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O primo Adê Alves
por A. Zarfeg

Como sempre, o primo se encontrava muito bem, cabelo e barba recém-aparados, figurino da última moda, enfim, a aparência cem por cento.

“E todo mundo de lá?”, perguntei, curioso.

“Todos vão bem, graças a Deus...”

E nos transmitia as recomendações dos parentes de lá, ao mesmo tempo em que nos punha a par dos acontecimentos mais recentes, que nós ignorávamos. Vitória casar-se-ia em breve; Dimas já era papai pela segunda vez em dois anos; comadre Dadinha continuava a comer com as mãos, em vez de usar o garfo. Enquanto isso, os vizinhos do lado baiano do rio Umburana cultivavam o hábito de promover forró aos sábados, ocasião em que todos os moradores da redondeza se faziam presentes.

“E você, quando se casa?”, não resisti.

“Eu? Nada de casório, meu chapa. Estou apenas na flor dos meus 25 aninhos, pronto para curtir a vida.”

“E aquela história de que a sua amada está grávida, é verdade?”, inquiri, para dar vazão à curiosidade que há muito me devorava.

“Grávida? Sei disso, não. Boatos, primo. Inclusive não tenho mais nada a ver com aquele estrupício. Águas passadas.”
...

À noite fazíamos ponto na Praça da Liberdade, onde decerto haveria algum movimento de pessoas. Aliás, movimento mesmo acontecia aos domingos, quando, depois da missa, a praça ficava apinhada de gente de todas as idades. Obviamente que a moçada predominava, uma vez que aquele espaço constituía a única atração da nossa cidadezinha. Pobres e ricos se misturavam. E uma das razões por que aquele logradouro havia-se tornado o point da moçada era o aparelho de TV recém-inaugurado, cujos programas de fim de semana, como Os Trapalhões, atuavam como chamariz.

E, assumindo uma atitude de conquistador, Adê Alves já fazia a corte à loirinha que passava desfilando por nós. E toda sua habilidade de galã era posta em prática. Tudo beleza, gatinha? Meu nome é John (mentira!), muito prazer. Estou aqui a passeio, sabe como é que é? E beijinho daqui, beijinho dacolá...

Em seguida, vemo-los que entram no Bola Branca, um barzinho da esquina, enquanto meu irmão e eu ficávamos de olho, invejosos, vigiando.

“O cara é federal, né?”

“Grande conquistador!”

“Olha só. Está tomando cerveja com a belezoca.”

Passados três minutos, tempo de darmos uma volta pela praça, cadê o primo? Não estava mais lá, simplesmente havia sumido. Aí nos púnhamos a imaginar situações as mais loucas para aquele sumiço. Aonde teria ido o filho da mãe do primo? Estaria dançando com a gata no La Bamba? Ou a teria levado para depenar no quarto de tio Delson? Certamente que o cara botava todas na trave, se botava.

No outro dia, logo pela manhã, ficamos sabendo com detalhes das aventuras do nosso Don-Juan predileto. O próprio se encontrava diante de nós, óculos esportivos, ressacado de dar pena. Pelo visto não dormira e, conforme prevíramos, tinha caído na gandaia e marcado muitos gols de placa.

“No Bola Branca, eu e ela tomamos uma gelada”, começou ele a narrar todo cheio de si, para nos impressionar. “Isso foi por volta das 20 horas, certo? Logo depois, passaram umas amiguinhas dela e nos arrastaram com elas até o La Bamba. Lá a coisa ainda estava fria. Ninguém dançava no salão porque era cedo demais, segundo nos informou o garçom. Então, como eu estava excitado e amarrado na gatona, resolvi ficar e tomamos mais umas biritas. Quem está na chuva é para se molhar, não é assim que diz o ditado? Depois de meia hora, o movimento começou a esquentar. E eu, que sou filho de Deus, tracei meus planos de ação. Vocês me compreendem, né?”

“Planos?”, perguntou Dinha, ansioso, antes mesmo de o primo tomar fôlego, o que fez com que nosso interlocutor se entregasse a uma gargalhada sem precedentes, que queria dizer mais ou menos isto: “Você não sacou ainda não, parente? Quanta inocência, meu rapaz!”

“Calma, rapazes. Eu prometo contar tintim por tintim. Primeiro, preciso de um copo d’água, para matar a sede. Depois, a gente continua.”

É escusado dizer que, naquele momento, éramos toda a atenção do mundo, tamanho o fascínio que o primo exercia sobre nós e, em particular, suas aventuras amorosas que, quase sempre, vinham acompanhadas de detalhes sexuais que tinham audiência garantida lá em casa.

Bem, o fato é que ele passara a noite no quarto da loira, depois de ter tomado todas e ter dançado feito um louco, ao ritmo de axé music. Resumindo: haviam entrado pela janela, horas mortas, para não acordar ninguém nem levantar suspeitas. À falta de cães ali, tudo se tornou mais fácil. O papai era muito conservador e, se os pegasse ali, na maior sem-vergonhice, decerto que haveria morte. Portanto, nada de frufru de jeans ou qualquer ruído que os denunciasse. “Olha, gostei muito de você, mas fica sabendo, desde já, que não tenho o costume de trazer meus namorados aqui”, confessou ela, representando. “E procure sair bem cedinho, que painho tem o hábito de se levantar com as galinhas, mesmo domingo, combinado?”, completou, no meio de uma chuva de beijos e carícias sufocados. Claro e evidente que o primo estava de acordo. E era maluco para não aceitar todas as condições impostas, abrindo mão daquela gata? Como era bom pecar... Que maravilha de mulher! Que corpinho sarado ela exibia! Para não falar nos olhos, no rosto, na boca, tudo, enfim. Um talento digno de estrelar um filme pornô de primeira grandeza.

“Vocês podem botar fé no que estou contando. A mais pura verdade. Bati o meu próprio recorde, modéstia à parte. E como ela suplicava, como miava feito uma gatinha no cio...” – Agora Adê Alves, como prova de tudo que acabara de nos relatar, metia a mão no bolso e zás... nos presenteava com a calcinha da loira, ao vivo e em cores. E nos atirava na cara aquela peça íntima, obrigando-nos a tocar e cheirar aquele objeto sensual. E, para aquele domingo, nos assegurava, sua agenda noturna já estava pronta: iria a uma igreja evangélica, onde havia marcado um encontro com uma bela crentinha.

“Por fim, saltei a janela, que o dia já raiava e eis-me aqui, meus primos do coração. A loirinha ficou lá, bela adormecida. Pena que vocês não estavam lá para testemunhar tudo. Bom, agora preciso dormir. Até mais...” – E, simulando muito cansaço, caiu na cama e dormiu como uma pedra de muitas toneladas. Esse era o primo Adê Alves, nosso orgulho e todos os outros elogios possíveis do mundo.
...

Domingo, dia do senhor. A noite chegava como uma criança doce e inocente. No céu, a lua era testemunha de que Cupido preparava algo. Desde as quinze para as vinte horas, esperávamos ansiosos pelo primo no banco da praça. Nesse ínterim, o povo começava a chegar, vindo das igrejas, prenhe das belas palavras do padre ou pastor, ainda fresquinhas na mente. Acrescento isto porque sempre que saía da igreja, eu ficava matutando naquelas verdades divinas, o que às vezes me deixava meio desnorteado. “Pô, que sentido há em a gente sair da igreja e vir direto pecar na praça? O certo não seria sair de lá e ir direto pra cama?” Esse argumento, aliás, era utilizado por mamãe a fim de que voltássemos mais cedo pra casa.

Subitamente, Adê Alves surgia na nossa frente, saído do meio da multidão, acompanhado da crentinha. Procedia a apresentação: ela se chamava Celeste e, de fato, linda de morrer. O primo, dessa vez, apresentava-se em mangas de camisa, o que lhe conferia um aspecto social de pastor protestante. Cheguei a esboçar um comentário de mau gosto, mas desisti para não sujar a barra dele.

“Conheci-a por acaso e já me considero seu irmão da parte de Cristo”, brincava, enquanto Celeste sorria, tímida.

E, ali diante de nós, ele a abraçava e sapecava-lhe uma bicota na boca, tomando o caminho contrário à praça. Aonde iam? Só Deus saberia ao certo. Como o próprio Adê me sussurrara no ouvido, levá-la-ia para casa. “Sabe como é, mocinha inocente, papai super ciumento”, e desapareceram do mapa, por entre a multidão.

Assim, enquanto a noite mal começava para o primo, meu irmão e eu não víamos razão alguma em permanecer ali. Quem ia dar bola pra nós? E se fôssemos ao La Bamba, mas éramos dois pirralhos e, por isso, a entrada nos era proibida. Ah, se fôssemos mais velhos e donos do nosso próprio nariz! Mas, como havia pilheriado o primo, não passávamos de dois virgens inexperientes, perdidos na multidão de sexos, loucos para experimentar a coisa, mas sem domínio dos meios devidos para fazê-lo. Quando chegará a minha primeira vez, meu Deus? – mirei o infinito, seguro de que estava pecando em pensamento.

Voltamos pra casa e fomos dormir bem mais cedo do que de costume. Na cama, eu imaginava o primo se apropriando sexualmente da crentinha. Ou aquela criaturinha abençoada era quem usava dele a torto e a direito? Um abuso recíproco? Aí, cheguei a uma conclusão: as pessoas foram feitas à imagem e semelhança do criador para usar e ser usadas, desavergonhadamente.

Logo peguei no sono e sonhei tranqüilamente. Era um campo de futebol em que, em vez de jogadores, lindas garotas faziam as vezes deles, exercitando-se num espetáculo sem-par. De homem mesmo, só o goleiro, que era o sacana do primo. E um pormenor: havia uma só trave, para a qual todas as jogadas convergiam. E os dois times femininos se dirigiam inevitavelmente para esse lado. À medida que a bola entrava (e o goleiro deixava passar de propósito), o primo recebia um beijo. Foi assim que Adê Alves protagonizou a maior orgia de que se tem notícia em pleno gramado do Xurupita.

A. Zarfeg (azarfeg@yahoo.com.br) é poeta e ficcionista, vive em Teixeira de Freitas (BA) e possui contos, poemas e artigos publicados em diversas revistas literárias eletrônicas, como Verbo 21, Cronópios, Idiossincrasia, O Caixote e Famigerado.



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:: março 27, 2006 02:11 PM



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