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Continente em chamas
por Claudinei Vieira

CONTINENTE EM CHAMAS – Globalização e território na América Latina, Maria Laura Silveira, org, Civilização Brasileira

Terra sofrida, explorada, destruída, morta. Na América Latina, desenvolvimento tecnológico, sistemas econômicos, estruturas governamentais, significaram o real desenvolvimento de novas formas de exploração, mais sofisticadas e melhor conduzidas. Desde a incorporação abrupta e violenta do continente às demandas imediadistas colonizadoras européias, aos modernos conceitos de Globalização, sistema monetário monitorado por organismos internacionais, mercado comum, o que sempre houve foi uma ‘reacomodação’ dos diversos níveis de interesse durante os séculos. À tal Globalização fomos convencidos (ou obrigados) de sua inevitabilidade histórica, de sua absoluta Necessidade!, quer quiséssemos ou não, apesar de ‘doer’ um pouco. Seriam simplesmente o avanço das coisas como elas são. E assim as labaredas continuam queimando, explorando, destruindo.

“CONTINENTE EM CHAMAS” traça um pequeno perfil do histórico e das conseqüências das globalizações realizadas neste gigantesco depositário de tão imensos contrastes, de riqueza e de miséria, de movimentação política e de desastres sociais. Organizados por Maria Laura Silveira, licenciada em geografia e professora-assistente na Universidad Nacional del Comahue, Argentina, e professora doutora da Universidade de São Paulo, os textos aqui reunidos possuem como eixo de pesquisa o Território, como este foi se transformando (ou foi transformado), afetado e constituído como espaço para respostas complexas.

Complexidade não falta, por certo. Organização do território e crise se confundem na história da América Latina, como diz Maria Silveira na introdução. Crise não implica necessariamente em ruptura, mas a “velocidade com que as crises se sucedem nesta porção do planeta, aumentando a complexidade dos processos, limita ainda mais a coerência de teorias alheias que, tantas vezes, confundem períodos, crises e rupturas e, desse modo, aconselham a formulação de políticas divorciadas das realidades nacionais. Nesse sentido, um equívoco na escolha do nosso esquema interpretativo é suficiente para que nosso retrato autorize caminhos estéreis. Não é apenas o domínio da ação contingente que se prejudica, mas também o pensamento do futuro, o reino da ação possível”.

A preocupação é louvável, e a resposta é coerente. Ao pensar os determinados e específicos modos de ocupação do território em cada ponto, revela-se “os rostos nacionais”, ao mesmo tempo que a incrível desigualdade do continente, “as possibilidades e mazelas da história do presente atingem-na diferenciadamente”. Os diversos ensaios partem, portanto, de pontos diversos. Daniel Hiernaux-Nicolas faz demarcações precisas no contorno do México, de suas tendências desde a Revolução de 1911, aos destaques dos últimos vinte anos, período ‘explícito’, digamos assim da atuação ‘globalizadora, além da presença colada, gigante, opressora, dos Estados Unidos. Delfina Trinca Fighera discute a importância decisiva da produção petrolífera para a modernização acelerada da Venezuela contrastando com o fato também iniludível de seu atual peso-morto que arrasta o país para trás. Gustavo Montañez Gómez demonstra como os processos econômicos internacionais influem, ou determinam, a ocupação territorial na Colômbia; enquanto Álvaro López Gallero começa discutindo a construção de uma própria identidade nacional no Uruguai, e como este perdeu sua boa posição econômica nestes últimos vinte anos (embora, eu sinta falta que ele voltasse e fechasse essa discussão da identidade). No Chile, discutido por Luis Riffo Pérez, observa-se os terremotos político-sociais dos últimos vinte e cinco anos, com a ditadura e a duríssima política neoliberal. Maria Laura Silveira percebe a cara eminentemente urbana da crise na Argentina; Monica Arroyo escreve o melhor artigo do livro, a meu ver, ao mostrar o fluxo da comercialização de mercadorias entre o Brasil e seus vizinhos e a fluidez de suas margens, as fronteiras. E fronteiras também são (um dos) temas de Lia Osório Machado, cujo texto carrega a maior densidade teórica de todo o volume.

“CONTINENTE EM CHAMAS” é uma obra considerável que traz muitíssima informação e monta um panorama abrangente, denso e cientificamente embasado, com todos os seus articulistas em plena capacidade. Os artigos já são válidos, cada um por si. Mas há algo na proposta geral da obra que me incomodou: a falta de um texto que amarrasse todas essas pontas. Maria Silveira se diz ciente da incompletude do livro, mas diz que isso é devido à ausência dos demais países latino-americanos. Um livro com artigos de todos os países seria então ‘completo’? Discordo disso. A análise dos países em específico, como foi feito, deveria desembocar em um pensamento que se concretizasse em um estudo geral, com conclusões. A própria Maria Silveira faz isso ao dizer que “...O período atual revela, também, que há um denominador comum no continente: a desvalorização do trabalho, fundamento da pobreza.”

Ótimo, bom começo. Deveria ter continuado.



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:: janeiro 2, 2006 12:21 PM



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