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Correndo para o fogo
por Luis Humberto Crosthwaite

Luis Humberto Crosthwaite

Poderíamos nos encontrar depois de muitos anos.
Poderíamos não acreditar.
Poderíamos nos abraçar.
Poderia convidá-la para conversar.
Poderia ser em um café, você me diz.
Poderia pedir moca e me sugerir um capuccino.
Poderia aceitar e pedir, além disso, um pão doce.
Poderia deixar que você falasse.
Poderia fazer algum comentário que não viria ao caso.
Poderia me perguntar porque estou tão calado.
Poderia elogiar sua pulseira e seus anéis.
Poderia se levantar para ir ao banheiro.
Poderia ficar sozinho, pensando.
Poderia aproveitar o momento para me questionar.
Poderia me dizer que já estou grandinho.
Poderia tentar ser inteligente com você; acho que você gostaria disso.
Poderia voltar sorrindo.
Poderia ficar nervoso.
Poderia não encontrar o que falar.
Poderiam minhas mãos estar suando.
Poderia armar-me de coragem, começar uma anedota.
Poderia explicar que precisamente na semana passada….
Poderia mostrar-se interessada.
Poderiam seus olhos brilhar, cheios de fogo.
Poderia um garçom nos interromper.
Poderia ser gay, o garçom
Poderia dizer não obrigada.
Poderia eu admirar a maneira como você diz não obrigada.
Poderia perguntar como fiquei.
Poderia dizer que não sabe.
Poderia pensar que você não estava prestando atenção.
Poderia se lembrar que foi algo sobre a semana passada.
Poderia dizer que não é importante.
Poderia ver você, sem mais nem menos, ficar em silêncio.
Poderia ser um longo silêncio.
Poderia pensar que não é suficiente, queixar-se desse silêncio.
Poderíamos queixar-nos do mundo, da situação do mundo, da guerra, dos gringos.
Poderia defender o silêncio: faz falta, não acha?
Poderia ser, você me diz, mas é mais agradável escutar sua voz.
Poderia ficar vermelho.
Poderia baixar a vista e contemplar os dedos de seus pés, embaixo da mesa.
Poderia incomodá-la se faço isso por muito tempo.
Poderia confessar que tem estado triste.
Poderia me dizer que sente falta de um homem.
Poderia continuar me contando: trabalhávamos juntos; a empresa o mandou para longe.
Poderia eu mostrar certo interesse.
Poderia me esforçar em fingir certo interesse para que você não perceba que odeio esse homem.
Poderia expressar nesse momento que não me interessa saber nada dos outros homens da sua vida.
Poderia.
Poderia.
Poderia.
Poderia não me atrever.
Poderia continuar falar dele.
Poderia escutá-la.
Poderia se deter por um momento, sorrir.
Poderia me dizer que sorte nos encontrarmos depois de tantos anos.
Poderia festejar também.
Poderia me lembrar que em outra época quis compartilhar uma vida com você.
Poderia lembrar os desencontros que tivemos; outro eu, outra você.
Poderia pensar que talve agora.
Poderia acreditar (agora, claro) que este encontro não é casual.
Poderia ser o destino.
Poderia agradecer ao destino por tê-la colocado novamente na minha vida.
Poderia dizer isso agora.
Poderia convidá-la para dançar.
Poderia.
Poderia.
Poderia.
Poderia continuar em silêncio.
Poderia continuar com o relato de sua vida: um doloroso divórcio já superado.
Poderia perguntar, de verdade?
Poderia me responder, é claro.
Poderia falar de sua filha.
Poderia falar dos meus filhos.
Poderia nos interromper um estouro.
Poderia ser um forte estouro que deixa todos aturdidos.
Poderia ser um estouro que vibra as janelas do café.
Poderia ser uma explosão, você me diz.
Poderíamos ficar assustados.
Poderia o garçom sair do café para ver o que acontece.
Poderia ser gay o garçom.
Poderia voltar correndo e dizer que há um incêndio lá longe.
Poderíamos pagar imediatamente, deixar gorjeta: 15%.
Poderia as pessoas estarem se reunindo na rua.
Poderíamos caminhar, como muitos outros, em direção às chamas.
Poderíamos ver uma casa pegando fogo.
Poderia uma mulher estar gritando, pedindo ajuda de dentro da casa.
Poderia ver a angústia em seu rosto.
Poderia me dizer rapidamente, com desespero, que algo assim aconteceu quando você era menina.
Poderia querer chegar mais perto, mais e mais.
Poderia repetir que isto já aconteceu, que a história se repete.
Poderia tentar entendê-la. A história?
Poderia me explicar, mas há muita confusão em sua cabeça: lembranças importantes, dúvidas galopando.
Poderia mostrar que os bombeiros já estão chegando.
Poderia ignorar isso.
Poderiam seus olhos brilhar, cheios de fogo.
Poderia entrar na casa que está se incendiando.
Poderiam as outras pessoas gritar para que você não faça isso.
Poderiam dizer, o que está fazendo, ficou louca?
Poderia tentar chegar perto; mas o calor, o calor das chamas.
Poderia me sentar para chorar numa banqueta.
Poderia ser o destino.
Poderia maldizer o destino por ter tirado você novamente do meu caminho.
Poderia chegar a polícia, os bombeiros, as ambulâncias.
Poderia haver confusão na rua.
Poderia a fumaça deixar tudo opaco, deixar a vida opaca.
Poderia um cheiro estranho inundar tudo, inundar a vida.
Poderia encontrá-la entre a confusão; caminhando, linda; tossindo, linda; soluçando, linda.
Poderia correr em sua direção.
Poderia, inclusive, dizer seu nome sem me dar conta.
Poderiam me deter os paramédicos.
Poderia vê-la partir em uma maca, em uma ambulância.
Poderia.
Poderia.
Poderia.
Poderia recuperar juízo.
Poderíamos nos encontrar depois de muitos anos.
Poderíamos não acreditar.
Poderíamos nos abraçar.
Poderia invitá-la a conversar em um café.
Poderia me dizer que sente muito.
Poderia me explicar que está com pressa.
Poderia eu simplesmente sorrir; dizer que está bem, fica para a próxima.
Poderia não me dar seu número de telefone.
Poderia ser o destino.

Para Susana Calette

Luis Humberto Crosthwaite Escritor nascido em Tijuana. Suas histórias refletem distintos aspectos da vida na fronteira México-Estados Unidos. Entre seus livros mais conhecidos estão “Instrucciones para cruzar la frontera” (Joaquín Mortiz, 2002), “Idos de la mente” (Joaquín Mortiz, 2001) e “Estrella de la Calle Sexta” (Tusquets, 2000)



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:: dezembro 11, 2005 12:14 AM



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