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A fisionomia de Carmem *
por Urariano Mota

Há coisas que não se escrevem somente com letras marcadas à mão no papel ou na tela do computador. Escrever que retorno àqueles dias não é tudo. Dizer que ali se iniciou um jogo amoroso, mais rico que o aprendido em As Relações Perigosas, porque na pele vivido, porque mais primário, fundador, ainda não é dizer tudo. Sequer será dizer e expressar a nuance de cor daqueles dias ou daqueles fundamentais meses, distendidos ao longo dos anos na lembrança. Posso dizer, por exemplo, que ali houve uma oportunidade para o sexo na consciência. E no entanto saber que isto é muito alto e largo como uma generalidade. Porque não atinge o músculo do mistério. Posso dizer que nos penetramos em primeiro lugar nos cérebros. E isto é tão verdadeiro quanto o azul que, pintado em uma tela, se pusesse no lugar do azul do céu. É chapado e grosso e grosseiro, ainda que deixe a impressão de ser uma verdade do espírito e sutil. A expressão daqueles dias é uma fuga e uma irresistível e invencível atração. É um símile, um semelhante, um replicador dos nossos atos e ações daqueles dias: atração e fuga. Realidade e realização entre esses dois pólos, mistura e miscigenação desses dois pólos: atraíamo-nos irresistivelmente na fuga, fugíamos com os nossos corpos colados, doce e ardorosamente unidos. A expressão daqueles dias pode parecer grosseira, pode parecer uma insensatez, um delírio, uma loucura, um sonho, como de resto foram assim todos aqueles dias. Então escrevo, para mais próximo ferir o núcleo do músculo. Como um caralho que escrevesse, retorno àqueles dias. Sei agora que feri o músculo, porque digo isto e lágrimas me tomam e me assaltam os olhos. Como um caralho que escrevesse, retorno àqueles dias. Como um sêmen que cobrisse e jorrasse aquela noite. Como se a gala fosse a luz. Agora sei, enquanto soluço, e porque soluço, que estou mais perto da coisa da coisa. Porque digo e escrevo: Como se a gala iluminasse tudo numa explosão. Éramos tão puros, Carmem, e o mundo ao redor de nós era só pecado. Mas disto, desgraçadamente, não sabíamos. Porque nos desejávamos por força da natureza e inocência, julgávamos que éramos nós os pecadores. A tua vulva úmida era pecado. O meu cacete desembestado era pecado. A gala era a própria condenação. O teu gozo era o teu inferno. O meu inferno. Todo o inferno que queríamos. Como disse antes, há coisas que não se escrevem só com as letras. Ainda que nos sirvamos delas. Ainda que deixemos a impressão de com letras serem expressas. O que quer dizer a gala que jorrasse, no meio daquela noite, quando me perguntaste, “estás dormindo”? Como a gala escreve, o que ela expressa? Rabisco o teu retrato na lembrança com a ponta do caralho. Assim.

Feições de Carmem

Eu não posso reduzir o teu retrato à tua vulva. Não quero, não posso, a razão que acompanha o desejo me diz. Eu não quero reduzir o teu ser a tuas costas, a teu pescoço, não posso nem devo, a razão me diz. Mas somente por método, separemos o adolescente desejo da razão. Na memória, de memória, que tão viva não é memória, é o real agora neste momento, falo e falo-te com a dureza rija a ponto de, com aquela ponta nervosa antes do doce desfalecer. Tinhas o bom mau hábito de usar calcinhas de seda. Era bom, Carmem, porque elas, róseas, colavam-se em ti como uma segunda pele, pondo em teu sexo um luxo artificial, como se fosse uma jóia no escrínio, e pela distância dos meus afagos, como se fosse um escrínio escrínio, um porta-escrínio. Lembro que foi com a forma do teu sexo que aprendi o nome vulva. Preciosa delicada palavra, e ao descobri-la eu apenas me disse, “este é o nome da boceta de Carmem”. Vulva era o teu apelido. Vulva era o teu nome. Eu nada sabia, e foi na minha inocência que me revelaste, eu nada sabia da nuance, das nuances entre boceta, vagina, vulva, útero. Até antes de ti, o sexo era como um triângulo quase perfeito, um triângulo isósceles, com a base nas coxas, com o vértice oposto no alto, no umbigo. A partir de ti o sexo se inverteu, de imediato, porque a base do triângulo ficou no alto. Mas isto foi só a pré-história de ti, porque isto ainda era um desenho a carvão, tosco, uma coisa miserável sem nenhuma possibilidade real, e digo pré-história com propriedade, porque o sexo era um desenho invocatório na parede da caverna, um fetiche, um clamor mágico. Mas então acenaste com a possibilidade, antes, antes da gargalhada, agora vejo, e agora vejo mais precisamente a razão da gargalhada, ela não era a repetição, a caricatura da gargalhada do filme de Sabu, ela veio antes em razão do que me mostraste. Não será o riso o sexo de outra maneira? Agora vejo, agora percebo, que felicidade, que contentamento feliz na maturidade, porque agora sei que a gente escreve para compreender, para pensar e descobrir o que antes era velado.

Vejo então neste momento, não por ter a precisa e exata recordação, mas porque sei e soube disto agora, ao escrever, que a gargalhada foi antes da tua calcinha de seda. Ela veio como uma explosão natural de uma impossibilidade. E me parecia, até então, que teria vindo de uma imitação do gênio do filme. Foi como num sonho, Carmem. O sonho assimila o circunstancial e, reprimido de falar claro, faz do circunstancial o seu motivo e enredo. (Vejo-te, vejo-me agora, nesta revelação, como um gênio de conto de fadas a gargalhar diante da visão do teu sexo.) O circunstancial, o incidente, o acaso e azar biográfico devo dizer, aparece claro, evidente, simples, como se fosse ele e ele só. E vem até com um enredo lógico, que faz sentido a qualquer olho precário. Veja. Dizemo-nos, diria, que em meio de 1965 na tela do Cine Olímpia houve o filme “As aventuras de Sabu”. Nele aparecia um grande e gigantesco gênio gargalhando. Tamanho impacto me causou esse personagem que passei, a partir de junho de 1965, a imitá-lo. E esta teria sido a razão pela qual passei a brincar de te fazer medo, gargalhando. Veja como faz sentido. Vi o filme, o filme me impressionou, e por isto passei a brincar de gênio. Isto é o que contamos, isto é o circunstancial, Carmem. Nele já está expresso todo o óbvio que podemos contar, assim como nos sonhos que relatamos. Isto é o circunstancial da realidade, Carmem, a caricatura que deforma como se não deformasse, e que se apresenta convencional como um quadro decorativo para a sala de jantar. Mas as figuras desse quadro são um pentimento. A mocinha com as bochechas redondas, as bochechas são nádegas, que por serem gordas aparecem no quadro como de uma jovem saudável, de cores vermelhas, no ambiente da ceia familiar. (Um bem-te-vi canta agora, por acaso, e esse incidente, bem sei, integro como a lembrança dos bem-te-vis que cantam no cemitério, e isto quer me impor a volta a meu pai moribundo. Cala-te, pássaro. O teu incidente não fará o meu roteiro e enredo.) Então, Carmem, saibas, sei agora, que a minha gargalhada se deu porque eu te queria. Ela era a impossibilidade do meu sêmen explodir em tua vulva, e saibas que o sêmen naqueles anos foi uma descoberta tão maravilhosa quanto o gênio que surgia de uma garrafa. E isto não é uma frase, não é uma invenção, senhorita. Eu gargalhava para melhor te abraçar, para assim, como se estivesse brincando, te comer. E disto sei porque sei que a gargalhada se mostrou depois que a tua boceta sobrou nos pêlos, que me exibiste, como se distraída estivesses. Com ares de acaso. Eu estava sentado no chão em um plano mais baixo que tu, que te punhas sentada no batente do último quarto da casa. Estávamos no quintal. Ali era nosso território de encantamento. O nosso anexo, essa contradição que era uma garra segura e ao mesmo tempo abismo e perdição.

Então a tua vulva me ofereceste, com generosidade, prodigalidade, delicadeza, tentação, irresistível e invencível, invencível, invencível, Carmem. Mais uma vez choro a esta lembrança. Este choro, sei, é não só um gozo perdido, é não só um gozo tardio, de compensação. Ele é a lembrança que me dá esse conhecimento da inocência. Tivesse eu a ciência de hoje então, eu enviaria a ti um beijo, a ti propriamente não, Carmem, mas à tua vulva. Um beijo como um pássaro, como uma lança, como uma flecha, como um falo que te penetrasse, exatamente por entre os pêlos que me abrias. Mas não, sou apenas um velho, com todas as limitações de que um velho é feito. E por isto me vem um irreprimível soluço. Agora. Para aquela manhã, tivesse eu o poder do desejo, pudesse o desejo ser o poder, eu teria voado sobre ti e em ti entraria com pênis, corpo, alma, todo o meu ser. Até que tu desfalecesses e te aninhasses em mim, sem forças de certo modo, mas com reservadas forças para falecer aninhada e se desejar aninhada enquanto eu te fodia. Percebes, Carmem?

Por isso digo, desenhar o teu retrato é lembrar-te com o sentimento do falo. E ele era fome. Poderia ser dito que ele, falo, que ela, a fome do falo, unificava todas as mulheres, todas eram iguais, porque todas tinham boceta. Digo bem quando digo unificar, e não dizer reduzir. A redução não é tão ambiciosa, não abrange um gênero, penso. A redução se dá para um determinado, um indivíduo. Então eu penso que poderia ser dito que te desejei como desejaria a uma qualquer, a qualquer uma, porque uma qualquer e qualquer uma tinha o meu alimento. Mas dito assim, dizer isto é que será uma redução. A fome também possui uma direção. Ela somente devora qualquer coisa, coisa qualquer, no limite da alienação. E ainda aqui, sinto, ao confundir fome de sexo com fome de alimento, sinto que faço ainda uma redução. Porque, isto é o que importa dizer, o meu desejo passou a ser de ti, de ti tua boceta determinada. Sabia, claro, não ser a única. Sabia, claro, que outras teriam o mesmo, digo, um sexo semelhante, mas o que eu queria era a ti, só e somente, como em anos maduros me ensinou Joaquim Cardozo, “Eu quero a ti só somente”, ao se referir a uma pessoa. Mas eu assim me referia à tua boceta determinada. A razão é simples, melhor dizendo, é escrita, enunciada de forma simples, “eu queria a tua buceta”, com u, mas a razão mais simples era que eu desejava a mulher na altura dos meus 15 anos, a mulher à minha feição, (e penso sempre, quando digo “a mulher”, naquela buceta revelada, no espaço das tuas coxas que a calcinha folgada permitia ver), a mulher que era uma transgressão, não fosse o próprio sexo naquele tempo e crença uma transgressão. A escopo gravo: a tua buceta era luz e alucinação. Se fosses tu, a tua pessoa, Carmem, uma santa, a tua buceta seria transportada para a mais alta hierarquia, e aquele Δ peludo nas paredes dos banheiros seria um símbolo esotérico a reunir e encarnar uma nova Santíssima Trindade, ela, mais ela, e ela, a fazer um escrínio da menina por nome de Carmem.

* De “Boa noite, irmão”.

URARIANO MOTA

Urariano Mota é natural do Recife. Publicou o romance "Os Corações Futuristas", cuja paisagem humana e física é a ditadura Médici, no Recife. Tem inédita uma novela policial, "O Caso Dom Vital". Nela, critica cruelmente o ensino em colégios brasileiros. Tem contos, crônicas e artigos publicados em lugares que vão da Europa ao Brasil.



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:: março 27, 2006 02:32 PM



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