Paralelos entrevista Efraim Medina Reyes
Esta brilhante entrevista, repleta de perguntas inteligentes e fundamentadas, que revelam um conhecimento profundo da obra e vida do escritor colombiano Efraim Medina Reyes, e de respostas interessantes, ferinas, muitas vezes polêmicas, surgiu sobrenaturalmente a partir de uma curtíssima conversa com Efraim no dia do lançamento do livro Simples, de Marcelo Carneiro da Cunha, onde o autor faz uma ‘participação especial’.
Eu não havia preparado nada, pois somente soubera do lançamento (e que ele estaria presente) no mesmo dia. Enquanto assistia ao debate entre os autores (mediado por Marcelino Freire com seu afiadíssimo portunhol), fiquei pensando: Porra, estou organizando um especial de literatura latino-americana e conheci um dos autores que participará do dito cujo especial. O mínimo que posso fazer é entrevistá-lo, ora!
Duas coisas me atrapalhavam: não falo nada de espanhol (é impressionante como a língua escrita é absurdamente complicada quando falada ou ouvida...) e o Marcelo Barbão não estava presente. Efraim iria embora no dia seguinte. Com alguma mímica e ajuda de pessoas ao redor, consegui me apresentar e me fazer reconhecer e perguntei se não poderia lhe mandar por e-mail umas duas ou três perguntas, algo bem sucinto, para não dar muito trabalho.
O cara curtiu muito, recordou-se bastante bem do site e fez vários elogios aos paralelos. Quis ter uma idéia do teor das perguntas, então inventei alguma coisa rápida, prometendo que mandaria os detalhes por e-mail. Nos separamos amigavelmente e cada um foi beber com suas respectivas turmas. No final das contas, algumas horas depois as respectivas ‘turmas’ acabaram se encontrando no Bar Mercearia São Pedro. É lógico que às 2h ou 3h da manhã, ninguém está interessando em entrevistar ou ser entrevistado (embora seja impressionante observar como a língua falada ou ouvida é absurdamente compreensível em momentos de bebedeira).
Acabei mandando (depois de passada a ressaca, é óbvio), conforme combinado, as três perguntas, sem muita elaboração (eu não tinha certeza de que se lembraria de mim). Bueno, o cara não só se lembrou como respondeu bem rápido. O título do e-mail era “Entrevista Corrigida” e quando abri o arquivo para minha surpresa percebi que as minhas três singelas perguntas haviam se transformado, como que num passe de mágica, em mais de 20. Todas com uma perspicácia e profundidade que nunca soube possuir. O mais intrigante é que o material já veio com título e traduzido (!). Não precisaria pedir mais um trabalho para o Marcelo Barbão.
Foi uma das melhores entrevistas que já 'fiz' na vida. Obrigado Efraim.
Poderíamos começar falando da Fracasso Editores. É uma editora fictícia (aparece citada, por exemplo, em Técnicas de masturbação...) ou um projeto real?
Cresci num bairro violento de Cartagena de Índias. Na adolescência, registrei nossos esportes num estribilho: caçar gringas na praia e assaltar gringos nas muralhas. Queríamos ter um negócio e como não havia dinheiro fundamos a multinacional Fracasso Ltda. Seu único ativo na época era o lema: Onde for necessário um fracasso lá estaremos. Queríamos fazer música e formamos a 7 Torpes Band (éramos três). Compus canções e gravamos uma fita cassete de garagem com o título Canções medíocres. Vendemos nove fitas e decidimos gravar a segunda. Intitulava-se Canções ainda mais medíocres. Vendemos oito fitas e isso foi tudo. Depois nos dedicamos ao teatro. Nossa primeira obra se chamou Três horas olhando para um chimpanzé e teve o público record para Cartagena de sete espectadores em seis meses. Passamos para o vídeo com o filme Isso não infla a minha banana e, depois, editamos a mão meu livro de poemas Chupa menina mas devagar que por alguma razão foi considerado misógino, e um grupo de feministas comprou a edição (cem exemplares) e a queimou na Praça de San Diego. Assim, comecei esgotando uma edição.
Este ano a idéia é que Fracasso Editores comece a publicar jovens que tenham qualidade literária e por diversas razões (a estupidez dos editores é a mais comum) não tenham tido oportunidade nos grandes selos. Também faremos nosso primeiro filme em formato cinema com nossa produtora Fracasso Filmes.
Li que você foi boxeador e que teve um grupo de rock. Era só por diversão ou você levou a sério estas iniciativas antes de se dedicar à literatura?
A 7 Torpes Band não funcionou. Nosso talento musical era escasso, mas nos divertimos. Quanto ao boxe, foi a sério, mas depois de 14 lutas sem nenhuma vitória o treinador sugeriu que eu tentasse outra coisa. Seja como for, farei uma luta este ano para o lançamento do meu romance.
Li numa entrevista que você falou que na América Latina havia 70 escritores medíocres, entre os que você se incluía. A quê, então, acha que se deve seu sucesso na Colômbia, Itália e outros países?
Todo escritor que conheço neste mundo porco se acha um gênio. A orelha de todo livro novo que sai no mercado diz que é excelente e coisas desse tipo. Nos lançamentos um escritor apresenta o romance de um amigo dizendo que é uma obra-prima. Eu me sinto um escritor médio e vivo num mundo médio, assim, não me surpreende que leitores médios gostem do meu médio talento. Por acaso devo dizer que sou um gênio? Se fosse, teria uma Ferrari e me atracaria com a Juliette Lewis e a Beyoncé numa mesma noite. A humanidade demora cem anos para produzir seis ou sete bons escritores. Como acreditar então que a América Latina tem hoje 70 gênios da literatura? Não vou vender nem engolir essa merda, não sou puta nem marreteiro. Meus livros têm ira e desenfreio, uma ou outra idéia e um pouco de diversão. Só sou melhor que os meus contemporâneos porque eles são péssimos. Devo então elogiá-los para que me elogiem? Não contem comigo, como disse Morrison: Cancelem minha inscrição para a ressurreição.
Como surgiu Técnicas de masturbação entre Batman e Robin? Pergunto isso porque acabei de lê-lo e me chamou a atenção o fato de ser um romance "antinarrativo". É uma mescla de gêneros, um quebra-cabeças de idéias, sentimentos, impulsos e cultura pop.
Tinha necessidade de narrar minha precária e vertiginosa vida que não cabia neste ataúde pomposo chamado literatura. Sou feito de fragmentos da mesma forma que meus romances e tento armar o estúpido quebra-cabeças para saber quem raios sou. Não me importa nada se um saco de potoca como a Isabel Allende ou um guru light como o Paulo Coelho vendem milhões. Cada um abranda a mente e o traseiro como mais lhe apraz. No meu primeiro romance escrevi: Tudo pode ser literário menos a literatura.
Em que está trabalhando agora?
A. Estou construindo uns apartamentos em Cartagena para minha família.
B. Estou treinando para uma luta de boxe.
C. Trabalho num quarteto de novelas sob o título: vende-se artefato para descascar maçã.
D. vou rodar um filme com meu amigo Luis Orjuela.
E. Em 2006 sairão no Brasil Era uma vez o amor mas tive que matá-lo (Planeta), a coleção de poemas Pistoleros/Putas e Dementes (Garamond) e um livro de interação intitulado Os infiéis com os escritores Marcelino Freire, Marcelo Carneiro da Cunha e Fabrício Carpinejar (Record)
Fala-se já de uma nova geração de prosadores colombianos dos quais você é o mais famoso e a quem a crítica situa como o sucessor perverso de García Márquez. Que características definem essa geração?
A. Só os seus editores e amigos falam do talento dessa geração.
B. A reiterada troca de elogios.
C. A torpeza beirando a estupidez da prosa de alguns.
D. A superficialidade, apesar de certa fluidez, de outros.
E. O quanto se levam a sério e o quanto são entediantes em geral.
F. O fato de serem escritores de brinquedo, ocos e covardes. Têm mais paixão por sua imagem do que pelo que escrevem.
G. Dar notícias em formato de romance é coisa que até um macaco pode fazer.
H. A servidão, publicamente reconhecida, de alguns com o García Marketing.
I. O péssimo gosto que têm para se vestir se reflete nos seus textos. Não há vitalidade neles. Uma larva é mais sexy do que 96% desses escritores.
A quê acha que se deve esse surgimento de prosadores colombianos?
Ao fato de que a televisão e as revistas de variedades engoliram o conto de um novo “boom” orquestrado pelos próprios escritores e alguns editores. Ao fato de que, cedo ou tarde, os medíocres teríamos nossa oportunidade. Ao fato de que as novas gerações de escritores europeus são piores e, pensando bem: se babões como Shakira ou Juanes vendem o lixo que fazem, por que nós não poderíamos fazê-lo?
Que diferenças há com respeito ao realismo mágico do García Márquez, que continua sendo a marca registrada da Colômbia?
Seria idiotice não reconhecer a qualidade literária de García Márquez. O fato é que não me identifico com ele porque cresci ouvindo rock e soul e ele cumbia e vallenatos. Quando ele usava guyabera, eu copiava a roupa do Temptations. Eu jamais beijarei o traseiro de um ditador como Fidel Castro para, duas semanas depois, dançar cumbia com Bill Clinton na Casa Branca (embora o mais imperdoável é que, tendo a oportunidade de ostentar um elegante fraque quando ganhou o Nobel, ele tenha preferido chamar a atenção vestindo-se de cozinheiro). Ele viveu e narrou a partir da sua estética, eu o faço a partir da minha. Qual é a minha? Da mesma forma que os meus amigos, com quem compartilhei a vida, cresci com os anseios do primeiro mundo e sem nenhum dos seus privilégios. Sou mais um filho bastardo do império ianque e não tenho outra solução a não ser usar e assimilar minha origem múltipla para expressar e defender minha possibilidade de ser alguma coisa.
Dá a impressão de que os autores colombianos não foram os herdeiros do realismo mágico. Isabel Allende ou Luis Sepúlveda são seguidores mais fiéis. Por que acha que isto aconteceu?
Na Colômbia houve tentativas, mas sem dúvida Isabel Allende e Luis Sepúlveda (que anda pela Europa fantasiado de aborígine) copiaram melhor a fórmula e também a estratégia. Isabel Allende já nem sequer escreve, apenas publica. Tudo na medida certa para um europeu em ritmo de férias.
O que pensa da figura do "escritor comprometido"?
Há quem diga que o dever de um escritor é escrever bem e ponto. Certamente pensam que o dever de um assassino é matar com esmero. Acredito que estar no mundo tem um preço e não bastam alguns livrinhos para sair da confusão. Um país como a Colômbia, que tem hoje mais da metade dos seqüestrados do mundo; um país onde morrem cerca de quarenta mil pessoas de forma violenta por ano e vinte mil meninos e mulheres sofrem amputações por culpa das minas antipessoais; onde 85% da população vivem na pobreza e na miséria mais absoluta enquanto a descomunal riqueza está com apenas 9% de privilegiados que controlam tudo do exterior… Um país assim não pode se dar ao luxo de que seus grandes homens, por melhores escritores que sejam, careçam de compromisso.
De que autores atuais (colombianos e estrangeiros) sente-se próximo?
Dos colombianos Sergio Álvarez, Antonio Ungar, Cristian Valencia e Fernando Quiróz. Dos estrangeiros, gosto de Stefano Benni, Martínez de Pisón, Daniel Pennac. Do Brasil, de Marcelino Freire, Marcelo Carneiro da Cunha, Joca Terron…
Há três anos em Caracas você usou palavras duras contra os prêmios que as editoras, sobretudo espanholas, outorgam todo ano. Por quê?
Os prêmios que essas editoras concedem a seus próprios autores não têm como objetivo a qualidade mas a promoção. Isto porque disparam as vendas, sobretudo em países como a Espanha onde o público parece estar mais interessado nos prêmios do que nos livros. Calculo que, dentro de 20 anos, qualquer espanhol, escreva ou não, estará arriscado a ganhar um prêmio. Ninguém está livre de que sua editora lhe ofereça um prêmio. Aceitá-lo ou não é responsabilidade de cada um. No meu caso jamais aceitarei um prêmio de minha própria editora e que meus leitores dancem sobre a minha tumba se eu o fizer. Gastar dinheiro enviando manuscritos para esse tipo de prêmios é tempo perdido. Trata-se de um negócio e tudo está controlado.
Mas em sua biografia aparecem vários prêmios, por que participou se considera que estão todos arranjados?
Ganhei vários prêmios literários entre os 18 e os 22 anos. Não foram prêmios de editoras, mas de instituições. Depois ganhei prêmios do Ministério de Cultura e então decidi jamais voltar a concursar. Considero que todos os prêmios, inclusive os que eu ganhei, fedem. Acredito que o único prêmio para um escritor deveria ser a crítica positiva ou negativa dos seus leitores. Não dou nenhum valor aos prêmios que ganhei. Considero-os lixo e me sinto marcado por ter feito parte disso.
Pelo que falamos e pelos seus dados biográficos me dá a idéia de que Técnicas de masturbação entre Batman e Robin tem muito da sua própria vida. Acredita que a melhor forma de resistir à mentira é a auto-ironia? Essa foi a sensação que, pelo menos para mim, deixaram os manuais de Técnicas...
O humor é uma tradição da inteligência (por isso a maioria de escritores espanhóis é tão séria). Uso a ironia e até o cinismo como forma de enfrentar a estupidez. Acho que a vida passou a ser puro treinamento. Os mamíferos mastigam lixo quase 24 horas por dia em frente à televisão e depois falam de liberdade, sensibilidade, justiça, amor e tantos outros conceitos que não compreendem.
Há passagens que beiram a misoginia, uma coisa de que já lhe acusaram as feministas da Colômbia. O Efraim é assim tão misógino?
Eu gosto das mulheres e lhes dou o uso que considero mais apropriado de acordo com os seus atributos. Amei algumas, com outras apenas pratiquei a mecânica popular e algumas foram, e são, amigas queridas. Acredito que somos diferentes e odeio que uma mulher se alegre por ter conseguido alguma coisa que antes só os homens faziam. É como se um rato festejasse ter caído na armadilha.
Até que ponto criticar García Márquez pode se transformar numa estratégia de marketing, na melhor forma de chamar a atenção dos meios e do público?
Se criticar o García Márquez dá publicidade e ajuda a vender meus livros, considerarei como um valor agregado. Parece-me bom que pelo menos sirva para isso. Outros usaram o servilismo hipócrita, o silêncio cúmplice e a adulação gratuita para obter seus favores. Minhas críticas são viscerais porque sinto que ele tinha a oportunidade de ser digno e a desperdiçou babando em qualquer coisa que cheirasse a poder.
Hoje em dia, você se dedica somente a escrever?
Não me “dedico a escrever”. Não sou escritor profissional nem um imitador da literatura (deixo esse papel para os outros escritores colombianos). Odeio a figura do escritor dedicado a seu ofício que não liga a mínima para os outros. Gosto de estar com as pessoas, me envolver, continuar lutando por espaços. Treino para a luta de março ou abril, jogo futebol aos sábados com a equipe de Fracasso Ltda, além de cinema e música; e, é obvio, inventar um papel higiênico que limpe de verdade a bunda continua sendo o meu principal projeto.
N.E. Soube mais tarde que a tradução da entrevista foi psicografada por Maria Alzira Brum. Talvez nem o Claudinei saiba deste detalhe a esta altura. Quanto ao fenômeno da multiplicação das perguntas permanece o mistério.
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:: janeiro 17, 2006 05:30 PM