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Los Paralelos - Especial Literatura Hispânica
por Claudinei Vieira

EDITORIAL*

Foi o pessoal da Amauta, uma pequena editora paulistana dedicada a publicar autores hispano-americanos importantes, mas que nunca foram lançados no Brasil, quem teve a sacada: há um verdadeiro Muro de Tordesilhas que separa o nosso país da Hispano-América. A idéia em si talvez não seja exatamente original, mas a expressão é mais do que uma simples frase de efeito. Retrata uma situação de fato, concreta e óbvia, patente a todos os olhos e ainda faz referência às raízes de explicações, e diferenças, históricas, culturais e políticas. Há muito tempo que o Muro existe e, apesar de tímidas tentativas aqui e ali de desmonta-lo, ele resiste, bravo e forte.

Mas, já que falei de obviedades, ninguém morrerá se eu disser mais uma: há muita gente escrevendo por estas américas todas, indo além e independente das sombras dos fodões-maiores, os eternos Garcia Márquez e Llosa & Companhia. Mais do que isso: tal como no Brasil existe uma nova vida literária, um novo fôlego, uma nova prespectiva, gente boa escrevendo bem!

Isso deve parecer um contra-senso para fundamentalistas literários que adoram se ajoelhar em milho e se chicotear enquanto choram “Guimarães Rosa morreu! Guimarães Rosa morreu!” (a tradução em termos continentais creio que ficaria algo do tipo: “Borges ha muerto! Borges ha muerto!”...). Paralelos nunca levou a sério estas limitações bestas, e a própria existência de um movimento de articulação de novos e novíssimos autores iniciado na década de 90 e que ganhou corpo com a adesão dos novíssimos nos anos 00 serve para mostrar o vigor, ou teimosia, desta literatura mais recente.

Continuando a identificar, publicar e integrar estes autores que estão trabalhando e jorrando sua escrita sem se preocupar com nossos fantasmas históricos, abrimos as portas para nossos hermanos hispano-americanos.

Com o Especial Los Paralelos pretendemos apresentar um pequeno recorte do que está acontecendo hoje em termos de literatura nas terras vizinhas e saber o que eles estão aprontando.

ATAHUALPA YUPANQUI e BRUCE LEE

Servirá também para começarmos a entender o por quê, afinal de contas, chegamos a esta situação. Pois devo dizer que esta não foi eternamente fixada por nenhum poder divino, nem inclusive existe há tanto tempo como se pode imaginar.

Lembro, por exemplo,... Sou do tempo em que os cinemas no Brasil eram obrigados a exibir produção brasileira, uma porcentagem em relação a filmes estrangeiros. Tenho a impressão de que essa lei ainda existe (ou estão tentando que volte). Na época, cumpriam. Qualquer coisa, desde que fosse brasileiro. O normal eram programas de noticiário, principalmente sobre futebol, e curtas. Desta forma, acabei assistindo a muitos filmes brasileiros, sem querer. Isso é para explicar porque, em um certo dia da minha adolescência, fui assistir um filme de kung-fu no centro da cidade (é, também sou do tempo que existiam vários cinemas no centro de São Paulo) (e é, adoro filmes de kung-fu, Bruce Lee e etc) e acabei vendo um documentário sobre a América Latina.

Era um curta que exibia o trabalho de um fotógrafo brasileiro que durante muitos anos percorreu as Américas de ponta a ponta. Não havia narração, só uma música. Não precisava narrador, as fotos eram o suficiente. Para mim, foi um impacto, a primeira vez em que tomei consciência real de um mundo fora da minha cidade (eu era pré-adolescente). Pela primeira vez, vi a miséria com outras roupagens, fome em outras línguas. E havia, ao mesmo tempo, um clima de dignidade, de força impressionantes. Aquilo era muito novo para mim, não entendia. E aquela música me tirava do sério. Posso dizer, sem sombra de dúvida, que naquele exato momento me tornei um ser político. Não lembro de nenhuma cena do filme que fui assistir, nem lembro alias qual era. Mas saí do cinema decidido a conhecer e entender melhor o que havia visto. Precisava saber de quem era a música e do que falava.

E conheci.

Deixei-me tragar por uma cultura vasta e poderosa, com uma história de revoltas e líderes interessantes, de lutas mortais, de sofrimentos atrozes e belezas inenarráveis. Conheci a história de Jose Martí, de Bolívar, San Martin. Das revoltas indígenas no Peru, dos mineiros da Bolívia, do ditador paraguaio. Li As veias abertas da América Latina, de Eduardo Galeano e Bom dia para os defuntos, de Manuel Scorza, e Canto geral, de Neruda, e Siete ensayos de interprepación de la realidad peruana<.i>, do Mariátegui, quase que em seguida.

Depois adentrei por Gabriel Garcia Márquez, Ernesto Sabato, Mario Vargas Llosa, e tantos outros. Conheci o cinema do cubano Gutierrez Alea e do argentino Fernando Solanas. Ouvi a voz portentosa de Mercedes Sosa, Violeta Parra, Victor Jara, que derramavam poesia, amor, paixão, e política militante contra suas ditaduras.

Conheci uma outra América Latina quando era pré-adolescente, viciei-me e nunca mais me curei.

MAS HAVIA UMA EFERVESCÊNCIA GERAL E COMPARTILHADA

Isto é, estava no ar. Havia programas de rádio dedicados à música hispano-americana; programa de TV, na rede Globo!, apresentado por Chico Buarque e Caetano Veloso cantando junto com Mercedes Sosa; e os tais Garcia Márquez e companhia já eram os fodões, sem dúvida, mas ainda não estandardizados como agora.

Então, o que houve? Como o Muro de Tordesilhas pôde ser mantido de tal modo que hoje em dia não se conhece, nem se deseja conhecer, uma crescente produção literária como a dos argentinos, por exemplo?, pela qual seria possível mostrar um especial só deles.

Em uma conversa com Ricardo Lísias (um camarada interessante: com trinta anos, já tem três livros publicados, “Duas Praças”, “Cobertor de Estrelas”, “Dos Nervos”, e está partindo para um pós-doutorado em Literatura Latino-americana, após um mestrado e um doutorado em literatura brasileira!), foi possível vislumbrar um encaminhamento. Sua Pós vai tratar mais especificamente da literatura de repressão chilena, argentina e brasileira. Uma primeira constatação é a desta anterior cumplicidade política da resistência às ditaduras e que foi diluindo à medida que os movimentos sociais se agitavam e terminavam suas respectivas. Enquanto os processos de derrubada das ditaduras seguiram formas muito diferenciadas (na Argentina e Chile mais violentas e objetivas do que no Brasil, mais ‘negociada’), a literatura (e a cultura) pós - ditatorial segue igualmente uma maior diferenciação. Isto é, há uma espécie de profunda necessidade para os argentinos e chilenos de repensarem e discutirem e reimaginarem seus países e seus respectivos períodos repressionais e sua relação com a atualidade (veja-se a literatura do jovem argentino Martin Kohan, por exemplo) (veja-se os apuros de um Pinochet que a muito custo está se mantendo a salvo no Chile, outro exemplo) enquanto que no Brasil parece existir uma necessidade contrária e absoluta de se esquecer, de deixar de lado, de não ser ‘político’, em trabalhar no lado de experimentação simbólica e de linguagem. Há um verdadeiro horror nas palavras "Política", "Partido", "Ideologia", e uma terrível confusão entre os termos que se confundem com os problemas de governo (que não deixam de ser desestimulantes, por certo).

Uma outra obviedade (mais uma!) é o constatar de um absurdo desconhecimento desta América Hispânica. Naquela mesa com Ricardo Lísias nos fizemos um pequeno teste e nos perguntamos qual seria um puta autor da Bolívia. Ficamos nos olhando, refletindo sobre nossa bruta ignorância. Mais tarde, entrando na internet busquei os sites sobre a literatura boliviana e encontrei vários. Nunca duvidei que eles escrevessem; devem existir inclusive escritores extraordinários. Mas naquela noite no computador havia para mim somente nomes e nomes que não me diziam nada.

Pois bem, um dos principais objetivos deste especial é buscar estreitar a distância, acompanhar o movimento, diminuir a ignorância. Minha sim, minha assumida ignorância, e a de tantos outros, nem tão assumida.

Trabalho e projeto que não teriam vingado não fosse o empenho do Marcelo Barbão, da Editora Amauta, que mantém em Paralelos a coluna mensal "Tordesilhas", onde publica textos de autores hispânicos no original em espanhol e traduzidos para o português -- cabe mencionar que Marcelo Barbão foi responsável pela tradução dos textos apresentados nesta edição -- e o incentivo de Augusto Sales e a própria existência de Paralelos e o auxílio de tantos outros como Marcelino Freire (que intermediou alguns contatos), Maria Alzira Brum e dos próprios autores participantes e do pessoal da Amauta que, com sua batalha e suor, plantam semillas de inmensidad e esperanças, proporcionando-nos um belíssimo exemplo.

E assim estaremos contribuindo para a derrubada do Muro. Neste exato instante.

Em tempo: nosso site parceiro Cronópios, estreitando-nos em seu internético abraço cortazariano, divulga e disponibiliza alguns dos textos de "Los Paralelos", Valeu.


- (A música que ouvi naquele dia naquele cinema era Yo tengo tantos hermanos, de Atahualpa Yupanqui. Naquela época, sempre havia quem gritasse: "Toca Raúl" da mesma forma e na proporção de "Toca Gracias a la vida". Fico imaginando quem ainda sabe da existência de uma Mercedes Sosa, de um Victor Jara, ou de um Atahualpa Yupanqui)

Yo tengo tantos hermanos que no los puedo contar.
En el valle, la montaña, en la pampa y en el mar.
Cada cual con sus trabajos, con sus sueños, cada cual
Con la esperanza adelante, con los recuerdos detrás.
Yo tengo tantos hermanos que no los puedo contar.

Gente de mano caliente por eso de la amistad.
Con un lloro pa llorarlo, con un rezo pa rezar.
Con un horizonte abierto que siempre está más allá.
Y esa fuerza pa buscarlo con tesón y voluntad.
Cuando parece más cerca es cuando se aleja más.
Yo tengo tantos hermanos que no los puedo contar.

Y así seguimos andando, curtidos de soledad.
Nos perdemos por el mundo, nos volvemos á encontrar.
Y así nos reconocemos, por el lejano mirar,
Por la copla que mordemos, semilla de inmensidad.
Y así seguimos andando, curtidos de soledad.
Y en nosotros nuestros muertos pa que nadie quede atrás.
Yo tengo tantos hermanos que no los puedo contar,
Y una hermana muy hermosa que se llama Libertad !


CLAUDINEI VIEIRA
Editor Convidado

* Colaborou MARCELO BARBÃO



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:: janeiro 2, 2006 12:07 PM



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