Se fosse possível chorar por meio de uma carta, o apelo que esta contém seria ainda mais sincero. Mas vocês não parecem medir o prejuízo que uma acusação como essas pode causar a uma reputação em fase de construção ainda.
Pois eu não sou caloteiro, é isso o que eu estou querendo dizer, e nem estou pedindo anistia.
Mas como comparar aquele que arquiteta um roubo com aquele a quem o crime bate à porta? Como que se põe no mesmo plano o engenheiro de um túnel clandestino e aquele que involuntariamente depara com um cofre aberto e cheio de dinheiro? Você encontrar dinheiro na calçada é diferente de você encontrar um cartão de crédito, entrar no caixa automático e sacar um dinheiro. Pois eu cheguei neste apartamento e, é o que eu estou lhe dizendo, o gato, ele já estava lá! Então não se tratava nem de algo a lucrar, mas apenas de uma despesa a menos. Por isso é que eu estou dizendo, se minha integridade for questionada, ou, pior, se exigirem de mim o pagamento da luz equivalente aos seis primeiros meses em que morei aqui, aí sim eu vou concordar com aqueles que se referiram a mim de modo pejorativo quando eu, sem necessidade, cadastrei o meu nome na Light após já tantos meses sem me preocupar com essa despesa, mais exatamente, desde que eu mudei para este apartamento, e apenas pela vontade de ser um honesto contribuinte. Ou seja, apenas por sentimento de culpa. Ou seja, apenas por medo. Você sabe o que eles disseram para mim, você sabe o que eles disseram para mim?
Eles disseram que eu era um trouxa.
Pois foi o que eles disseram.
Então se, como vocês dizem, não se tratava de um gato, se então era um problema com o medidor, aí então eu gostaria de saber uma coisa. Eu gostaria de saber como vocês vão computar a minha dívida, pois, além do mais, é bem possível que eu já tenha restituído o valor desses meses todos em que não me chegava conta alguma, uma vez que os valores das contas que vocês começaram a me mandar a partir do meu cadastro são completamente equivocados! E outra coisa: será também que esses últimos meses pagando em dia não provam que o meu desejo último sempre foi apenas o de sustentar essa imagem correta, essa, vamos dizer, essa minha biografia impecável? Entendo que aquela foi justamente a época do racionamento, não é verdade, quando vocês e o governo vinham com aquela balela de ameaça de “apagão” (que não chovia nunca, que os reservatórios do Brasil estavam secando!.Ora, corta essa.), e ainda cobravam uma sobretaxa daqueles que consumiam mais energia do que o limite preestabelecido por vocês, não é verdade; e eu sei que esses valores que vocês reivindicam, se estão corretos, demonstram mesmo certa, como vou dizer, uma... “despreocupação” da nossa, minha parte com as solicitações por parte do governo de que poupasse, de que poupássemos energia. Mas como julgar a idoneidade da própria Light se os valores mensais da minha conta, depois que eu me cadastrei, nunca diminuíram com o final do racionamento, muito pelo contrário, e sem que agora vocês sequer tivessem mais a desculpa da sobretaxa para multar a gente? E como julgar o descaso de vocês, quando, sempre me fazendo conversar com gravações ao telefone, eu ligava para solicitar a presença de um técnico no meu edifício para averiguar o medidor? Então é assim? Eu alimento a expectativa de pagar no máximo uns cinqüenta reais ao mês e vocês descobrem que eu lhes devo catorze mil e quinhentos e oito reais? E noventa e oito centavos? Ora, e a paciência é... de Jó! de que precisei até que os seus técnicos deduzissem que o portão da frente do meu prédio não podia estar fechado durante o dia, e que – ai, que difícil concluir, não é mesmo! Ainda havia um outro trinco a suspender!? Quanta irritação e desânimo vocês não me causaram e como vou exigir compensação por isso? Como vocês vão fazer sumir essa cicatriz na minha cabeça? Pois é o que eu estou lhe dizendo: foram oito pontos. Pois na ocasião eu estava saindo de casa e me entregaram o papel: “Estivemos aqui”, ou seja, apenas dois minutos antes de eu segurar o papel! Então, estava escrito no papel “Estivemos aqui e encontramos o portão fechado. Favor agendar nova visita.” Daí que eu corri à rua apressado e tropecei naquele mesmo ferrolho, machuquei a minha testa e (como, aliás, não poderia deixar de ser) não encontrei patavinas de técnico algum na rua. Quer saber de uma coisa mais: este já era o quarto bilhete que vocês largavam aqui na portaria. Então depois disso eu corro de volta para o meu apartamento, ligo imediatamente para vocês e aí vocês me informam que “a visita ainda não havia sido comunicada ao sistema”? “Então, se o técnico ainda está na rua!” – eu segurava uma compressa de gelo na cabeça quando eu lhe dizia isso – “Então liga para o técnico e pede para ele voltar aqui, pois eu estou em casa! Entendeu? E faz o favor de avisar a ele que tem um trinco no portão que ele tem que suspender! E diz para ele que é um trinco cheio de SANGUE, você diz para ele!, pois, do contrário, ele não vai poder tocar o interfone, entendeu?”
Você acha que alguém apareceu?
É o que eu estou dizendo para você. Vocês aí não são mole não! Vocês não são brincadeira não.
Mais ainda: por que o prazo de ‘até’ trinta dias para a vinda do técnico? Por que não se podia agendar uma data certa? Quer dizer então que, durante o horário comercial, eu nem posso procurar por emprego? E isso porque o técnico da Light pode, das 9 às 19 horas, nos próximos trinta dias, aparecer a qualquer momento! Por maiores que sejam as solicitações dos clientes, esses prazos só nos fazem desconfiar de que é a própria empresa que impede que seus clientes exijam justiça. Vocês detém o monopólio, vocês fazem o que vocês querem, eu não tenho a opção de não ser um cliente de vocês... assim como eu não tive acesso a nenhum dos números que vocês extraíram do meu medidor – e, portanto, quem me garante que esses valores também não são arbitrários?
Quando vocês, quando vocês querendo conscientizar os moradores da favela a pagarem devidamente pela quantidade de luz que consomem, dizem que quem faz gato é “rato”, imagino que vocês não cobrem pela energia que sabe-se lá quanto tempo eles consumiram ilegalmente. Não é verdade? Um colega meu até me perguntou: “Por que você deve ser considerado como alguém que já tinha consciência do seu erro?” E ele ainda falou para eu dizer para vocês da minha escolaridade; que isso deveria servir de atenuante.
Mas não vou apelar. E, no entanto, só de pensar nos sete milhões que a UFRJ lhes deve...
Tá bom.
Enfim, para que esta sequer se transforme numa questão, ou a fim de evitar novos danos morais e físicos, proponho que cesse a querela e eu prossigo atento às minhas contas.
P.S. Se eu não digo para você como a gente teria conseguido consumir tanta energia em tão pouco tempo não é porque eu acho que isso é uma coisa que não é da sua conta não. Porque eu não vou contar isso para você é simplesmente porque, se eu contar, vai parecer que eu concordo com o que vocês estão me cobrando. Sendo que eu tenho que lhe dizer que, além do mais, eu cada vez me convenço mais da minha absoluta inocência em todo este caso. E acontece também que, mesmo que eu contasse a verdade para você, você não ia acreditar no que eu ia lhe contar. Porque já no open house que eu fiz quando eu me mudei para este apartamento, um amigo meu apareceu com quatro holofotes, desses que iluminam o céu, você sabe, aqueles que eles usavam para chamar o batman, desses que têm nos faróis pra alertar os navios, e esses holofotes continuaram lá em casa depois. Pois nem me pergunta aonde foi que ele arrumou esses holofotes, porque eu não sei, mas o que eu sei é que eles chegaram lá em casa num caminhão. Você já se imaginou com quatro holofotes na sua casa? Isso por si só já seria um motivo razoável para fazer uma festa, não é? Pelo menos uma vez por ano, você não faria uma boa festa só pelo prazer de ligar e mostrar os holofotes para os seus amigos? Pois eles ficavam no quarto, cada um encostado num dos quatro cantos do quarto, todos apontando para o centro, onde eu marquei um X no chão. E de noite eu ligava sim os quatro para me bronzear artificialmente, mas, é o que eu estou lhe dizendo, isso não tem nada a ver com a questão. Você acha que um mês inteiro num hospital com queimaduras não foi punição suficiente?
LEANDRO SALGUEIRINHO
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:: abril 22, 2006 11:54 PM