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Éden
por Herbert Farias

Embarcaram no ônibus e após pagar as passagens, o homem seguiu a mulher até o banco. Ali se postaram lado a lado, impassíveis e sérios, contidos na marcha do veículo. A mulher, posta a salvo na janela, conservava os olhos voltados para a rua, sem parecer ver o que olhava. O homem, procurando algo em que fixar a vista, adornava o olhar com a expressão inteligente que aprendera na tevê. Iam ambos pelo itinerário de sempre.

Como se redescobrisse um velho rito, o homem colocou a mão sobre a coxa da mulher, castamente coberta pela saia longa. Ela se moveu, súbita, como se recebesse um golpe, e olhou sem jeito para a mão já há algum tempo estranha. Ele pareceu se desculpar com o olhar, que até então continuava longe, e retirou, lúcido, a mão, encontrando meio a custo outro lugar para escondê-la. Os olhos da mulher reencontraram o mundo além da janela, repousando numa distância mais dentro de si mesma que para além das retinas. Só então o homem deslocou a vista para as alianças de ambos, parecendo querer confirmar a amarra que os mantinha juntos. Constatou, um tanto divertido, o mesmo brilho nas duas jóias. Ensaiou algumas palavras sobre o tempo que fizera na véspera, ou sobre o horário de apanhar as crianças na escola, mas deteve-se, quando não encontrou os olhos da esposa. Desviou a atenção para os outros passageiros, procurando, talvez, alguma sugestão de assunto, mas estavam todos enigmaticamente alheios, perscrutando a paisagem em volta, sem nada entender.

Quando o ônibus parou num sinal, a mulher redescobriu o velho marido ao seu lado e lembrou-lhe o horário da saída das crianças da escola. O homem tranqüilizou-a, estava ciente, e aproveitou para comentar o tempo que fizera na véspera, porque o dia estava apenas começando e tudo podia acontecer, arrematando a última frase com um riso sem força, compartilhado pela mulher, que parecia mais rir de uma piada que não entendeu.

O riso dos dois terminou ao mesmo tempo, e cada um tentou calar o silêncio primeiro que o outro. Ela quis comentar algo sobre meninos brincando num quintal do trajeto, mas ele interrompeu-a com um comentário chulo a respeito de uma senhora gorda ali perto e sua papada suada. De qualquer modo, também não concluiu o gracejo, porque se lembrou da relativa semelhança da gorda com a própria sogra. Então abdicaram novamente da palavra e tornaram a divergir os olhares em silêncio, um tanto justificados pelo ruído do coletivo, que apesar de sua pressa em chegar ao fim do percurso, primava por repassar aos passageiros o itinerário inevitavelmente igual.

O silêncio mútuo constrangeu-os, atemorizou-os, e a mulher perguntou que horas seriam, e o homem respondeu. Estavam no horário em que todos os dias passavam pela praça onde haviam se conhecido. Seus olhos convergiram, então, para o ponto exato em que namoravam, meio acanhados, pouco à vontade, quase como agora. Um pouco de esforço e chegaram a ver os próprios nomes no tronco da árvore frutífera no centro da praça, que se afastou rapidamente. Voltas e mais voltas no mundo que conheciam, e o ponto de sua comum origem ali no meio, para lembrá-los que haviam sido um encontro, porque às vezes eram tentados a se verem condenados um ao outro. E nenhum dos dois queria se dar conta do fim iminente do percurso, desde que o caminho não mudasse nunca, que nunca lhes apagassem os nomes da árvore e que o chocalho da serpente se confundisse com o urro do motor.

HERBERT FARIAS



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:: março 27, 2006 02:24 PM



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