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Arno Schmidt: “um romance arriscado”
por Elisa Andrade Buzzo

Como uma folha suspensa movimentando-se ora para baixo, ora quase voltando para cima é o fluxo do romance do jornalista Marcelo Rezende, Arno Schmidt (Planeta, 2005) – esquadrinhando a consciência das personagens, ou desvelando cenas em longas descrições:

Ela se solta e sobe, gira próxima às outras ainda fixas e fortes e em seguida começa a descida. Os movimentos são irregulares, e o objeto parece ter poder para começar uma outra escalada, mas isso é uma ilusão e ela cai, continua caindo, prossegue assim até chegar ao chão e permanecer inerte. Sem ação. Exatamente como esta, entre as pernas de Ultravioleta.”

Neste que é o primeiro romance de Marcelo, que foi correspondente em Paris da Gazeta Mercantil e diretor de redação da revista Cult, um grupo de pessoas segue vestígios da passagem de Arno Schmidt em um país. O grupo, formado por Ultravioleta, “uma inegável e preciosa maravilha, uma ilustração de tudo o que há de mais belo”, Schäfer, “o gênio do Leste”, Waltzdorv, “um feliz consumidor de anfetamina” e a coxa Doce Melinda, cujo pecado “parecia ser o ódio à própria perna”, busca esboçar uma “cartografia emocional do espaço onde viviam”, contando a experiência de pessoas ilustres que haviam passado pelo país.

Ainda que Arno, personagem de Arno Schmidt, não seja o escritor alemão homônimo, como frisa Marcelo, há traços de sua vida real no decorrer do romance. Na entrevista a seguir, o autor dá preciosas pistas para decifrar o livro e acompanhar sua narrativa por vezes misteriosa.

Arno Schmidt (1914-1979) é considerado um dos maiores escritores alemães do século XX, embora seja pouco conhecido no Brasil. Escreveu uma variedade de ficção, além de dezenas de programas para rádio sobre literatura inglesa, norte-americana e alemã. Também traduziu diversos autores, dentre eles Edgar Allan Poe.

Paralelos - Como conheceu a obra de Arno Schmidt?

Marcelo Rezende - Possivelmente no final da década de 80 e início dos anos 1990, quando na França, Inglaterra e EUA houve um momento de redescoberta de sua obra; isto é, quando seus textos foram traduzidos e seus livros passaram por uma segunda vida, que, na verdade, se estendeu por toda a década passada, sobretudo na França.

Um das questões é ser a obra de Arno de difícil tradução, porque seu trabalho se dá mesmo na reconstrução da língua alemã. Esses fenômenos de “resgate” literário (originados pelo mercado, “zeitgeist” ou qualquer acontecimento mais misterioso) serve para alertar outras gerações sobre autores que se afastaram ou foram afastados do cânone literário. O mesmo acontece com os escritos do suíço Robert Walser (1876-1956) agora, um autor genial, e o mesmo aconteceu nos últimos dez anos com Campos de Carvalho por aqui.

Na verdade, a história da literatura pode ser contada de diferentes formas, ela é repleta de narrativas paralelas, autores que se engajaram em seus projetos contra ou a despeito do gosto da “crítica no poder” de seu tempo. Para autores e leitores, é sempre interessante um passeio por esses caminhos paralelos, porque termina por esclarecer conceitos como poder, tempo, passado, vitória e derrota. O que é sempre educativo. Sobre o fato de sua obra ser desconhecida e não traduzida no Brasil…

Vivemos em um país do Terceiro Mundo, e assim a informação circula de maneira torta, e mesmo quando chega por aqui, chega como eco de alguma coisa que foi dita de modo mais claro antes e em outro lugar. Há problemas de emissão e recepção. Logo, há uma preferência em sempre comentar e traduzir os mesmos autores (porque assim se evita o risco do desconhecido), e quando há novidades elas chegam pela via do mercado, pelo fato de um grande número de exemplares terem sido vendidos nos países de origem. Não há Arno Schmidt, não há B.S. Johnson, não há Antoine Volodine, Tanguy Viel ou Stefan Themerson. Não há centenas.

Além disso, há o fato de que grande parte dos resenhistas e críticos da imprensa só lêem tradução dos livros. Logo, o julgamento se estabelece a partir de um universo restrito, feito pelas escolhas (nem sempre “literárias”) das editoras. Assim, não se comenta nem se pensa os rumos da produção literária hoje, e se vive como se nada estivesse acontecendo ou acontecido nos últimos 70 anos. O que termina gerando uma avaliação empobrecida da produção literária brasileira feita hoje. O diálogo não é apenas com o passado, é sempre com um mesmo passado. Mas há Roberto Bolano, Thomas Pynchon e W.G. Sebald traduzidos. Nem tudo está perdido.

Paralelos - O que o levou a escrever um romance que Arno Schmidt tem como personagem (e título...)?

M.R. – Essa é uma questão interessante, dessas que se repetem sempre na mente de quem escreve, que é um “por que” inicial. E, claro, nenhuma resposta é muito razoável. Tentando uma, diria que há uma pergunta silenciosa nos romances e escritos realizados por Arno: como pensar, escrever ou descrever um estado do mundo quando este se encontra em completa dissolução de valores, onde não existe mais crença, utopia ou mesmo uma ingenuidade juvenil capaz de abrigar os anseios de quem sonha? Como então dar conta dessa desordem no campo da ficção?

Pensando nessa questão, o romance tomou por 112 páginas essa mesma inquietação e fez Arno Schmidt passear pela realidade hoje, que é a da ansiedade, “retorno a ordem” e depressão, a fim de contar uma história. Na verdade, “Arno Schmidt”, o romance, procurar extrair instantes romanescos desse mesmo momento, que é politicamente, emocionalmente e esteticamente caótico e regressivo, para dizer o mínimo. Além de tudo, “Arno Schmidt” é um nome com uma bela sonoridade…

Paralelos - Você acha que é desnecessário compreender a obra de Arno ou mesmo saber quem foi o escritor para bem entender o romance?

M.R. - Isso nem se coloca. Acredito que o leitor pode ler o livro, acompanhá-lo e construir também sua narrativa e suas histórias a partir daquelas contadas no livro, porque o romance não conta uma única história. Conta várias. Não existe essa relação direta entre o romance e o autor alemão. O romance não é “literatura experimental” (e sabe Deus o que deve significar isso hoje… possivelmente, nada), “vanguarda tardia” ou qualquer coisa do tipo. Na verdade, não poderia ser diferente, porque o Arno Schmidt que dá título e é um personagem do livro não é o autor alemão!!! Porque isso hoje seria impossível. Uma falsidade. Trata-se de outra coisa, e que tem a ver com o modelo de ficção e intenção do romance. Explico.

Eu diria que “Arno Schmidt” é um romance arriscado (não “difícil” ou algo do gênero), mas que em certa medida acredita na possibilidade de que o leitor pode se aproximar de um romance que tem um personagem misterioso para ele e que não participa do modelo de ficção predominante hoje no Brasil, que oscila entre uma nostalgia do “grande romance” de caráter realista/naturalista/regionalista/histórico e a literatura confessional, a “ficção do eu”, as biografias disfarçadas, a literatura “do meu pequeno mundo”. Uma tendência que tenta se disfarçar como ficção, e que daria uma tese sobre o atual momento da criação…

Logo, “Arno Schmidt” está em um território estranho, mas repleto de possibilidades. Isso porque se trata de um romance “contemporâneo”, no sentido dado por Andy Warhol sobre o caminho da arte. No início do livro há uma epígrafe do líder chinês Mao Tsé-tung. Uma convocação em nome da revolução, extraído de seu mítico “Livro Vermelho”. Mas quem é esse Mao que fala? O líder da Revolução Chinesa e da política do século 20? Não, não pode ser mais ele.

Quem fala é um Mao que está nas camisetas, nos sites, no rock, ou nas telas pintadas por Warhol. Isto é, uma imagem de Mao, apropriada pela mídia, pela cultura, pela história, como diz o jornalista Alcino Leite Neto (editor no jornal Folha de S. Paulo e da revista eletrônica Trópico), um homem brilhante. Enfim, o Arno Schmidt que é discutido e age no romance é ele também uma apropriação das fotos com seus gatos, das lendas sobre sua insanidade, das fofocas literárias em colóquios internacionais. Não existe mais esse “real”. O que existe são camadas de imagens e consumo dessas mesmas imagens, que está na base da construção de nossa “popland”.

Paralelos - Você preocupou-se em inserir no livro informações sobre Arno Schmidt, como sua participação na guerra e momentos de pobreza em sua vida? A ficção acaba quando se trata de falar de Arno?

M.R. – A ficção não acaba. Apenas a ficção importa. Mas se voltarmos para a resposta acima, vamos ver que nada pode ter uma leitura tão direta assim, e talvez fosse necessário se perguntar, além de qual Arno Schmidt é esse, também sobre qual guerra é essa, a do passado ou a do presente? Mas qual exatamente? Estamos então no reino da mais completa ficção, mesmo se ela guarda um eco, um parentesco muito próximo com os fatos.

Meu projeto de ficção é pensar sobre um momento, um instante no qual se acreditava na construção de utopias e de atitudes politicamente revolucionárias, um tempo de engajamento constante contra o que se acreditava ser o poder estabelecido; contra todas as formas de poder, contra um modelo de Estado ou de sociedade. Penso muito na atmosfera dos anos 1960 e 1970, quando em todo mundo jovens de pouco mais de 20 anos ou menos se articularam em grupos de guerrilha em diferentes países a fim de promover uma “transformação”, prontos para a luta e pelo sacrifício em nome de uma causa, se envolvendo em atos de violência e terror porque acreditavam ser necessário fazer “uma revolução”.

O que me interessa é o romantismo contido nisso, esse instante no qual se criou um discurso político radical (marxista, terceiro-mundista) e um show. Cada jovem revolucionário poderia ser também um “popstar”, um artigo de consumo estético. O romance “Arno Schmidt” se passa nesse tempo e nessa nação, onde tudo isso acontece, um tempo e uma nação que são míticos, mas que são parte de um realidade possível e de um passado muito recente. Me interessa então voltar a essa atmosfera por meio da ficção, recuperar esse mundo e tentar recolher nele reais instantes romanescos.

Isso, claro, com o desejo de poder promover um comentário sobre esses mesmos estados políticos, emocionais e estéticos hoje sem com isso alienar o leitor. Isto é, que seja ainda surpreendente e prazeroso ler o livro pelo que ele é, sem um “modo de usar”, no qual seja ainda mantida na história a mesma curiosidade básica: “O que vai acontecer depois?”, que é a pergunta que todo bom leitor se faz diante de uma obra que realmente o interessa.

Como esse é meu primeiro romance (logo, recheado de imperfeições e erros de cálculo), esse projeto foi apenas apresentado, e no livro que estou procurando escrever agora, me parece, ele se mostra por inteiro, talvez com mais controle. Mas a intenção continua a mesma: retornar a esse estado mental e emocional do radicalismo político e estético a fim de extrair dali os instantes romanescos para poder contar uma história.

Paralelos - O trecho da visita a um cemitério se desvenda como um fluxo de consciência. No entanto, outras passagens do livro, em sua maioria descritivas, remetem a esse tom labiríntico, e por vezes uma cena é desvendada aos poucos, com seus longos parágrafos estendidos com ponto e vírgula ou mesmo vírgulas inseridas com freqüência. Como foi essa escolha na hora de escrever o romance?

M.R. – Eu não teria uma resposta muito precisa sobre isso, a não ser o desejo de ver o texto como uma massa compacta formando o livro, porque é visualmente mais interessante… O escritor francês Alain Robbe-Grillet, fantástico, conta uma anedota sobre uma menina que viu na casa de um amigo e que escutava sua mãe lendo uma história para ela. Após o “era uma vez”, ela interrompeu a mãe para perguntar: “Mas quem fala, mamãe?”, quem afinal disse que “era uma vez”?

Grande parte de “Arno Schmidt” é a resolução desse mesmo mistério. Quem fala? Quem conta aquela história e descreve aqueles personagens? “Mas quem fala, mamãe?” Bom, convido todos a lerem o livro e participar da resolução dessa questão. Entre tantas outras… Talvez, nesse sentido você pudesse ler “Arno Schmidt” como um romance policial, no qual mistério é saber quem é a testemunha.

Paralelos - Arno me parece uma presença suspensa na narrativa, inalcançável, mas essencial. Você diz em certo momento “a presença do fantasma”...

M.R. – Quando algumas pessoas me pediam para explicar o que é o livro (sem qualquer forma de teorização), eu resumia a questão dizendo que se tratava de algo como os filmes de David Lynch, o Lynch de “A Estrada Perdida” ou “"Mulholland Drive": você, como espectador, é arremessado em direção a uma história que muda suas próprias regras enquanto ela é contada, um mistério que nasce da criação (pela palavra, som e imagem) de uma “atmosfera”. Lynch é o rei da criação dessa atmosfera que reúne erotismo, violência, crime, sonho e insanidade. Logo, ele é muito mais “realista” quando filma o atual estado da humanidade do que um documentarista com o desejo de “capturar” uma “realidade”, o que já uma coisa interessante…

“Arno Schmidt”, recuperando Lynch como uma ilustração (sem qualquer pretensão quanto a isso), procura criar também uma “atmosfera”, uma na qual os personagens se desenvolvem e suas histórias podem ser contadas. Sobre “o que significa” isso ou aquilo, o que “isso quer dizer”, cada leitor terá uma resposta diferente ou uma mesma resposta apenas lendo o livro, sem precisar de “referências” ou ferramentas de qualquer ordem. O que interessa aqui é como o leitor se sente ao atravessar essa mesma “atmosfera”. O que interessa aqui é sua abertura ao imprevisível.

Elisa Andrade Buzzo, 24, nasceu em São Paulo. Publicou o livro de poesias "Se lá no sol" (7 Letras, 2005). Co-edita a revista de literatura e artes visuais "Mininas" ( http://www.mininas.com.br ) e mantém o blog Calíope (http://caliope.zip.net).



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:: março 28, 2006 06:07 PM



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