Tordesilhas, a série, organizada por Marcelo Barbão, apresenta aos leitores de Paralelos autores latino-americanos em versão bilíngüe
Leia a versão original em espanhol deste conto
I
A viagem, promessa da travessia, para ele não prometia nada. Na primeira folha de um caderno liso colocou, sem data visível, “Hoje começou o final”. As notas posteriores confirmam o comentário, mas se na verdade fosse o escrito no último período, e não no começo, sem desmentir tudo, o fariam ainda menos preciso do que é. Não há modo de saber. O tom em geral é errático, algo contido apesar de chegar perto da confissão, e resignado apesar de ter acessos de irritação. Ao lê-lo pensei em alguém que está rodeado de várias pessoas. Todos continuam a conversação animada, compenetrados. Mas este sujeito ocupa um centro cego, não o levam em conta. Passa um momento de conversa y chega um ponto no qual, advertido, opta por se calar, mais tarde por afastar-se, pouco depois por ir embora sem que ninguém repare nele, um fato não só evidente para ele mas também decisivo. Há páginas nas quais escreve como, para continuar com o exemplo, não tivesse ido de maneira adequada; então se aborrece consigo mesmo, sente vergonha de si. Talvez por isso recorre ao apócrifo, como uma maneira de enaltecer sem gravidade o certo, aquilo que ao ser expresso livre de camuflagem estaria mais perto da impostura que da sinceridade. Por isso mesmo, tudo poderia ser uma grande mentira, no entanto há um fundo de verdade decisivo, se não for no substancial, pelo menos no acessório.
A menor mudança de tom parecia impróprio para ele, parece ter sido uma pessoa contida. Tinha uma preocupação especial pelo clima e – ainda que não bebesse – desprezava a água. Tampouco, como se verá, sem ser puritano tinha uma boa opinião sobre o sexo, frente ao qual tendia a retroceder e onde, segundo sua experiência, só via confusão. (Mas, ao contrário de outros mistérios, não o atraía; ao contrário, frente ao sexo retrocedia.) Ali intuía uma zona de risco e desastre, seu ponto débil, um avanço distante, larval mas implacável, do desespero.
Nasceu em um bairro escuro, sobre uma rua inclinada. Certa noite um carro, estacionado sem freio, começou a rodar e bateu numa casa, fazendo-a tremer. Na sua família lembraram o ocorrido durante anos; sempre algum domingo à tarde o assunto voltava, antes de mudar a erva pela quinta vez. As famílias são minuciosas para as lembranças; não lhes interessa a originalidade da experiência, mas a precisão ao evocá-los: onde cada um estava parado, as reações de assombro ou medo, as caras de susto. E as lembranças parecem pautadas, em sua aparição, pela ronda do mate. Alguém resolve fazer ridículo na frente da sua família, escreve, e todos se perdoam porque ninguém está a salvo. Por outra parte, para isso está a família. Quando tinha oito anos, plantaram RETOÑOS ao longo do quarteirão, todos erguidos apesar da inclinação e muitos anos depois sentiria uma impaciência semelhante à do primeiro dia ao não poder discriminar – ou pelo menos perceber – sinal algum de crescimento.
O quarteirão, junto com as três quadras que o separavam de uma praça, foi seu mundo próprio. Casas foram demolidas, outras foram levantadas, grandes estabelecimentos mudaram de uso, etc; mas o antigo lar e isto escrevia com particular orgulho, se mantinha. Era verdade que ignorava o ocorrido no interior, podiam ter derrubado todas as paredes e levantado outras, mas um RAZONAMIENTO mínimo o consolava e era a convicção de que ainda se por trás da entrada ficava somente um terreno baldio não lhe importava enquanto no exterior – a fachada simples e luminosa, graças ao dia, que sustentava firme o rastro da lembrança – se mantivesse. Isto o levou a supor se as lembranças em geral não precisarão somente de sua cara exterior, uma espécie de marca ou moeda, como os pequenos escudos colegiais que se prendiam sobre a SOLAPA, para manter sua vigência. Mas esteve a ponto de taxar a idéia – o que significava apagá-la -: era um erro pensar na casa natal como uma lembrança, na realidade já não tinha nada a ver com isso, tinha sido uma circunstância. Aqui escreveu, dominado pela associação, “Emblemas” e depois uma série de nomes: Patricia, o Menino, María, a Argentina.
Repetem-se na folha seguinte, cada um em um extremo. No centro aparece a palavra Eu. Parece um esquema equivocado, porque não previu que algumas das linhas que vão de um nome ao outro passariam pelo centro, implicando esse Eu. Talvez assignando-os outro ângulo teria podido evitá-lo, mas não tentou. Então, há linhas que ao chega ao centro fazem um rodeio para deixar claro que não o atravessam, com o qual terminam desenhando um RECUADRO central presumivelmente não desejado, mas inequívoco. Duas linhas que vão em sentido contrário existem entre o Menino e María, estabelecendo portanto uma relação equivalente; são as que desenham a parte interior do marco ao redor do Eu. Entre o Menino e a Argentina há uma só linha, mas com flecha em ambos extremos; aqui também há equivalência, mas a relação parece ser outra. Da Argentina sai uma flecha para Eu, e ao mesmo tempo recebe uma que provém de María, onde, por sua vez, chega outra que saiu de Patrícia, para quem aponta uma de Eu. O Menino lança uma flecha para Eu. E outra para Patricia, mas que se detém na metado do caminho; o mesmo acontece com a que sai de Patricia para o Menino, ambas se enfrentam. O mesmo choque se produz entre María e Eu. Mas chamo de choque, enfrentamento, só para descrever a gráfica. Ao choque Menino-Patricia chega uma linha proveniente de Eu, com pontas em ambos extremos. Do enfrentamento Eu-María sai uma flecha para a Argentina. Por último, entre Patricia e a Argentina sucede algo curioso, porque duas linhas saída da primeira têm como destino a outra; é difícil que isso seja um erro, mais parece uma acusação, uma flecha marcando. De maneiro que o retângulo original, a página, termina convertido em seis triângulos, quatro pequenos e dois grandes. Como o desenhista não se preocupou em diferenciar os traços, devemos imaginar que todas as linhas expressam a mesma relação; mas em tal caso as duplas que saem da Argentina representam um problema, porque assinalar a mesma relação duas vezes é redundante.
Durante a primeira infância foi um solitário; mais tarde, no colégio também. Os desconhecidos, alheios à pequena comunidade – família, companheiros, vizinhos – que satisfaziam e até excediam qualquer necessidade ou aspiração, eram estrangeiros absolutos, uma ameaça por natureza. Ainda que ainda fosse capaz de perceber, tinha sentimentos contraditórios e erráticos a respeito da amizade. E, portanto, em relação aos amigos também. Não os amava de forma especial, apesar de que pensava neles quando estava sozinho, acreditava que sentia saudades, uma fraca angústia indicava que sentia falta deles; mas nos reencontros se tornava hermético, nada neles o atraía, pior, fazia esforços para conter sua repulsa. Tampouco os entendia – nem se interessava – assim como em geral não importava especialmente nada que não fosse concernente ou implicasse ele mesmo de maneira direta. Eram como inimigo conhecidos, alguém familiar com quem não cabe a hostilidade e, por sua vez alheio como para depositar confiança. De todos os modos, os escassos amigos eram uma forma de segurança. Perto deles, acreditava estar protegido frente a tanta indiferença geral – como então já percebia mas ainda era incapaz de formular. E por isso os admirava, porque não eram ele mesmo, apesar de ser esta coisa paradoxal a mesma razão pela qual os detestava. Quando recebia um pouco de confiança não perdia a oportunidade de ser cruel. Uma maldade ínfima, até mesmo inócua, mas implacável. Com os amigos da infância soube sê-lo, estava atento ao menor descuido, tinha lembranças frescas daquilo que convinha não reviver. No entanto, jamais recorreu à traição, muito impetuosa para seu temperamento vacilante, mas dedicava dias inteiros a esboçar vinganças. “Fui um menino ruim”, escreve como título sobre uma folha em branco, sem abundar na hipótese – ou confissão.
SERGIO CHEJFEC
Sergio Chejfec nasceu em 1956 em Buenos Aires. Antes mesmo de publicar sua primeira novela em 1990, partiu para viver em Caracas, Venezuela. O trecho apresentado é o início da novela Cinco publicada em 1998 pela editorial Simurg de Buenos Aires.
* Tradução de Marcelo Barbão
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:: janeiro 17, 2006 03:12 PM