Élmer Mendoza
Ia matar a mulher. Estava de pé no meio da estrada, paralisada e eu com o Topaz a 80 velocidade máxima 120. Não se movia. Atrás a tarde era um punhal sem morto. Nennhuma dúvida de que era uma mulher. A boa distância eu a vi uso lentes mas não estou cego e longe de diminuir a velocidade a aumentei; bom, não aumentei, o que aconteceu é o que faz essa pentelha atravessada no senti, não sei, algo estranho, uma vontade desconhecida de atropelá-la. Não experimentei comiseração ou assombro de vê-la nesse lugar tão despropositado, não, desejei matá-la, que saísse voando girando e se estatelara como um fardo no pavimento para que deixasse de ser atrevida. Não me sentia comprometido ou furioso, se ela queria que eu fosse o instrumento de seu suicídio tudo bem, aceitava, pegaria duro, sairia ricocheteando e começaria a sangrar pela boca, nariz e ouvidos, arrebentaria a cabeça e rasparia os braços e as pernas. Merecia, se estivesse em uma cachoeira a empurraria da mesma forma, que falta de respeito consigo mesma, ela não sabe que os suicidas não vão para o céu, não leu que sofrem horrores na outra vida porque deixaram este ciclo inconcluso? Será que ela não quer reencarnar? Além de suicida estúpida. Vou muito rápido e continua impávida e minha vontade de passar por cima e rasgar seu casaco se acrescentam, que voe caia e rompa a nuca. Que transpire com vontade. A mina sabe que seu fim é iminente e me espera com os olhos fechados. Quieta. Nem respira. Se passo por cima dela, com certeza vai ficar cabelo preso nos pneus e pedaços de pele em alguma parte do carro. Talvez um pequeno pedaço de carne palpitante. Melhor será que eu a pegue de lado, assim a mando para longe e evito passar por cima dela. Está me esperando uma estátua de perfil. Se eu a atropelo com essa parte do para-lamas sairá para aquele lado e pronto, poderei continuar tranquilamente meu caminho. No entanto, estou a uns doze metros e o ânimo de matá-la me abandona. Não quero. Não me importa o que vocês pensem, quem vocês acham que são para me impedir de fazer o que eu quiser? Talvez tenha percebido uma ligeira contração nela, ou em mim. Viro levemente para evitá-la, freio, paro e vou vê-la. Está suja e tremendo. É bonita. Os feios não se suicidam. O casaco está úmido. Abre os olhos quando chego e olha para mim suplicante. Tenho o impulso de perguntar seus motivos e depois conduzi-la a um lugar seguro enquanto tento convencê-la de que a vida é uma zona que não deve ser levada a sério, que é preciso desfrutá-la, que com um pouco de empenho e um chá de alfavaca no café-da-manhã tudo funciona melhor.
Vendo seus olhos sei que não vale a pena. As razões dos suicidas são poucas mas suficientes. Então sorrio e dou-lhe um soco do qual não se recuperará logo. Recolho-a e a levo até o assento traseiro do meu carro. Como disse: é bonita, bunda uou, triângulo magritte. Eu a acaricio cheio de luxúria. Quando a penetro desperta. No entanto me deixa fazer. Faço amor com ela com grande delicadeza e devoção. Nota-se que ela gosta, que gosta muito. Tiro-a do carro e vou embora.
Se depois disso ainda quer se suicidar é porque não tem remédio.
Élmer Mendoza (Culiacán, México, 1949) Um dos narradores mais consistentes, lúdicos e provocadores do universo latino-americano. Ultimamente dorme bem
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:: dezembro 11, 2005 12:21 AM