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Bolívar e Moreno
por Martín Kohan

Martín Kohan

Com Bisconti, eu tinha combinado isso: se o Gitano virasse em Bolívar, era dele; se seguisse por Moreno, era meu. Isto demonstra perfeitamente que não houve nenhum improviso: o doutor Meneses ficou com muito ódio, por isso disse o que disse. Nós planejamos tudo detalhadamente, porque nem eu nem Bisconti gostamos de deixar espaço para o azar: não é nosso estilo. Nessa tarde tínhamos nos encontrado em um bar da avenida Belgrano e tínhamos planejado tudo. E digo mais: fizemos um mapa multicolorido. Com lápis vermelho marcamos a rua Bolívar, com lápis azul marcamos a rua Moreno (não pense que tínhamos dois lápis: era um lápis só, que tinha uma metade vermelha e a outra metade azul). O doutor Meneses, é evidente que impulsionado pela fúria, pediu esse suposto mapa (suposto é como ele o qualificou); não pudemos apresentá-lo e isso o convenceu ainda mais de nós tínhamos feito as coisas sem prever um bom plano de ação. O mapa existia, e era impecável: se o Gitano virasse em Bolívar, era do Bisconti; se continuava por Moreno, era meu. O que aconteceu com o mapa foi que o destruímos, uma vez estudado e memorizado, para não deixar pistas, que pudessem nos comprometer. Rasgamos essa folha em, pelo menos, vinte ou vinte e cinco pedacinhos e depois Bisconti foi ao banheiro do bar e atirou os pedacinhos na privada. Tampouco com isso quisemos despertar suspeitas e por esse motivo Bisconti, apesar de termos feito tudo sem levantar a voz, exclamou de repente, quase em um grito, que os diuréticos estavam deixando-o louco. Com essa desculpa, ouvida por todos, se levantou e foi ao banheiro, e no banheiro se desfez do mapa; entendi, inclusive, que Bisconti, para dar uma verossimilhança ao álibi, pensou em uma chuva ou catarata e que, com esse estímulo, urinou de verdade.
O doutor Meneses não acreditou em nós, não porque tenha desconfiança, mas porque estava tão indignado que ficou com o rosto vermelho e uma veia do pescoço tinha ficado tão inchada que parecia um dedo: o dedo de uma mão que o agarrava pelo cangote. Foi por isso que disse que tínhamos atuado sem nenhum cuidado, que tínhamos deixado o assunto nas mãos de Deus. Eu digo a verdade: gostaria de entrar nos canos do bar da avenida Belgrano ou nos esgotos da cidade, de ser necessário, recuperar esses vinte ou vinte e cinco pedacinhos de papel em que se converteram nosso mapa, juntá-los com fita Durex ou com fita Scotch, tanto faz, recuperar o traço perfeito e vermelho da rua Bolívar, recuperar o traço azul e perfeito da rua Moreno, recuperar a intersecção seguramente violeta dos dois traços e demonstrar assim para o doutor Meneses que existia um mapa e que tendo um mapa, havia um plano.
O plano era simples, mas o fato de ser simples não indica que tenha sido um improviso. Pelo contrário, os planos não são bons se abusam da complexidade. Quer dizer, são bons na teoria, brilham na exposição abstrata; mas acabam sendo difíceis de concretizar: se são muitos os fatores que são envolvidos, é mais provável que algum falhe. Nosso plano, por outro lado, era simples e era bom: tinha somente duas possibilidades e cada uma dessas duas possibilidades, uma só resolução. A primeira possibilidade: que o Gitano virasse em Bolívar. Nesse caso, era de Bisconti. A segunda possibilidade: que o Gitano continuasse por Moreno. Nesse caso, era meu. Não quero que se pense que, temendo a verdade direta, apelo ao eufemismo: quando digo que era de Bisconti, digo que Bisconti ia matá-lo; quando digo que era meu, digo que eu ia matá-lo.
Tínhamos informação e a informação foi certeira. O Gitano estaria em um pequeno apartamento localizado na rua Moreno, entre Bolívar e Defensa. Aí vive a garota em questão, de nome Evelina: a que virou a cabeça do Gitano (a que virou a cabeça, e aqui vou ser indiscreto, do próprio doutor Meneses). Um apartamento pequeno mas agradável ao qual a menina teve acesso graças à generosidade do doutor Meneses e não do Gitano, supondo que ele tivesse alguma.
O Gitano estaria essa noite nesse lugar e o dado era seguro; mas também era certeza que não ia ficar aí a noite toda. Contava com desculpas suficientes para justificar um regresso tardio para sua casa; a noite toda fora, no entanto, ele não tinha como explicar. Tínhamos outra informação, um dado tão certo como os anteriores: que o Gitano sairia caminhando por Moreno em direção a Bolívar e não em direção a Defensa. Chegamos a esse itinerário por causa da localização de seu domicílio na cidade (tendo certeza de que o Gitano iria em direção ao seu lar, porque nada a não ser esse regresso o impedia de pernoitar na alcova de Evelina).
Sabíamos de tudo isso: Bisconti sabia, eu sabia. Uma coisa não sabíamos: se, chegando por Moreno ao cruzamento com Bolívar, o Gitano ia seguir seu caminho por Moreno ou, pelo contrário, ia virar em Bolívar. Um bom plano cobre a maior quantidade de alternativas possíveis. O nosso era um bom plano.
Esperamos que a noite caisse e que a região ficasse vazia. A frase feita será, nesse caso, precisa e verdadeira: não havia nem um cachorro na rua. Bisconti e eu nos separamos sem nos despedir. Ele cobriu a rua Bolívar: a escada escura de um colégio que existe ali serviu para que ele se ocultasse. Eu, de minha parte, me afundei no umbral de uma velha casona da rua Moreno, que alguma vez terá pertencido a uma só família e que agora pertencia a várias.
O tempo passou, mas passou de forma lenta. Não podíamos fumar, para evitar que nos vissem. Quanto mais funda era a noite, mais frio se sentia nesse lugar inóspito. Mas o pior não era o frio, era o tédio. Eu consigo ficar sozinho e, apesar disso, ficar entretido porque conheço vários jogos engenhosos que são mentais e que, por isso, não requerem um adversário. Mas a espera foi longa e depois de um tempo, fiquei entendiado.
Vou ser franco: houve um momento em que pensei, por estar entendiado, que Bisconti e eu poderíamos nos juntar na espera. Não seria por isso que o Gitano no iria escapar. No entanto, essa variante era mais perigosa, porque se o Gitano tomava a rua na qual não estávamos (nós, para vê-lo sair, teríamos que ficar em Moreno; suponhamos então que ele virasse em Bolívar) não poderíamos interceptá-lo, teríamos que segui-lo. Com isso perdíamos o efeito-surpresa e aumentávamos a probabilidade de uma fuga.
Você dirá que podíamos também encontrá-lo no próprio quarteirão do apartamento da fedelha agraciada, antes inclusive de que existisse a opção entre continuar o rumo pela rua Moreno ou virar na rua Bolívar. Esta modalidade teria permitido que Bisconti e eu fizéssemos uma vigilância compartilhada e, com isso, evitaríamos o tédio. Resistimos, no entanto, a essa tentação e com isto demonstro cabalmente que erra o julgamento do doutor Meneses quando assevera, é certo que sob os efeitos da ofuscação, que não tínhamos nenhum plano, que atuamos como dois novatos, que fomos dois fantoches. Sabendo que fazia algo errado, por mais de uma razão, o Gitano sairia do apartamento ainda muito alerta: os olhos bem abertos, as antenas bem paradas (a primeira não é metáfora, a segunda é). Convinha deixá-lo andar um trecho (não muito, claro, porque podíamos perder o rastro), e abordá-lo quando estivesse mais confiante. Foi o que fizemos, ainda que para isso tivemos que vencer o sono e fizemos tudo bem feito.
Às três da madrugada, minuto mais, minuto menos, apareceu o Gitano. Eu o vi sair, à distância, despenteado e sonolento, do edifício indicado. Para Bisconti, a aparição do Gitano ainda estava no futuro, porque ele, da rua Bolívar, ainda não conseguia vê-lo. Eu, sim, apreciei de imediato sua figura sem graça e notei que, apesar de seu aspecto taciturno, estava atento ao que pudesse acontecer.
Caminhou com alguma pressa para a rua Bolívar, acercando-se à minha posição. Tinha colocado as mãos nos bolsos: esse sinal revelava que o Gitano sentia o frio da noite. Chegou até a esquina: exatamente a esquina de Bolívar e Moreno. Também Bisconti, eu deduzi, podia vê-lo agora. Bisconti estaria, calculei, como eu, preparando o dedo no gatilho (o gatilho na pistola, a pistola embaixo do braço). Era o momento chave. Chegando a essa esquina, o Gitano teria que continuar por Moreno (e nesse caso, eu o mataria) ou teria que virar em Bolívar (e nesse caso, Bisconti o martaria). Nosso plano entrava em sua segunda fase, que era a definitiva.
Mas o Gitano, que nunca se destacava por sua elegância, nem pelo cuidado com seu aspecto, adicionava desta a seu habitual desalinho o fato de ter-se vestido com apuro (quando não se é Napoleão Bonaparte ou quando não se adota suas máximas). Por terem sido amarrados com muita pressa, os cordões de um sapato (percebi que o direto, mas o detalhe era banal) se desamarraram depois de alguns passos. O Gitano percebeu e desta forma evitou um eventual tropeção. Agachou-se logo e o amarrou com energia.
Pensou em algo, algo aconteceu ou passou algo pela cabeça do Gitano, enquanto se ocupava em amarrar esses cordões negros. Esse algo, fosse o que fosse, deixou-o taciturno, reflexico e, fundamentalmente, quieto. O Gitano ficou pensando, lembrando ou tecendo alguma fantasia claramente inverossímil, na esquina, exatamente na esquina de Bolívar e Moreno.
Bastava que desse um passo, um só passo, mediante o qual sua marcha definisse a decisão de continuar o trajeto pela rua Moreno e eu não teria vacilado em matá-lo. O mesmo posso dizer de meu colega Bisconti. Um passo, só um passo que desse o Gitano mostrando sua disposição em virar o itinerário para a rua Bolívar, e Bisconti teria acabado com ele no mesmo instante. É o que possuem os planos precisos: não falham. O que aconteceu desta vez, e eu não consigo entender, é que o Gitano ficou parado na esquina: na exatíssima esquina de Bolívar e Moreno. Olhando para longe e com as mãos outra vez no bolso, ficou aí, parado precisamente aí.
Não vou negar: o Gitano, tal como estavam as coisas, era um alvo fácil, muito fácil. Um só disparo teria bastado para liquidá-lo, porque não havia forma de errar. Ele estava na minha mira e Bisconti também. Mas eu esperei que o Gitano avançasse por Moreno: se não fazia isso, não era eu que deveria matá-lo. Pressuponho que Bisconti, assomado com sigilo na rua Bolívar, terá efetuado uma dedução semelhante (mas aplicada ao caso de que o Gitano dobrasse a esquina: até então não o fizera, não correspondia a ele matá-lo).
No entanto, o Gitano nem continuava nem virava a esquina de Bolívar e Moreno: permanecia ali. Eu fiz a suposição, e Bisconti seguramente também, de que nossa vítima (vítima minha, se continuava, e vítima sua, se virava) logo retomaria a marcha: sabíamos de sua necessidade de voltar ao lar antes que fosse muito tarde. Para ficar, como ficava, cravado como uma estátua na própria esquina do apartamento da fedelha que festejava, melhor teria sisdo prolongar a doce excitação: continuar com a festa.
O raciocínio não era mau, mas era falho. O Gitano, contra toda lógica, ficava aí, parado na esquina, na exata esquina. O fresco da noite, as luzes pobres da rua, uma idéia estremecedora que lhe surgiu, algo, não sei o quê, o deixou paralisado nesse lugar.
Eu desejei que viesse para mim, para poder cumprir com a tarefa à qual nos comprometemos com o doutor Meneses. Juraria que o mesmo acontecia com o meu colega Bisconti. Com um passo que desse o Gitano, seria o suficiente. Mas não deu. Nosso plano, você pode apreciá-lo, era infalível. Eu não diria que falhou. O melhor é dizer que ficou travado.
O Gitano passou a noite aí parado, quieto e nós, Bisconti e eu, um em Bolívar e outro em Moreno, esperando com uma paciência infinita. De repente, o céu começou a clarear. Antes inclusive de que, em um sentido estrito, amanhecesse, a rua já foi se povoando de trabalhadores e estudantes. O colégio da rua Bolívar abriu suas portas. Começaram a circular carros e ônibus. O Gitano deixou de ser um alvo fácil, infalível e começamos a perdê-lo por trás dos veículos e das outras pessoas. Não quer dizer que não pudéssemos matá-lo assim, à luz do dia, advertidos por dezenas de testemunhas e arriscando-nos a ferir algum inocente. Não quer dizer, tampouco, que não quiséssemos: é que esse não era o plano. Assim, desse modo, explicamos ao doutor Meneses, mas ele não quis entender. Os nervos seguramente o cegaram.

Martín Kohan Nasci em Buenos aires em janeiro de 1967. Ensino Teoria Literária na Universidade de Buenos Aires e na Universidade da Patagônia. Publiquei cinco novelas: : La pérdida de Laura (1993), El informe (1997), Los cautivos (2000), Dos veces junio (2002) y Segundos afuera (2005); dois livros de contos: Muero contento (1994) y Una pena extraordinaria (1998); e três livros de ensaio: Imágenes de vida, relatos de muerte. Eva Perón, cuerpo y política (1998) (em colaboração), Zona urbana. Ensayo de lectura sobre Walter Benjamin (2004) y Narrar a San Martín (2005). Duas Vezes Junho foi traduzido para o português e publicado en 2005 pela Amauta Editorial de São Paulo.



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:: dezembro 11, 2005 12:18 AM



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