imaginação mas não há nada que seja confiável em minhas verdades. Abro os olhos e vejo o céu raso, fico com vontade de pensar, penso solto por muitas horas. Nem sempre foi assim. Como Sid e Nancy, eu também tentei chegar a tempo para o jantar mas os outdoors e os sinais de trânsito foram me deixando nervoso. Minha mãe vinha toda noite para checar meu sono: primeiro tirava o livro da minha mão, depois me arrumava bem, me abençoava duas vezes, apagava a luz e saía sem fazer o menor barulho. Como Sid e Nancy, eu também adivinhei formas nas nuvens e nem sempre foram bonitas; como eles fiquei de saco cheio vendo um desfile de professores hediondos e bandas de guerra enquanto, no fundo, soltavam peidos ferozes e entrecortados. Então, saltei pela janela e pisei fundo no acelerador. Entrei em contato com o pasto e as libélulas, depois já não havia nenhum pasto só um tique-taque promissor, um brusco indício de música e outros que, como eu, procuravam a curva do pau.

Nota: Fragmento do primeiro capítulo da novela “Erase una vez el amor pero tuve que matarlo” que será publicada no Brasil neste ano.

Efraim Medina Reyes (Cartagena, 1967) O primeiro que quis ser foi campeão mundial de boxe, realizou 14 combates sem conhecer nenhuma vitória e decidiu tentar a sorte com a música. Com a 7 Torpes Band, fundada junto com dois amigos, gravou dois Cds de garagem e em quatro anos conseguiram vender 9 cópias cada um. Depois estudou medicina por três anos e dois de economia. Em 1986 fundou a multinacional Fracaso Ltda (com o hoje mítico slogan “Onde se necessite um fracasso aí estaremos”) e escreveu e dirigiu peças de teatro como “Eso no me infla la banana” (“que teve uma assistência recorde para Cartagena de sete espectadores em seis meses”); também fez filmes em vídeo como “Tres horas mirando un chimpancé”. Em 1995 ganhou o prêmio nacional de literatura com a obra “Cinema árbol y otros cuentos”. Mas o êxito internacional chegou em 2001 con a novela “Erase una vez el amor pero tuve que matarlo” que foi seguida em 2002 por “Técnicas de masturbación entre Batman y Robin” y em 2003 por “Sexualidad de la Pantera Rosa”. Em 2005, durante a Feira Internacional do livro de Bogotá, lançou uma coleção de poemas sob o título “Pistoleros/Putas y Dementes (Greatest Hits)”. Para dezembro anuncia sua novela “La mejor cosa que nunca tendrás” e um CD de Grandes Fracassos de 7 Torpes Band intitulado “Canciones aún más mediocres”. Foi jurado do Festival Internacional de Cine de Veneza. Escreve para a revista colombiana Soho (www.soho.com.co) e para a italiana Internazionale (www.internazionale.it)



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:: dezembro 11, 2005 12:11 AM



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