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Sair para ver o sol
por Henrique Rodrigues

O relógio me dizia 2:30 da manhã quando eu disse “vou sair para ver o sol”. Não que eu gostasse do sol, mas já fazia algum tempo que eu não o visitava, tirei a carteira do bolso, coloquei sobre a mesa onde estava o relógio, tirei o relógio e joguei-o em cima de alguma coisa jogada no chão há dias. Coloquei um quarto na língua e saí porta afora, lá onde estava a lua esburacada e fria. O prédio era grande, diziam, mas como eu morava no térreo, sempre estive com os pés no chão. Descendo a escada, do lado esquerdo avistei um bar recheado de pedreiros desempregados e pescadores sem barcos, chamava-se, por algum motivo curioso, Ponto do Pão, embora nunca tenha visto um pão a pelo menos duzentos metros dali. Pelo lado direito, alguns coqueiros. Fui reto, não tive tempo ou paciência de olhar se haviam carros trafegando pela rua, só segui minha infalível intuição. O primeiro quase me atropelou, o segundo me xingou e o terceiro me acertou, mas eu posso jurar que não senti qualquer dor. Se chamava Eliana e gritou comigo, enfurecida, por cerca de cinco minutos, pensei que ia me estrangular com palavras. Então caiu em prantos até decidir me levar para o pronto socorro, contra a minha vontade. Eu juro que não doeu nada. Ela começou a falar que o grande problema da humanidade é o trânsito, que atrasa a tudo e a todos, deixando o mundo mais pobre, porque, afinal, tempo é dinheiro, então a melhor solução, já que os carros voadores demorariam um pouco, seriam todos os veículos com câmbio automático, terminando com a demora na partida ou estancamentos dos carros, e pensando em centenas de milhões de carros no trânsito esperando o sinal verde para engatar a primeira marcha, isso tudo fazia algum sentido, mas por algum motivo eu resolvi dizer que não, o que aparentemente a deixou histérica novamente, voltando a gritar comigo. Então ela se deu conta que atropelou um passarinho e começou a dizer que quando você atropela um passarinho é sinal de que você vai morrer e eu só pude ficar calado, com medo da reação da moça, mas quando ela, momentos depois, atropelou o segundo passarinho, eu não pude conter as gargalhadas, e ela disse que duas pessoas morreriam, provavelmente nós dois ou alguém muito próximo de nós. Eu só parei de rir quando ela bateu o carro e foi arremessada pelo vidro da frente, histérica e idiota, se esquecera de colocar o sinto, enquanto a minha cadeira estava em posição de cama, o que só me deu alguns arranhões na perna e alguns pedaços de vidro no cabelo e no rosto. Acordei no hospital com uma enfermeira com a mão por debaixo da minha calça, dizia estar testando meus sinais vitais, que pareciam estar sinalizando muito bem. Sem fazer pausa no vai e vem, ela me contou de como a condutora do carro falecera duas vezes nas mãos dos médicos, que afinal conseguiram reanimá-la, e lá se foram os dois passarinhos mortos, pensei eu, mas soube também que ela ficaria o resto da vida em estado vegetativo. Eu queria sentir alguma culpa nisso tudo, mas a enfermeira não deixou. Quando terminou, se limpou, me limpou e me deu uma roupa que não era a minha, eu já podia ir embora. Na saída, vaguei observando um sinal de trânsito com flanelinhas, vendedores, guardadores de carro e tudo o mais que se encontra geralmente no trânsito, mas todos tinham cerca de trinta anos, homens feitos, barbados e com família fazendo aquele trabalho que sempre foi feito por crianças, o mais apropriado. Foi quando eu percebi que também não deveriam ser feitos por crianças porque elas não tinham nada que ficar na rua arrumando uns trocados para sobreviver, nem esses marmanjos. Sim, os valores da sociedade urbana estavam indo ralo abaixo e eu não ia ficar de fora, o mundo estava fodido e eu percebi que eu não ajudaria muito. Foi quando ela parou ali, na minha frente. Selma, acho que era esse seu nome, estudamos juntos no colégio, uns dez anos atrás, era muito inteligente e casta, não se importava com a promiscuidade das outras garotas, mas vivia num mundo encantado. Eu mesmo fiquei dois anos tentando fazer alguma coisa com aquele par de peitos brancos e grandes, mas ela sabia se esquivar como ninguém. Me deu uma carona e me perguntou o que eu tomei, disse que um quarto, ela disse que a sua casa era amarela, eu disse que meu quarto tinha sido cinza, uma cor legal, então chegamos à sua casa amarela, por volta das três e alguma coisa da manhã. A única coisa não amarela que me chamou atenção foi uma pequena mesa com uma pequena fileira de um pequeno pó branco, achei curioso mas fiquei calado. Ela me fez um café e eu liguei a televisão. Olhei para a mesa novamente, que agora parecia um pouco maior. Ela me contou o que tinha feito nos últimos anos, nada de interessante além de quase ter ido estudar medicina em Cuba e declinar o convite porque tinha medo de avião, daí pra frente a sua vida só despencou, ou foi a minha atenção que não seguiu seu relato, talvez. A mesa crescia um pouco mais, as pequenas fileiras pareciam cobras brancas de pó, alguma coisa de errado tinha por ali. Eu enfim perguntei que diabos era aquilo que não parava de crescer e ela me disse que era, oras, coca, e que só o que crescia era meu desejo de cheirá-la, mas eu nunca tive curiosidade alguma com aquele troço. Ela foi até a mesa, que já tinha a altura do seu ombro, subiu uma escada e demorou quase cinco minutos para cheirar a primeira e enorme carreira, me convidou mas declinei, aquela mesa era minha Cuba, fiquei com medo de voar. Falei da diferença do que eu lembrava quem era ela e do que ela era hoje, ela deu uma gargalhada e eu falei que ela era uma exceção à regra, e foi um erro ter dito isso porque ela começou a dizer que se considerarmos que "para toda regra há uma exceção” é, de fato, uma regra, então teríamos que admitir que existe pelo menos uma exceção para essa regra, fazendo com que uma ou mais regras não tivessem exceção, assim, a regra "para toda regra há uma exceção se torna inexistente ou nula, mas ninguém pode saber disso, senão o mundo pode entrar numa vórtice de improbabilidade e a resposta nunca mais seria 42 novamente. Então eu lhe recomendei cheirar mais uma daquelas carreiras enquanto eu tentava me livrar daquela cadeira que parecia me sugar para baixo. Ela cheirou com bastante obediência e desceu até onde eu estava, abriu a minha calça e fez exatamente o mesmo que a enfermeira, mas dessa vez com a boca, eu só conseguia pensar no quarto. Ela terminou e me deixou lá, não me limpou como a enfermeira, o que me deixou realmente com raiva. Voltou nua e enfiou as pernas no meio da minha cara, que tomei aquilo como agressão e possível tentativa de homicídio por asfixia ou estrangulamento, mordi a primeira protuberância que vi pela frente, fato que não deve tê-la deixado muito feliz, por que logo em seguida me chutou nas pernas e eu tinha sangue na boca. Consegui me desamarrar e sai pela porta da frente, sabendo que ela estava me seguindo, quando abri a porta e virei para trás afim de saber o que me esperava, percebi que estava em outra casa e quem vinha ali atrás de mim era outra pessoa, olhei minha calça e fiquei bastante feliz em ver que estava tudo limpo ali em baixo, mas não fiquei nada feliz em ver que aquela outra pessoa era a minha ex-namorada, qual o nome dela mesmo? Roberta, Rosângela, Rosimery, Yolanda? Isso não importa, por que a última pessoa que eu queria ver na face da terra escura às 4 e poucos da manhã, segundo o relógio que não estava no meu pulso, então o horário devia ser imaginação da minha cabeça, era justamente ela. Tatiana, sim, esse era o nome. Tatiana, que eu gostava de chamar de Ana por que ela sempre me pedia para chamar de Tati e eu preferia não chamar de Tiana ou Tana, mas isso tanto faz por que ela me chifrou com meu melhor amigo, ou fui eu que a chifrei com a sua melhor amiga? Tentei fechar a porta, mas ele impediu, tentei correr, mas as pernas não funcionaram, tentei desviar o olhar, mas estava hipnotizado, a filha da puta me hipnotizou e perguntou como eu estava, obviamente não estava bem mas disse que estava tudo ótimo, perguntou o que eu tinha, disse que um quarto, ela disse que era pouco, eu disse que era suficientemente o bastante para mim, ela disse ok e eu disse me deixe ir embora sua vagabunda. Fechei os olhos na porta da casa e abri os olhos no parque, sentado, o ponteiro marcava 4 e cinqüenta e nove da manhã, o dia ia raiar, eu veria o sol, se me deixassem em paz. Mas então veio o policial, que era meu irmão, e me disse que não podia ficar ali, só os mendigos. Me disse para aparecer na casa de nossa mãe hoje para almoçar, pois fazia alguns anos que eu saíra da vista deles. Se virou e foi embora, meu irmão. Fiquei pensando no quanto as mães e os pais se sacrificam pelos seus filhos, gastam toda o seu dinheiro com besteiras que se tornarão lixo em questão de semanas e viagens chatas, além de noites mal dormidas de preocupação, eu nunca faria isso, tenho raiva dos pais ruins, mas eu seria um péssimo, por isso nunca me atrevi a ter uma ninhada de filhos aos vinte e poucos anos como todos fazem nessa cidade, por que aqui todos querem casar e ter filhos, muitos filhos, para...bem, não sei exatamente para que, talvez por sadismo. Desci na primeira estação de metro e me percebi indo contra o meu destino, mas teria tempo para ver o sol, ainda não passavam de 3 e poucos da manhã novamente. Lá vi um homem seguindo uma mulher e decidi seguir os dois. Ele não era muito bonito e ela era bonita demais, se fosse um filme qualquer ele a encurralaria num canto escuro e os dois fariam sexo selvagem até aparecer alguém e eles fugissem rindo em direção a um chafariz para lavar as partes íntimas e depois correriam para um apartamento, ou hotel, ou casa, ou kitnet, ou motel, ou barraco, ou telhado, ou outra estação de metrô ou qualquer outro lugar para terminarem seus afazeres sexuais. Mas ali, como não era filme, o quarto fazia já bastante efeito, e eles continuavam ad infinitum até que aconteceu o inevitável inesperado. Ela sacou um revolver e o forçou a se deitar e tirar a roupa. Ela, com a arma na mão, também tirou a sua roupa e comandou uma das cenas mais instigantes que já vi, confesso que fiquei excitado com as palavras de ordem que ela lhe soltava, ela dizia põe a tua mão direita no meu seio direito e meche com meus mamilos, ou enfia esse dedo aqui atrás e fica estimulando, rápido, anda, ou dizia para ele enfiar qualquer o seio esquerdo na boca e sugar como se fosse o último alimento na face da terra ou ainda dizia para ele ficar ali, parado, com ele ereto e galopante até que ela dissesse basta. Infelizmente o pobre homem não agüentou o ritmo da moça fogosa e exigente e, no meio daqueles parcos três ou quatro segundos de êxtase total do gozo, isso seria entre um segundo e meio e dois segundos, ela deu um tiro no seu pescoço e saiu de cima dele, lentamente, suja e manchada, sem ressentimentos, mantendo a raiva na face, balbuciou algo como você nem me esperou, seu filho da puta, e foi embora. Não sei se mais alguém viu essa cena, mas eu gostaria de tê-la filmado, ficaria dias trancado no quarto assistindo aquilo. Quanto ao homem jogado, não dei bola, tinha que sair dali e fazer alguma coisa da minha vida até as 5 e pouca da manhã quando o sol finalmente apareceria. O quarto, o quarto, o quarto, o quarto, caralho, o quarto, caralho o cara tá transbordando sangue, caralho, o metrô vai ficar inundado e eu vou morrer afogado em vermelho, cor que eu odeio, cor brega, caralho, o quarto, pulei. Estava na praia, mas a praia estava no meio da avenida e eu corri para o primeiro prédio e abri a primeira porta onde estava o porteiro careca fumando um baseado, que me ofereceu e eu declinei, o quarto, sabe como é? Ele ficou me dizendo que o deus como nos foi descrito era pura invenção, ele já estivera no céu fazendo uma pesquisa para a sua igreja pentecostal do reino de não sei quem e atestou que lá ocorrem eleições de décadas em décadas para eleger o novo deus, aquele que regerá a terra e tudo mais, não existe um deus que criou tudo, mas sim um andarilho que encontrou tudo feito e decidiu que iria comandar aquele bando de idiotas e interferir na vida de quem quisesse. Mas os deuses por lá também são mortais e tem que ser substituídos, por meio de eleição, com direito a campanha política e tudo mais, eu disse que votaria no candidato vegetariano e ele me disse que eu nunca iria para o céu pelo simples fato de ser católico, eu não respondi e achei que este velho merecia morrer, mas se ele morresse provavelmente iria para o céu, e talvez por isso deus o deixasse tão velho aqui na merda da terra, para não aquentá-lo no céu, velho filho da puta maconheiro. Fechei a porta e decidi que o velho podia estar certo e podia estar errado, um dia eu saberia, mas o sol estava pronto para raiar e eu estava pronto para qualquer coisa agora. Na próxima porta que entrei, no quarto, encontrei minha sobrinha, de dezesseis anos, com alguns amigos. Eu nunca tinha dado um olhar maldoso sequer para ela, mas vendo-a ali nua enroscada com mais três caras bem mais velhos, posso dizer que foi impossível. Eles não a penetravam, ela não os estimulava com as mãos ou com a boca, não sei se aquilo era sexo, mas eles se moviam bastante, gemiam bastante, eles metiam os dedos dentro de sua boca, ela fazia pequenos cortes em seus peitorais com uma tesoura de unha, já disse que não gosto de vermelho. Tombei. Acordei com o sol na cara. Apesar de ter tomado só um quarto daquele ácido, eu sabia que ele tinha potência pra me manter até o sol nascer e ali estava ele nascendo bem na minha cara, tomando meus olhos de assalto, olhos que desejavam se segar por alguns instantes. Quando tudo ficou negro, pensei que sol tinha realmente me cegado, depois pensei que era a bad trip começando, mas na verdade, quando tive a chance de olhar, alguns dias depois, no obituário, eu tinha acabado de morrer de hemorragia interna. Maldito segundo passarinho.


HENRIQUE RODRIGUES



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:: março 27, 2006 02:21 PM



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