Era uma vez, duas, três, quatro, até que ele não agüentou mais e deixou o lar. Doce lar por aqueles dias, hoje lembranças. Nunca fiz por mal, o gato caça o rato, e eu, bem, seguindo instintos, feito uma qualquer, cheia de necessidades, um macho em pele de fêmea, foi o que ouvi certa vez. Caçadora. Ele suportou bem, mas as histórias foram ficando complexas, fingia tão completamente que me desconhecia, fácil, como trocar de roupa. Adoro roupas novas, novas sensações, adoro gozar, nada melhor nessa vida, basta um olhar, um toque, mas nada de exageros, a sedução é imprescindível, disso sei melhor que ninguém, nada de chegar achando que tá fácil, sou o que sou e sei o que quero, sempre. Choro sozinha no banheiro, cheia de manha, dengosa mais que angorá, unhas afiadas sei ser anjo e demônio, depende de quem vem. Se meter o pé na porta a coisa pode ficar feia, rodar a baiana faz parte do repertório, adoro me lambuzar: doce de leite, iogurte, mel, acho uma delícia. Queria tanto que ele voltasse. Essa lua me deixou mulherzinha, fazer comida, arrumar a casa, botar a cerveja pra gelar e esperar ele adentrar a sala, suado, cansado, reclamando da vida, me beijando salgado, apertando minha bunda, subindo o vestidinho, afastando minha calcinha e metendo no meio do corredor, aquela rapidinha que abre o apetite, que prenuncia a noite, feito boba espero em vão, a porta nem se mexe. O jantar já pronto, mesa pra uma, hoje não vou sair de casa, vou curtir minha fossa escutando Marisa Monte. Maravilhosa, marquei depilação pra sexta, nada de bom nessa tv, melhor continuar ouvindo Marisa mesmo, as luzes todas acesas, a solidão desses dias só se conhece depois das sete. Quem dera tivesse serão, essa solidão é toda eu e mais que minha, ninguém nem imagina, nem ele, o que ele pensa agora, será o mesmo que eu, saudades, saudades, nem um telefonema, assim, assim, o que pensa de mim, não basta o que disse, não basta o que eu fiz, não... apenas, nada basta. Agora toda aquela força, aquela vitalidade, some num passe de mágica, a vida, a vida. Sempre saímos perdendo, qualquer que seja a escolha, fiz as minhas, não me olhe assim, sou culpada de tudo, inclusive de ter me apaixonado, não me olha assim, com esse olhar marejado, com essa vontade de esbravejar, te conheço melhor do que ninguém, duvida? Sabe que não pode. Porque não podemos ter direito a perfeição, para quê tanta restrição, não vou negar meus instintos porque alguém que não paga minhas contas disse que isso é o certo. Hoje não estou para quem diz o que é o certo, hoje estou nem pra mim! E não adianta fazer esse bico, quero outros vôos, novos, ah! sim muitos vôos novos, outros ares. Mas não hoje, hoje somente ele a tocar minha pele e a sugar minha língua, mais ninguém, a bolinar minhas coxas, a mordiscar meus mamilos, apenas ele. Sorrio disso tudo, como fico molhada em frações de segundo, praticamente uma Ferrari, de zero a cem em menos de dez segundos, foi o que ouvi certa vez. Não vou me masturbar hoje, outro dia, amanhã no banho antes de ir pro trabalho, agora apenas deitar e ouvir o barulhinho bom, da chuva, da Marisa. Esse cheiro de terra molhada, mesmo a quilômetros de distância do chão de terra batida é tão bom, há explicação física, mas estou de saco cheio, lembrar uma explicação física a essa hora impossível, lembro de... Vou parar de lembrar, a chuva, delícia, melhor que chorar, choram por mim, esse vento frio, esse quarto frio, Give me love Give me love Give me peace on Heart, cheirinho bom, hora de partir pra carne assada, com batatas coradas, alguém servido? Hahahahaha, como se fosse obter resposta, a cozinha ficou com um cheirinho bom, o barulhinho, a chuva, e eu, combinação interessante, porque não perfeita, dizer que Deus é perfeito e inatingível nos faz tão chatos, nada que façamos pode chegar perto, e isso basta, menos a mim, eu não me basto, preciso dele, hummm, carne boa, dessa vez não errei a mão no sal como da última, faltou pegar o suquinho, vou deixar pra depois, senão esfria, e foi esfriando, esfriando, até que aconteceu a primeira vez, cheia de culpas, na segunda ainda, na terceira nem tanto, e mecânico de um lado, passional do outro, porque não pegamos o suco depois? Hoje sei, tão sábia hoje, que posso fazê-lo feliz mais que a mim mesma, só o que eu queria, e continuo, preciso me consolar, um brigadeiro, isso é que vou fazer, a mão coçando mas não vou me masturbar hoje, chocolate também dá prazer. O telefone, será que não paguei a conta, parece até que tá cortado, ser solteira ou estar casada, nada basta, estou cortada dos objetivos, dos sonhos, separada de tudo, com medo, muito medo. Medo de mim, de ouvir e não entender, de não perceber que não sei o que quero, embora afirme com todas as letras que saiba. Fraca, nessa capa de forte, nessa sangria, nesse tremer constante em relação ao futuro. De futuro, nada sei, o passado prova que nunca vou saber. Todas as fotos, todos os fatos ainda na superfície, não acredito em mais ninguém, nós dois ali, com todo aquele mar querendo nos abraçar e promessas de amor eterno, ali, eternamente congelado, o momento que o tempo faz questão de afirmar ou, mais ainda, contrariar, contrariada estou hoje, mais até que mulherzinha, contrariada comigo, com ele, com tudo, e com vontade dele, tanto quanto nessa foto, mas os fatos são outros, esses olhos ardendo de desejo nessa paisagem onírica, agora ardem de sono, embalada pelo barulhinho agora menor, a cama grande, vazia, arrumadinha, sem uma dobrinha no lençol, que saco, detesto dormir sozinha, nem o abração que uma amiga recomendou dá jeito, esse brigadeiro ficou uma delícia, eu cada vez mais pronta pra dormir, resisto, nada de deitar antes de estar caindo de sono, cansada de rolar pra lá e pra cá e ter que assistir o Corujão depois, preciso dormir, preciso dor-mir, pre-ci-so de-le, pre-ci-so...
ANDRÉ SALVIANO
André Salviano é aprendiz de feiticeiro, admirador da alma feminina (e do corpo também), Flamenguista sadio (frequentador de Maracanã), estudante de letras da UFRJ e incipiente bibliófilo.
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:: abril 7, 2006 12:41 PM